O regresso das tasquinhas
No passado fim-de-semana, no âmbito das comemorações dos seus 50 anos, o Rancho Folclórico de Barcelinhos provou que a simplicidade pode triunfar. Na sede da instituição montaram seis barraquinhas, representando cada uma delas as tasquinhas mais carismáticas de Barcelinhos (infelizmente, já extintas),e tentaram reviver da melhor forma a herança gastronómica típica de cada uma: o bacalhau recheado da Rabela; os bolinhos de bacalhau, o chicharro e as iscas de fígado da Saramicaca; as pataniscas e o chouriço da Quinhas da Venda; os pernis e a sardinha pequena da Teresinha Sarreira (também conhecida por O Esganado); as tripas, a raia e as fanecas do Caganeira; e os rojões, o bacalhau e as “cantigas da rua” da Gica. Os espaços já não existem mas ficaram as memórias e os nomes muito peculiares dos estabelecimentos. Antigamente, numa das tasquinhas mais saudosas, “havia um alguidar cheio de carne à entrada da taberna, um ramo de loureiro e uma cabeça de porco pendurada na porta”, recorda o vice-presidente do rancho folclórico, Rodrigo Amaral, para quem a iniciativa cultural Reviver Barcelinhos “foi um verdadeiro êxito, tendo em conta o número de pessoas que passaram pelo local durante os três dias”. Musicalmente, as participações foram bastante variadas dentro do género popular: do humor esganiçado dos cantares ao desafio aos desvarios abonecados e infantis da internacional Banda Plástica de Barcelos, passando pela grave melancolia ébria das vozes da tuna do IPCA e pelas adaptações do universo ABBA da Banda Filarmónica de Oliveira. Dois ou três flashes foram suficientes para soltar vozes e estimular o bailarico ao som desta última banda. Quem não embarcava muito em danças podia contentar-se com a célebre patanisca ou emborcar um boa malga de vinho ao ritmo de uma boa conversa.
Eventos deste género não deambulam apenas no revivalismo fugaz de uma tradição que se pretende manter. Também evidenciam a necessidade de proporcionar aos barcelenses e “peregrinos” animação nocturna e diurna, dando vida a espaços esquecidos e mal aproveitados. No próximo ano, a organização promete “dar continuidade ao projecto e, a pedido de muitos, alargar a duração do evento para uma semana”, disse o vice-presidente. “Aliás o ideal seria existir este tipo de animação todos os fins-de-semana. Não exige grandes investimentos, apenas alguns apoios mais significativos e disponibilidade”.
Agora imaginem. Imaginem a margem esquerda do rio Cávado repleta de gente nas noites prolongadas de Verão. Luz, muita luz. Uma tasquinha aqui outra acolá. Um copo aqui, outro acolá. Um mundo animado, como a cidade nunca tinha visto antes, onde habitam o “tasco-patanisca-revivalista-antigo”, o “tasco-hamburger de plástico-moderno” e as diferentes gerações que os caracterizam. Agora, imaginem do outro lado, um espelho daquilo que continuam a magicar. Imaginem concertos e esplanadas na praia fluvial. Imaginem o que quiserem... Seria um cenário muito interessante. Interessante demais para uma cidade votada ao esquecimento e desconhecimento onde a noite se desvanece e mergulha no vazio. Cenário distante, sem dúvida. Escolham uma data provável e sejam os profetas do século XXI.
junho 2003