Ao vivo e a cores
Para comemorar os 75 anos de elevação de Barcelos a concelho a Câmara Municipal decidiu, no passado domingo à noite, presentear os barcelenses com... um espectáculo d da mediática tournée “Operação Triunfo”. Ao vivo e, também a cores (partindo claramente do pressuposto que os aparelhos a preto e branco se encontram praticamente já extintos). E, fazendo uma alusão ao próprio nome do programa, foi um verdadeiro triunfo para a organização. A adesão do público obedeceu às expectativas, ora não fosse a “Operação Triunfo” um dos maiores êxitos televisivos da era pós-Big Brother. Uma adesão ao nível das Festas das Cruzes, em pleno Verão. Não faltavam as pipocas, os balões, e os vendedores de colares luminosos. Um trunfo transformado em triunfo. Ou melhor, dois trunfos num só: um programa televisivo de sucesso e portentoso gerador de audiências – o trunfo de “ouros”; e uma participante barcelense simpática e afável que conquistou o coração dos portugueses e, principalmente, dos barcelenses (“Sou filha da terra e tenho muito orgulho em ser barcelense. Obrigada Família!” – desabafou Flora durante o espectáculo) – o trunfo de “copas”.
O público mais entusiasta era, na sua maioria, composto por jovens adolescentes desejosas de ver os seus ídolos fora da realidade televisiva. Gritavam, cantavam baladas com lágrimas nos olhos, encenavam coreografias, levantavam cartazes com frases do tipo “Filipe G. és o nosso cromo preferido!” ou “David, estamos contigo!” , mostravam as suas t-shirts com fotografias dos artistas e com a frase mais badalada do momento – “Tou que nem posso!”, apinhavam-se junto ao backstage na expectativa de os verem mais de perto ou de conseguir um “valioso” autógrafo, pisavam as flores do jardim na ânsia de não perderem pitada do espectáculo.
Eram aproximadamente 22h quando se ouvia o genérico do programa e se espalhavam luzes estonteantes no palco. Ouviam-se os primeiros gritos e a voz radiofónica de um dos concorrentes a gritar o habitual e artificial: “Boa noite Barcelooos!”. Filipe G., Filipe S. e Rui davam início ao espectáculo com o conhecido “Dancing in the Street” adaptado nos 80’s pela dupla Bowie e Jagger. A música não era gravada. Os competentes músicos (na guitarra, no baixo, na bateria e nas programações/sintetizador) encarregavam-se de reproduzir os temas originais com todos os pormenores técnicos. As luzes de palco e as coreografias dos bailarinos conferiam o restante aspecto cénico. Como na TV. Depois sucediam-se as típicas e premeditadas intervenções dos concorrentes: “Vamos lá pessoal!”; “Essas palmas!”; “Esses braços em cima!”; “Mais alto!”; “Estão a gostar? Querem mais?”; “E salta Barcelos, olé, olé!”.
Mas, a maior ovação da noite foi, sem dúvida, para a Flora quando entra em palco para cantar “Os Índios da Meia Praia” de Zeca Afonso. A 14ª música de um extenso repertório de 33 músicas com uma duração total aproximada de duas horas. Um repertório que mistura nomes como Zeca Afonso, Björk, Sérgio Godinho, Nat King Cole e Natalie Cole, com Bon Jovi, João Pedro Pais, Anastacia ou Shania Twain. Um desfile de hits conhecidos que preenchem as listas infindáveis dos karaokes e das playlists de djs de domingo à tarde. Capaz de agradar a toda a gente presente. Ou quase toda a gente...
Ainda houve tempo para o encore: “One day in your life” (Anastacia) com a Sofia, vencedora do concurso; “Man, I feel like a woman (Shania Twain) só com as mulheres; “Á minha maneira” (Xutos & Pontapés) só pelos homens, com direito a artifícios pirotécnicos; e o divulgado tema “Acreditar” com todos em palco.
Musicalmente, o espectáculo é uma espécie de karaoke com uma produção de qualidade avançada: um grande palco, uma vistosa produção de luzes, muita gente a assistir, música ao vivo, tecnicamente bem cantado (fruto de uma formação musical intensiva) e sem as habituais desafinações que assombram os bares e esplanadas em noites de karaoke. Tudo muito bem estudado.
Mas, algumas questões pairam no ar. Onde está o valor artístico do espectáculo e a capacidade criativa dos participantes? Porque apenas se dá valor a alguém quando aparece na TV e não quando ainda permanece no anonimato? Porque não se investe da mesma forma noutros eventos culturais que, apesar de arrastarem menos gente, têm mais qualidade? Uma coisa é certa. Há sempre a possibilidade de mudar de canal.
setembro 2003