“Viajar para fora lá dentro”
Na passada sexta-feira à noite, o Grupo de Câmara da Banda de Música de Oliveira deu o seu primeiro concerto no auditório S. Bento Menni, sob a nova direcção artística de Samuel Bastos. Por isso foi “um concerto especial”. Especial para o maestro, para os músicos e para a maioria da assistência. O convite partiu da companhia de teatro “A Capoeira” para o recente evento “Quaternário – 1ª Feira de Artes de Barcelos”.
E foi uma estreia em clima de festa. Pelo menos para o Agostinho. De certeza. Batia palmas com entusiasmo e estendia as mãos com os polegares levantados como quem pedia boleia para uma festa numa aldeia qualquer. Ou simplesmente, como se dissesse por gestos: “É fixe! É altamente!”. Agostinho é de Cabeceiras de Basto. Há 12 anos que faz tratamento na Casa de Saúde de S. João de Deus e confessa: “Já estou habituado” – como quem “não aquece nem arrefece” com esse facto. Sente-se bem. Especialmente quando há festa. Diverte-se. E o concerto foi uma autêntica festa. “Vou sentar-me aqui na última fila. Não, não. Na primeira fila.” E começava a impacientar-se. Sempre, ou quase sempre, a olhar para o relógio. “Nunca mais começa!...”.
Os temas foram escolhidos dentro de uma linha particular. A que é habitual na formação escolar e repertório da Banda de Oliveira. Música típica de coreto. Adaptações para instrumentos clássicos (metais) de hits pop famosos (Abba); incursões no folk americano dentro do estilo das American Brass Bands (“com bateria e tudo!”); e arranjos em meddley de clássicos latinos com trompetes ao desafio que ninguém deixa de reconhecer e associar às touradas.
Uma autêntica banda sonora anos 80 de séries e filmes americanos nas tardes televisivas de domingo. Nostalgia. Momentos musicais que acordam “Tom & Jerry”. Sons que permanecem guardados e que se recordam sem se saber muito bem se são bons ou não. Melodias fáceis. Simples.
Foram muitos os momentos e movimentos que despertaram (ainda mais e não só) o Agostinho. A Dança Francesa de Praetorius/Kenny com o flautim do solista Luís Sousa; o meddley dos Abba com “Dancing Queen”, “The Winner Takes It All”, e “Fernando” (“Esta conheço muito bem!”); os “testos escondidos” que se ouviam na La Concha Flamenca de P. Artola; os trompetes de “Guantanamera” e “Puerto Rico” (“Vem aí o touro!” – dizia o Agostinho, simulando os cornos do animal com os indicadores na cabeça); e as palmas que se bateram no encore ao ritmo da música (foi o primeiro a pôr-se de pé e a aplaudir). Aplaudia e incentivava os outros a fazer o mesmo. Dava palmadas nas costas dos fotógrafos como se dissesse: “Bom trabalho!”. E, acima de tudo, “viajava para fora lá dentro”. No intervalo pairavam conversas no ar: as medalhas da equipa de futebol da Casa, as caneladas e a derrota no último jogo; o processo Casa Pia e os seus intervenientes “perigosos”; a qualidade e uma caneta Parker; e a pouca afluência de público nestes eventos, excepção feita ao Rao Kyao e ao Padre Borga (“Ui! Nesse é que ‘tava gente!”). E há tanta gente cá fora que viaja para dentro...
Outubro 2003