O mito de uma velha geração
“Para um espectáculo ser bom tem que haver três coisas: o cantor tem que ser do melhor que há; os guitarristas e os técnicos de som têm que ser os melhores do mundo; e o público tem que ser super super super” - palavras do senhor, Frei Hermano da Câmara, durante o seu espectáculo, no passado sábado à noite, no Pavilhão Municipal de Barcelos.
Apesar destes três elementos não terem sido em conjunto, efectivamente, os melhores do mundo, isso pouco importou para o público que esteve presente e que, ao mesmo tempo, contribuiu, através da compra de bilhetes, para as obras no Centro Social de Durrães. De facto, em termos técnicos, o espectáculo poderia ter sido bem melhor. A qualidade de som esteve bastante longe da perfeição, quer devido à fraca qualidade acústica do pavilhão, quer devido a um ruído incomodativo que levou a várias trocas de microfone e provocou algumas desafinações. Mas, o que importava mesmo era a festa e a oportunidade para muitos de verem, pela primeira vez, Frei Hermano da Câmara ao vivo, num espaço que, apesar de não ter lotado, possuía uma moldura humana considerável.
Acompanhado por uma viola, duas guitarras portuguesas e uma viola baixo, o fadista de trajo negro iniciou o espectáculo por volta das 22h30. Desde logo, pediu desculpa pelo atraso e prometeu “cantar até o mandarem embora”. Apesar da impaciência e ansiedade provocadas pelo atraso, o público acolheu o fadista com uma grande salva de palmas.
No palco imperava a simplicidade. Um pequeno altar rosa forte com uma vela a iluminar uma figura religiosa feminina e uma jarra de flores, conferia o carácter religioso ao cenário apresentado. No mesmo altar, um copo com “licor dos deuses” que aquecia a voz do monge beneditino à medida que ia cantando muitas das músicas de uma longa carreira iniciada nos finais da década de 50.
Apesar da idade já avançada, quer do artista, quer da maior parte da assistência, o espectáculo foi repleto de energia. Cantaram, bateram palmas e riram com as sucessivas intervenções do monge sempre bem humoradas - “Quando se bate palmas não se canta ao mesmo tempo... Sai a voz toda tremida que até parece o Pavarotti!”. Mas, a interactividade com público, nitidamente conhecedor das suas letras e canções religiosas, não passou apenas pelo diálogo. O autor de “Colchetes de Oiro”, tema incluído no seu primeiro álbum datado de 1959, “Sunset and Sentimental”, desceu do palco e circulou perto dos seus fãs presenteando-os com uma série de músicas alegres carregadas de espiritualidade positiva, destacando-se “Jesus” e “Samaritana”. As letras das suas canções são autênticas orações religiosas adaptadas ao fado e resultam na perfeição perante um público também ele bastante religioso e católico.
E assim foi pela noite dentro... A eventual ausência de crentes na missa da manhã de domingo, não muito habituados a concertos até hora tardias, foi certamente perdoada pelo Senhor.
2003