um blogfolio de coisas sonoras

8.6.03


III Queima das Fitas do IPCA
O esquisito e os outros na festa dos estudantes

Durante quatro dias o espaço destinado às futuras instalações do IPCA, em Vila Frescainha S. Martinho, serviu de palco à III Queima das Fitas. Este ano houve uma clara aposta na diversidade. Música popular, brasileira, dj’s e o vanguardismo dos The Astonishing Urbana Fall (TAUF) preencheram o programa musical do Queimódromo.


O esquisito

Numa tela projectava-se um documentário sobre uma pequena localidade cujos habitantes têm um gosto “especial” por armas – Goreville, USA. Uma guitarra “slide” americana atravessava o Atlântico via guta-percha e, à medida que mergulhava na cultura europeia, desarmava as vozes “psico-bélicas” e diluía as imagens a preto e branco. O relógio marcava aproximadamente 1h30 e os barcelenses TAUF encarregavam-se de o fazer esquecer. Sons atmosféricos e sequências repetitivas e minimalistas misturavam-se com contratempos fugazes transmissores de vibrações anacrónicas. Um sax em desalinho partia para um jazz livre de figuras geométricas submetendo-se ao improviso. Num curto vazio rítmico, surgia uma voz distante e um respirar artificial de violoncelo.
A música dos TAUF é esquisita num duplo sentido: é uma música que se encontra com dificuldade (tornando-se ainda mais invulgar em eventos deste género); e é algo apurado, elegante e bem acabado. Apenas pode ser esta a principal razão para a pouca afluência do público. Este, infelizmente, é cada vez menos esquisito, prefere entreter-se a dançar aos ritmos da Shakira e a ouvir anedotas de “fernandos rochas”. A simples justificação de o concerto se ter realizado muito tarde e num dia da semana chuvoso (terça-feira) não parece ser suficiente.

Três noites de puro entretenimento

Na quarta-feira, a animação do recinto ficou a cargo dos Neurónios Abariados e do famoso artista popular Quim Barreiros, frequentemente solicitado para actuar nas Queimas de todo o país. Temas como “A garagem da vizinha” e “Quero cheirar o teu bacalhau” eram cantados “maliciosamente” por um público composto não só por estudantes. Em vésperas de feriado e em plena Festa das Cruzes, foi a noite mais bem sucedida. O parque de estacionamento encontrava-se lotado e dentro do recinto estudantes conviviam com admiradores do músico de todas as idades. Os Neurónios Abariados dedicaram-se a fazer versões, à sua imagem, de temas conhecidos de bandas como os Xutos & Pontapés ou The Doors.
Na quinta-feira foi dia de música brasileira com a actuação dos Dança Brasil. Muitos dançavam. Outros concentravam-se nos movimentos voluptuosos da bailarina bronzeada. À frente do palco, um grupo de estudantes trajados agitava as cartolas e as bengalas e cantava: “Tira a mão do bolso e joga-la para cima” e “Quero-te provar”. Um deles, debruçado sobre o palco e de óculos de sol permanecia imóvel e de boca aberta ao som de versões de Caetano Veloso e de Mamonas Assassinas.
No último dia, sexta-feira, a noite ficou entregue aos dj’s Jesus del Campo, Nuno Cacho e aos MOS – Tiago Lopes e Pedro Pimenta. À medida que a noite avançava o ambiente aquecia e aos poucos o cenário tornava-se algo dantesco. O palco convertera-se numa espécie de altar com duas figuras artificiais e andróginas a dançar em cada um dos lados. O som atingia decibéis exagerados e apenas um público habituado, apreciador daquele género musical, parecia reflectir as vibrações rítmicas comandadas pelo dj Nuno Cacho. Outros preferiam a zona exterior do recinto. Era mais a festa de um público específico daquele género musical do que uma festa de estudantes. Infelizmente, e num universo à parte da academia estudantil, confrontos físicos à saída do recinto revelavam a mentalidade pequena de alguns noctívagos.

maio 2003