um blogfolio de coisas sonoras

8.6.03

The Astonishing Urbana Fall na “Oops!”
Uma noite de verão urbana

Numa altura em que escasseiam os bares em Barcelos com música ao vivo (aliás, praticamente inexistentes), em que o “gosto incomodativo dos outros” é cada vez mais amaldiçoado, em que se abandona a organização de um festival de jazz e um promissor “Cellos Rock”, em que, por tudo e por nada, agentes da autoridade interrompem espectáculos de uma forma nada condizente com o seu estatuto deontológico, em prol de uma vizinhança intolerante, as “Noites de Verão” da escola de música “Oops!” tornam-se cada vez mais um hábito cultural regenerador. Um evento que vai já na segunda edição e que durante os fins-de-semana do mês de Agosto preencheu lacunas na política cultural barcelense. “A dificuldade foi arranjar bandas”, assegurou organizador e proprietário da escola, Mariano Dias. “Existem cada vez menos porque também não existem espaços que as promovam”. Nesse aspecto, a “Oops!” funciona como um núcleo concentrado, quer na escola de música, quer na organização de concertos de bandas que passaram pelo estúdio de gravação.

O “progresso” arquitectónico descontrolado e descomedido da freguesia de Arcozelo constitui o cenário. Um cenário imperiosamente urbano: construções confusas e assimétricas, edifícios que brotaram ao longo dos últimos anos como autênticos cogumelos de cimento. Nos subúrbios, entre outros, desenvolvem-se alguns estereótipos: o indivíduo que vê a cidade como um local de repouso do trabalho e repugna qualquer tipo de ruído por muito pequeno que seja; o indivíduo tolerante que fica em casa numa espécie de relação cultural monológica com o televisor; ou o indivíduo que, simplesmente, tenta combater a monotonia e sai de casa à procura de lazer, arte, ou cultura, por muito difícil que seja de encontrar. E, por vezes, sem contar, acaba por conseguir. Ora, é para estes últimos que as “Noites de Verão” da Oops! existem. Uma minoria, sem qualquer dúvida.

E foi também uma minoria (o que não a equivale a pouca gente) que assistiu na passada sexta-feira à noite ao concerto dos The Astonishing Urbana Fall (TAUF). Um concerto sóbrio e concentrado, com doses de minimalismo pós-rock desprendido, despido de efeitos cénicos e de vozes, apolíneo, e cada vez mais distante do experimentalismo abrasivo de “Acetaminophen” e do formato electro-radioactivo de “Iconolator”. Uma versão (distante) de “Autogenesis Pilgrimage” revela uma fase pós-”Rhizome” cada vez mais entregue a ambiências jazzísticas improvisadas (“Azimuth”), a sons de vinil perdidos na memória, a danças frenéticas de baixo e bateria, a sons electrónicos e samples em viagens pela Islândia. Jazz e electrónica fundem-se e confundem-se. E a última música (um dos melhores momentos) é uma câmara lenta de sons melodiosos capaz de suster qualquer viagem urbana, ou melhor, qualquer queda (horizontal) urbana. Perfeita.

No fundo do palco uma tela com uma imagem arte pop: um avião militar e uma enorme explosão. Cores vivas e apelativas, um quadrado-banda-desenhada com a frase- “Control and ahead of me, Rockets blazed through the sky”-, e uma enorme onomatopeia - WHAAM! Uma tela/teia de associações: uma alusão ao rock urbano descendente de uns Velvet Underground de Andy Warhol; um movimento artístico sitiado em Nova York; uma explosão... um avião... um conjunto de edifícios às cores... sombras de músicos que se projectam numa casa abandonada. Uma noite de verão urbana.

Setembro 2003