um blogfolio de coisas sonoras

8.6.03


Walter Hidalgo Tangos nos IV encontros de Música de Barcelos
Noite de tango merecia casa cheia

O vermelho do sangue argentino não é um vermelho qualquer. Transporta em si todos os traços melódicos e melancólicos, toda a poesia de formas, movimentos e palavras, toda a vida boémia e embriagada de amores que caracterizam o tango de Buenos Aires. O escritor Jorge Luís Borges era da opinião de que nenhum outro maestro ou músico consegue despertar o mesmo sentimento que qualquer “tanguero” latino provoca. O dueto de músicos argentino que actuou na passada sexta-feira à noite, no auditório de S.Bento Menni, provou exactamente isso.

Walter Hidalgo toca de uma forma irrepreensível bandoneon (instrumento alemão da altura da II Guerra Mundial que produz os sons que caracterizam a saudosa série “Allô Allô”), respira com ele e canta chorosamente de olhos fechados. Na guitarra, Ramon Maschio também fecha os olhos e colmata a agressividade e agitação de um tango moderno, ao estilo de Astor Piazzolla, com suaves harmónicos clássicos. Juntos, assumem uma cumplicidade total. Fazem percussões nos instrumentos, assobiam, desafiam-se um ao outro e, com um ritmo quente, atingem momentos verdadeiramente onomatopaicos. Os dedos aceleram e enterram sentimentos a uma profundidade desmesurada.

No centro do palco, os passos de dança protagonizados por Dario e Inês completam o cenário de luzes intermitentes e dão cor aos sons. Num misto de movimentos sensuais, que oscilam entre uma suavidade feminina e o automatismo provocado pelo ritmo sincopado e, por vezes, malévolo do bandoleon, enlaçam-se em arabescos eróticos. Criam personagens diferentes de todas as vezes que entram em palco sem, contudo, desvirtuar os estereótipos da dança: um homem, em trajes de rufião, que simula proteger quando explora; e uma mulher, com um vestido sensual, que finge entregar-se por amor e não por medo.

O público inicialmente silencioso, aplaudiu de pé no final. Contudo, não fez esquecer a quantidade de lugares vazios em nada condizentes com a qualidade do espectáculo. Uma coisa é certa, não é só uma questão de divulgação. É preciso fazer muito mais para combater o marasmo na cultura barcelense.

abril 2003