De todos os instrumentos musicais, o tambor é talvez o mais universal, utilizando-o os mais diversos povos sob as mais diversas formas. Tem a sua origem num passado longínquo, remanescente de remotos instrumentos utilizados em rituais religiosos, ou usados em rudimentares meios de comunicação ou ainda, como estimulante nas lides guerreiras. O tambor português é do tipo europeu, isto é, bi-membranofone – de caixa de ressonância cilíndrica e dimensões variáveis mas sempre mais ou menos altas, peles retesadas por corda corredia ou parafusos passados entre elas, permitindo assim a graduação da sua tensão. O bombo é um grande tambor, de som grave, intenso e indefinido. Normalmente é carregado ortogonalmente sobre o peito, dependurado no pescoço através de uma bandoleira. E é, sem dúvida, um dos instrumentos privilegiados no folclore português.
Decerto que para tocar bombo não basta arranjar um maço ou uma baqueta e bater. É preciso saber como bater, ter uma boa (não necessariamente perfeita) noção de ritmo e força para os bombos maiores. O centro de animação da Feira de Artesanato, na tarde do passado domingo, foi o III Encontro de Bombos. Um evento que denotou uma necessidade de crescimento se não quiser ficar entregue a repetições. Nele estiveram presentes os Grupos de Zés Pereiras Duas Igrejas de Vila Verde, o Grupo de Bombos dos Bombeiros Voluntários de Vila Meã (Amarante), a Orquestra de Percussão Tarimba do Externato de Nossa Senhora das Graças (Braga), o Grupo de Zés Pereiras de Pedregais (Vila Verde) e o Grupo de Zés Pereiras de Barcelinhos.
Nem sempre o instrumento, neste caso o bombo, é sinónimo de barulho. E por isso, o público mais atento, não pôde deixar de prestar atenção máxima à actuação da Orquestra de Percussão Tarimba do Externato da Nossa Senhora das Graças de Braga. Quer pela qualidade dos tocadores muito jovens, quer pela diferença marcada pelo entrosamento dos instrumentos percussivos, quer pela coordenação estudada de ritmos muito diversos. Uma demonstração inteligente de percussão. E com um balanço distinto do resto. Os ritmos eram engenhosos, bem coordenados e mais elaborados do que os usuais ritmos repetidos do tipo claque de futebol, tradicionalmente utilizados no folclore português. Privilegiaram a qualidade e diversidade em detrimento da força e procuraram não fazer “barulho”, mas sim, música. Além das estruturas morfológicas tradicionais do tambor – bombos, caixas (tarolas) e tamboris – apostaram em sons diferentes. Um jovem elemento da orquestra, também solista, tocava em duas frigideiras adaptadas. Sem alvoroço, e com os olhos postos no seu coordenador, alternaram compassos e misturaram ritmos, desde marchas e cadências latinas, até mesmo ao costumado compasso folclórico. Mesmo quando executavam ritmos mais tradicionais davam-lhe frescura e um toque floreado. Sem dúvida, uma boa e interessante prestação.
Depois, os tradicionais Zés Pereiras com os seus enormes bombos em ritmos de força bem marcados, rufos de tarola e gaitas de foles ao desafio. Batimentos militares pujantes que chegavam a abafar o som agudo dos instrumentos de sopro. Vibrações estonteantes que despertam o ritmo interior, o olhar e ouvido atento, principalmente das crianças. “É a tradição”, dizem uns. “É só barulho”, dizem outros. Uma dicotomia que não deixa de ser interessante.
julho 2003