Uma noite de verão urbana
Numa altura em que escasseiam os bares em Barcelos com música ao vivo (aliás, praticamente inexistentes), em que o “gosto incomodativo dos outros” é cada vez mais amaldiçoado, em que se abandona a organização de um festival de jazz e um promissor “Cellos Rock”, em que, por tudo e por nada, agentes da autoridade interrompem espectáculos de uma forma nada condizente com o seu estatuto deontológico, em prol de uma vizinhança intolerante, as “Noites de Verão” da escola de música “Oops!” tornam-se cada vez mais um hábito cultural regenerador. Um evento que vai já na segunda edição e que durante os fins-de-semana do mês de Agosto preencheu lacunas na política cultural barcelense. “A dificuldade foi arranjar bandas”, assegurou organizador e proprietário da escola, Mariano Dias. “Existem cada vez menos porque também não existem espaços que as promovam”. Nesse aspecto, a “Oops!” funciona como um núcleo concentrado, quer na escola de música, quer na organização de concertos de bandas que passaram pelo estúdio de gravação.
O “progresso” arquitectónico descontrolado e descomedido da freguesia de Arcozelo constitui o cenário. Um cenário imperiosamente urbano: construções confusas e assimétricas, edifícios que brotaram ao longo dos últimos anos como autênticos cogumelos de cimento. Nos subúrbios, entre outros, desenvolvem-se alguns estereótipos: o indivíduo que vê a cidade como um local de repouso do trabalho e repugna qualquer tipo de ruído por muito pequeno que seja; o indivíduo tolerante que fica em casa numa espécie de relação cultural monológica com o televisor; ou o indivíduo que, simplesmente, tenta combater a monotonia e sai de casa à procura de lazer, arte, ou cultura, por muito difícil que seja de encontrar. E, por vezes, sem contar, acaba por conseguir. Ora, é para estes últimos que as “Noites de Verão” da Oops! existem. Uma minoria, sem qualquer dúvida.
E foi também uma minoria (o que não a equivale a pouca gente) que assistiu na passada sexta-feira à noite ao concerto dos The Astonishing Urbana Fall (TAUF). Um concerto sóbrio e concentrado, com doses de minimalismo pós-rock desprendido, despido de efeitos cénicos e de vozes, apolíneo, e cada vez mais distante do experimentalismo abrasivo de “Acetaminophen” e do formato electro-radioactivo de “Iconolator”. Uma versão (distante) de “Autogenesis Pilgrimage” revela uma fase pós-”Rhizome” cada vez mais entregue a ambiências jazzísticas improvisadas (“Azimuth”), a sons de vinil perdidos na memória, a danças frenéticas de baixo e bateria, a sons electrónicos e samples em viagens pela Islândia. Jazz e electrónica fundem-se e confundem-se. E a última música (um dos melhores momentos) é uma câmara lenta de sons melodiosos capaz de suster qualquer viagem urbana, ou melhor, qualquer queda (horizontal) urbana. Perfeita.
No fundo do palco uma tela com uma imagem arte pop: um avião militar e uma enorme explosão. Cores vivas e apelativas, um quadrado-banda-desenhada com a frase- “Control and ahead of me, Rockets blazed through the sky”-, e uma enorme onomatopeia - WHAAM! Uma tela/teia de associações: uma alusão ao rock urbano descendente de uns Velvet Underground de Andy Warhol; um movimento artístico sitiado em Nova York; uma explosão... um avião... um conjunto de edifícios às cores... sombras de músicos que se projectam numa casa abandonada. Uma noite de verão urbana.
Setembro 2003