um blogfolio de coisas sonoras

8.6.03

Encerramento das comemorações dos 50 anos do Grupo Folclórico de Barcelinhos
O Festival do Rio venceu a chuva 


Pela primeira vez, em 23 edições, o Festival de Folclore do Rio teve de enfrentar um adversário inesperado: a chuva. À hora do início do evento que é, cada vez mais, um dos maiores acontecimentos culturais regulares do concelho, a chuva ameaçava. Apesar do contratempo, o Festival começou. A primeira actuação esteve a cargo do grupo Xistrália, da Galiza. Seguiu-se o grupo da casa e uma espécie de irmão gémeo vindo das Américas: o Grupo Folclórico Migrante de Barcelos, (de Toronto, Canadá) com trajes e músicas inspiradas no rancho de Barcelinhos. A chuva começou a cair com maior intensidade durante a actuação dos alemães Volkstanzgruppe Frommern, que ainda conseguiram levar a prestação até ao fim com a impressionante e perigosa “Dança da espada”. Depois, nada se poderia fazer. Ainda não eram 11 da noite, e uma enorme chuvada obrigou as pessoas a abrigarem-se onde podiam: debaixo dos dois primeiros arcos da ponte medieval, no quartel dos bombeiros ou na sede do Grupo de Barcelinhos.

Devido aos compromissos assumidos pelos participantes estrangeiros, a organização começou por dar o Festival como acabado. Mas logo se reuniu como que em gabinete de crise, e antes da meia-noite já se anunciava que o Festival continuaria no dia seguinte, domingo – só com os convidados estrangeiros.

Antes, os mais afortunados tiveram ainda oportunidade de participarem num momento raro. Dentro do quartel dos bombeiros, e enquanto cá fora a chuva caía com intensidade, membros do Ballet Folk de San Luís Potosi, do México, improvisaram alguns temas do seu reportório, aquecendo vivamente as almas dos “espectadores”. Um coro “tequilla”, trompetes, uma enorme viola baixo, violinos e uma harpa faziam esquecer a chuva. “Una más”, pediu o entusiasmado público por mais de uma vez.

Pela mesma altura, também o grupo vindo da Rússia e os galegos, abrigados na sede da organização, também exibiam alguns dos seus temas. Misturavam-se os sons e as cores: as agudas vozes russas, uma tarola ao desafio, um bailado alemão limitado pelo espaço, a fluorescência das vestes malaias, os ritmos ciganos do conjunto galego, as gaitas de foles e as concertinas… um verdadeiro convívio internacional.



Cinco culturas diferentes

Apesar de não ter sido possível garantir as mesmas (boas) condições técnicas que foram usadas no sábado, e da dificuldade em gerir o tempo de actuação dos russos e dos mexicanos (que nesse mesmo dia também actuaram em Monção), a organização proporcionou ao público um Festival de muito boa qualidade – com algumas actuações daquelas que dificilmente se esquecem.

O importante era, uma vez mais, proporcionar ao público a possibilidade de assistir ao vivo a músicas, danças e coreografias de qualidade. E isso, com esforço e capacidade de organização, foi conseguido.

A primeira actuação da noite de domingo foi do Student’s Folk Ensemble Katowice (Polónia), fundado em 1969 e composto por estudantes da universidade da Silésia e colégios da mesma região. Apresentaram uma dança bastante teatral – uma espécie de ritual de acasalamento – e outra bastante acrobática. A música tornava-se ainda mais alegre com os gritos e assobios dos dançarinos (o que se tornou uma constante em praticamente todos os grupos) e surpreenderam, no final, ao despedirem-se interpretando uma música popular portuguesa – cantada em português, com forte sotaque. Como sempre acontece nestas ocasiões, a assistência rendeu-se à simpatia.

Depois da Polónia, um salto até ao outro lado do mundo.

“Olá” – foi a palavra de saudação aprendida e repetida pelo grupo malaio, Student’s Perfoming Arts Association, mal estes entraram no palco. Utilizavam instrumentos orientais típicos e começava a revelar-se interessante a forma como diferentes povos, com culturas muito díspares, faziam uso dos mesmos instrumentos – violino, flauta e concertina. Com vestes de cores fluorescentes apresentaram uma dança com gestos, ritmos e movimentos sensuais – o simples movimento das mãos das bailarinas como que fascinavam. Durante a actuação deste grupo, homens e mulheres nunca se cruzaram em palco.

Um ambiente muito diferente do grupo que lhe seguiu – novamente, e sem chuva, o Volkstanzgruppe Frommern, da Alemanha. Desde 1978 que possuem uma ligação forte com o rancho folclórico de Barcelinhos. Apresentam um traje com mais de duzentos anos e danças burguesas firmes e aprumadas: “Dança dos tecedores”, “Dança das fitas” e “Dança da espada”. Nesta última dança entrelaçam as espadas formando dois conjuntos de oito que servem de pedestal e elevam as “vozes do reino”. Dois divertidos momos tentavam quebrar a rigidez da dança fazendo emergir as primeiras gargalhadas. As cores das vestes, os sinos que tilintam e a máscara risonha que possuíam contrastavam com o aspecto aprumado e formal dos restantes elementos.

Da Rússia surgia toda a energia de passos e sons com o Ensemble Stepnye Zarnitsy. Uma tarola efusiva, mudanças bruscas de ritmo, balalaicas, gritos marcados e o som dos pés despertavam a assistência. “Raio de Verão na Estepe” foi uma das apresentações. Movimentos tipicamente russos reveladores de uma ginástica impressionante. Também cantavam e disparavam gritos. Gritos de guerra. Ou talvez não. Simplesmente condimentos de uma espécie de dança de acasalamento. A falange de apoio russa incitava o restante público arrancando o maior aplauso da noite.

O último grupo da noite, o Ballet Folk de Sam Luís Potosi, do México, remetia os pensamentos para o Speddy Gonzalez. Os vestidos das mulheres eram simplesmente deslumbrantes. Produziam movimentos e efeitos circulares coloridos encantadores.

No final um par de cada país dançou uma chula do Minho. Um momento interessante, quanto não seja, pela estranheza.

TE + CB
julho 2003