um blogfolio de coisas sonoras

7.6.03

Classified e Pituba no Olá Barcelos
O incomodativo gosto dos outros

Não existem locais em Barcelos que promovam música com regularidade. Ponto final. Não basta uma agenda de concertos arbitrária de um bar qualquer, é preciso uma dedicação que, por vezes, ultrapassa a simplicidade de ganhar dinheiro a curto prazo. E, num circuito de bares, apenas existe uma realidade: as bandas e outros projectos pedem cachets baixíssimos porque não têm outras oportunidades para se mostrar ao público e, por isso, aceitam qualquer contrato para tocar. Alguns proprietários, muitas vezes com poucos meios financeiros, aproveitam essas condições e o baixo “preço de mercado”, e vulgarizam certos projectos ao nível do karaoke, metendo tudo no mesmo saco. E se os cachets não pagam as despesas necessárias para fazer um bom espectáculo (com as exigidas qualidades sonoras), também não pagam projectos extra território barcelense. Por outro lado, o Cellos Rock deixou de existir e, com ele, uma série de projectos que procuravam uma oportunidade de actuar ao lado de outras bandas mais reconhecidas. O (Cellos) Rock na Barragem não revela a mesma qualidade e a mesma aproximação. A maior parte dos concertos que se organizam no concelho não passam de pimbalhadas, de meras incursões na “Parolândia”. Salvo raras excepções, em que os músicos, artistas e promotores cooperam entre si e tentam fazer com que a cidade não fique entregue ao vazio, continuam a alimentar-se fantasmagorias. Pelo menos, no Verão tenta-se combater esse vazio. Dois exemplos: as Noites de Verão da escola de música Oops! e parte da programação do Olá Barcelos. Este último, assume cada vez mais um carácter compensatório e revela-se insuficiente numa cidade com muito mais para mostrar.


Música? Pode ser... mas baixinho

Na passada sexta-feira os barcelenses Classified actuaram no Olá Barcelos, mais concretamente na esplanada do TrianguBar na Av. Alcaides de Faria. Uma actuação que foi ameaçada pela intervenção, por volta das 23 h, de dois agentes da PSP. O que já se torna habitual. “Mais baixinho ou acaba-se já a música”, interromperam. A esplanada ampliada remete-se ao silêncio e contempla uma actuação (não) prevista, caricata, ou simplesmente ridícula. Abordaram o guitarrista e o dono do bar que nada tinham a ver com a situação. E a simples prova de uma licença camarária foi o suficiente para o regresso à música. As pessoas na esplanada assobiaram e protestaram: “Vai-te embora”. Uma garrafa de água cai de uma varanda. E os Classified regressaram mais soltos ao seu rock remendado com profundas raízes blues e viagens nos 70’s. E é assim que se quer o rock. Nada lavado, nada tímido, nada subjugado, nada comprometido. Os melhores momentos destacaram-se pela agressividade musical (“If I go insane”), e pela liberdade e à vontade dos elementos da banda. Algo que arrastado a toda a actuação, seria mais vigorante. O público gostou e aplaudiu.

No sábado, a actuação dos Pituba no Pérola da Avenida, também foi interrompida. Desta vez, durante alguns minutos, pela chuva ( que foi suficiente para cancelar o concerto dos Rendimento Mínimo na Noites de Verão da Oops!). O som baixinho, elegante e melado que caracteriza os Pituba não incomodava ninguém. Antes pelo contrário, revelava-se uma verdadeira pérola. O piano e a voz, a bateria e a tuba partilhavam a mesma calma e a mesma alma. Um projecto muito interessante, requintado, e bem adequado (também) a um ambiente de esplanada. Mas, a forma como foram arrumados para um canto impedia o som “baixinho” de chegar à esplanada envidraçada. Os temas gravitam nos anos 30 e 40 e têm um aroma jazzístico – "Autumn leaves" de Joseph Kosma e "Polkadots & Moonbeams" de Jimmy Van Heusen são alguns exemplos. Finalizaram com nostalgia televisiva: a “Balada de Hill Street”.



A cultura com remendos

Existem diferenças. Existe o chamado entretenimento e aquilo que ainda pode ter algum valor artístico intrínseco. Um valor que existe independentemente da televisão e, por vezes, de outros meios de comunicação. Em Barcelos cria-se muito, mas já se criou mais. Não se cria mais porque não há espaço(s). Quer-se há muito tempo um espaço cultural onde se possam dar concertos, fazer exposições, assistir a uma boa peça de teatro, ver filmes de qualidade esquecidos pelos “grandes” cartazes, fazer parte de um cine-clube, ou simplesmente tomar café e poder ouvir boa música. Quer-se cada vez mais. Quer-se cada vez mais um Teatro Gil Vicente livre das teias de aranha e promovido a espaço cultural barcelense por excelência. No dia em que isso acontecer as palmas (se porventura forem exigidas) devem dar lugar a silêncio. Um silêncio por tanto tempo de abandono. O abandono de um espaço valioso e de uma cidade. Por enquanto, fazem-se remendos…


Agosto 2003