15 anos de Carreira
Há alguns anos atrás, o famoso humorista Herman José, vestido de uma das suas personagens mais carismáticas, cantava: “Tony, o meu nome é Tony Silva. Sou um grande criador de toda a música Ró”. O Tony que esteve presente na passada sexta-feira nas Festas das Cruzes não é nenhum personagem. É um real cantor romântico com uma séria carreira de 15 anos de sucesso. E, tendo em conta o cenário de diversões e pessoas que nestes dias preenchem o centro histórico da cidade, a escolha não poderia ser melhor. O espectáculo de Tony Carreira é perfeitamente condizente com o clima cultural que se respira neste tipo de festas.
Eram apenas 20h30 quando as pessoas se aglomeravam na frente do palco situado na Av. da Liberdade. E esse facto já dava para imaginar o que iria acontecer. Se o fim-de-semana de Cruzes já por si arrasta milhares de pessoas à cidade, tornando-a inevitavelmente caótica, uma noite com o espectáculo do famoso cantor seria claustrofóbica, diria mais, impossível. E assim foi, ora não fosse o Tony Carreira o artista que esgota o Pavilhão Atlântico, em Lisboa, e até o Olympia de Paris. Num curto espaço de tempo, a cidade foi invadida.
O Tony Carreira não é um artista qualquer. Ao contrário de muitos artistas que animam festas, tem uma banda com bons executantes e não canta em “playback”. Tem um guitarrista chamado “Fifi” de cabelos compridos que parece um elemento de uma banda rock de um “glamour” duvidoso dos anos 70. Mas é só o aspecto, porque a música que apresenta é ligeira e ultra-romântica. As fãs deliram. Sabem as letras de cor. Cantam com entusiasmo e gritam nos intervalos: “Tony, Tony, Tony”. Quase choram de felicidade...
Durante um instrumental com guitarras à Dire Straits, o artista e as duas elegantes coristas vestidas de negro, saíram do palco e mudaram de roupa. O artista passou de um branco tranquilo e harmonioso para um vermelho néon condizente com os vestidos decotados até ao umbigo das duas vozes femininas e com as luzes fogosas e intensas do palco. Tinha chegado a parte acústica e mais intimista do concerto. Protegido pela guitarra acústica desabafou: “Eu sou muito tímido e esta música tem muito a ver com aquilo que eu sou. Na altura era mais rebelde. Hoje estou mais calmo”. Assim, surgiram os primeiros acordes de “Sonhos de menino” e o público, na sua maioria composto por mulheres, delirou. O concerto terminou antes da meia-noite para dar lugar à habitual sessão de fogo de artifício. Ignorando o espectáculo no firmamento, uma multidão de fãs apinhava-se junto ao palco para pedir um autógrafo.
Já em horas tardias, quando a cidade tinha voltado ao normal vazio das ruas, o camião TIR com letras garrafais a dizer Tony Carreira partia para o seu destino. “Ai destino, ai destino” cantava alguém numa das barracas de comes e bebes ainda aberta. Há fenómenos inexplicáveis, ou não.
Maio 2003