III Queima das Fitas do IPCA
O esquisito e os outros na
festa dos estudantes
Durante quatro dias o espaço destinado às
futuras instalações do IPCA, em Vila Frescainha S. Martinho, serviu
de palco à III Queima das Fitas. Este ano houve uma clara aposta na
diversidade. Música popular, brasileira, dj’s e o vanguardismo dos
The Astonishing Urbana Fall (TAUF) preencheram o programa musical do
Queimódromo.
O esquisito
Numa tela projectava-se
um documentário sobre uma pequena localidade cujos habitantes têm
um gosto “especial” por armas – Goreville, USA. Uma guitarra
“slide” americana atravessava o Atlântico via guta-percha e, à
medida que mergulhava na cultura europeia, desarmava as vozes
“psico-bélicas” e diluía as imagens a preto e branco. O relógio
marcava aproximadamente 1h30 e os barcelenses TAUF encarregavam-se de
o fazer esquecer. Sons atmosféricos e sequências repetitivas e
minimalistas misturavam-se com contratempos fugazes transmissores de
vibrações anacrónicas. Um sax em desalinho partia para um jazz
livre de figuras geométricas submetendo-se ao improviso. Num curto
vazio rítmico, surgia uma voz distante e um respirar artificial de
violoncelo.
A música dos TAUF é
esquisita num duplo sentido: é uma música que se encontra com
dificuldade (tornando-se ainda mais invulgar em eventos deste
género); e é algo apurado, elegante e bem acabado. Apenas pode ser
esta a principal razão para a pouca afluência do público. Este,
infelizmente, é cada vez menos esquisito, prefere entreter-se a
dançar aos ritmos da Shakira e a ouvir anedotas de “fernandos
rochas”. A simples justificação de o concerto se ter realizado
muito tarde e num dia da semana chuvoso (terça-feira) não parece
ser suficiente.
Três noites de puro
entretenimento
Na quarta-feira, a
animação do recinto ficou a cargo dos Neurónios Abariados e do
famoso artista popular Quim Barreiros, frequentemente solicitado para
actuar nas Queimas de todo o país. Temas como “A garagem da
vizinha” e “Quero cheirar o teu bacalhau” eram cantados
“maliciosamente” por um público composto não só por
estudantes. Em vésperas de feriado e em plena Festa das Cruzes, foi
a noite mais bem sucedida. O parque de estacionamento encontrava-se
lotado e dentro do recinto estudantes conviviam com admiradores do
músico de todas as idades. Os Neurónios Abariados dedicaram-se a
fazer versões, à sua imagem, de temas conhecidos de bandas como os
Xutos & Pontapés ou The Doors.
Na quinta-feira foi dia
de música brasileira com a actuação dos Dança Brasil. Muitos
dançavam. Outros concentravam-se nos movimentos voluptuosos da
bailarina bronzeada. À frente do palco, um grupo de estudantes
trajados agitava as cartolas e as bengalas e cantava: “Tira a mão
do bolso e joga-la para cima” e “Quero-te provar”. Um deles,
debruçado sobre o palco e de óculos de sol permanecia imóvel e de
boca aberta ao som de versões de Caetano Veloso e de Mamonas
Assassinas.
No último dia,
sexta-feira, a noite ficou entregue aos dj’s Jesus del Campo, Nuno
Cacho e aos MOS – Tiago Lopes e Pedro Pimenta. À medida que a
noite avançava o ambiente aquecia e aos poucos o cenário tornava-se
algo dantesco. O palco convertera-se numa espécie de altar com duas
figuras artificiais e andróginas a dançar em cada um dos lados. O
som atingia decibéis exagerados e apenas um público habituado,
apreciador daquele género musical, parecia reflectir as vibrações
rítmicas comandadas pelo dj Nuno Cacho. Outros preferiam a zona
exterior do recinto. Era mais a festa de um público específico
daquele género musical do que uma festa de estudantes. Infelizmente,
e num universo à parte da academia estudantil, confrontos físicos à
saída do recinto revelavam a mentalidade pequena de alguns
noctívagos.
maio 2003