“Mas afinal o que vai haver aí?”
Uma catita “noite de Verão” – a inauguração de um novo espaço/esplanada na Escola Secundária Alcaides de Faria (ESAF) e a oportunidade para assistir a um concerto de jazz. Adivinham-se intervalos e “furos” descontraídos, a contemplar os primeiros dias de sol da época, num espaço bonito e moderno. Sem dúvida, uma excelente descontracção no período dos complicados exames nacionais e um bom prenúncio de férias (depois do sucesso obtido, claro!). Mas também, um convite aliciante para fazer “gazeta” às aulas.
Uma inauguração a pensar no futuro. O espaço, que outrora era um átrio cinzento de cimento, transformou-se numa área colorida adornada com uma escultura (a fazer lembrar notas de música “cortadas”) desequilibradora das formas rectilíneas do design mobiliário da esplanada. Servem-se bebidas coloridas e refrescantes (sem álcool!) para combater o “calor”. Os estudantes e professores convivem entre si numa relação menos formal, quase extra-escolar. A descontracção dos músicos difunde-se pela assistência. A música do quarteto “quatro.com” é muito mais do que um apontamento de lazer e muito mais do que uma “banda sonora” de um convívio entre adolescentes. Essencialmente porque incute nos jovens (e não só) uma apurada e estimulante cultura musical. Tão descontraída que até surge um “5º elemento” que timidamente os acompanha com uma pandeireta. Senta-se ao lado do palco e quer participar. E discretamente participa.
Contudo, a realidade era bem diferente. No mínimo estranha e anacrónica. A noite de inauguração da esplanada (sexta-feira, dia 24 de Outubro) não era uma noite de Verão. As condições meteorológicas eram bastante adversas. O frio gelava os músicos e a assistência. Uma assistência nitidamente pouco interessada no “espírito divertido e informal” de Rui Teixeira (saxofone), Hugo Raro (piano), Manuel Barros (baixo) e António Pinto (bateria) e nos seus arranjos de standards do jazz e de compositores mais recentes (Charles Loyd e Benny Golson). Não se percebia muito bem se a “banda sonora” era a música do quarteto ou as vozes altas das conversas. O mais importante parecia ser o convívio. Mesmo assim, o interesse de uma minoria resistente ao frio, composta por alguns alunos e antigos alunos, justificou uma actuação de mais de uma hora e um pequeno encore.
Apesar do desfasamento temporal há que dar toda a relevância ao evento. É que, já há muito tempo que não se assistia a um concerto de jazz em Barcelos. Um tipo de concerto cada vez mais raro na cidade, principalmente depois do desaparecimento do “Barcelos com Jazz” das agendas culturais. Assiste-se apenas, de vez em quando, a alguns improvisos com mais características de raridade do que de esporadicidade. Talvez não seja má ideia uma escola proporcionar aos barcelenses este tipo de eventos. Naquela esplanada, mas na época Primavera/Verão. É que não é só nas salas de aula que se aprende e se enriquece culturalmente. E com um pouco de educação cultural e musical talvez não se ouçam, com tanta frequência, comentários deste tipo (salvaguardando-se, evidentemente, a questão do frio): “Mas afinal o que vai haver aí? É a inauguração da esplanada? Ó, vou mas é para casa fazer croché!“
Outubro 2003