um blogfolio de coisas sonoras

19.6.03

Feira das Artes no Largo do Apoio
As artes saíram à rua num dia assim

O dia começou cedo e a chuva ameaçava estragar uma das iniciativas mais interessantes dos últimos tempos no centro histórico da cidade, mais concretamente no esquecido e apagado Largo do Apoio. E quando se utiliza a expressão “últimos tempos” talvez seja bom lembrar o cientista Albert Einstein, presente na feira sob a forma de escultura/caricatura de Joaquim Esteves, e a sua teoria da relatividade. Assim, talvez seja necessário fazer algumas longas incursões temporais, recuar à Idade Média e imaginar como seria o movimentado mercado diário que se realizava naquele espaço. Hoje em dia, como muitos outros locais, encontra-se reduzido à sua singela função de... zona histórica. Há relativamente pouco tempo alguns concertos de jazz deram-lhe vida, mas não foram suficientes para o catapultar do seu estado de coma profundo. E profunda também deverá ser a reflexão do leitor ao abrir as gavetas da memória e tentar descobrir algo mais relativo àquele espaço. Fica aqui o desafio.


Arte em movimento

As “Feiras com Junta”, iniciativa da Junta de Freguesia de Barcelos, são a prova de que os espaços apenas ganham vida quando os habitamos. No passado sábado realizou-se a Feira das Artes. Um conceito que pretendia abarcar um grande número de formas artísticas. Essencialmente, música, pintura, escultura e artesanato. Não se tratava de uma feira qualquer. Além das obras (pinturas com as mais variadas técnicas, esculturas em madeira e barro, artesanato em verga) também se expunha a própria arte: moldava-se o barro, atiravam-se cores para a tela e fazia-se música no momento (estudos e improvisos da escola de música Oops!). As artes misturavam-se, fundiam-se e confundiam-se numa exposição de rua. A única esplanada situada no Largo do Apoio ganhava outra vida e outras conversas (mais artísticas talvez). O chafariz transformava-se num instrumento musical ao preencher com o som d’água os espaços vazios de uma bela solitária guitarra clássica. O som violento de duas baterias e de uma guitarra distorcida invocavam a urgência de furar barreiras e atravessar os ouvidos duros. As pinturas mais abstractas adquiriam compreensão fácil com os improvisos jazzísticos de um colectivo multi- instrumentista. As cores espontâneas e alegóricas de um pincel preenchiam uma tela no momento da criação. Moldava-se o barro e criavam-se inúmeras expressões diferentes. Desvanecia-se o artista anónimo e colocava-se, num rasgo de oportunidade, o seu nome ao lado de outros mais conceituados ou, simplesmente, mais conhecidos. Notava-se a existência de uma comunidade artística de valor, à qual não se dá a devida atenção – e por isso habita nas margens. Evidenciava-se a necessidade de construção de um centro artístico e cultural que proporcione o crescimento de um universo de ideias comuns para a rua e não apenas nela. “Nem parece que estamos em Barcelos” comentava-se na esplanada. O público dividia-se. De um lado, grupos de amigos, outros artistas ou simples apreciadores da criação contentes com o ambiente diferente gerado na cidade. Do outro, aqueles que apenas procuravam algo a condizer com a mobília da sala e teciam comentários mais inusitados aos próprios artistas do tipo: “Que quadro feio!”. Primeiro estranha-se, depois… continua a estranhar-se. Nessas alturas fica sempre bem a frase de Bruno Munari: “Cada um vê aquilo que sabe”. E a sabedoria também se transmite com a realização contínua deste tipo de iniciativas. É preciso tempo e insistência para entranhar.


Noite de serenata

À noite, por volta das 22h, o cenário era completamente diferente. A feira tinha-se despedido para dar lugar à Noite Académica com fados e tunas da Universidade do Minho e do IPCA. Os acordes de “Verdes Anos”, de Carlos Paredes, despertavam uma assistência que, na falta de lugares sentados, se encostava à Casa dos Carmona e se sentava num pequeno muro do outro lado do largo. Trocava-se o Paço dos Duques pela Cabra e Universidade, a Matriz pela Sé Velha, as insígnias coloridas da batina dos estudantes por um pouco mais de espírito académico, e parecia uma tradicional serenata de Coimbra. Os turistas apreciam, os estudantes afirmam-se, e a cidade cresce. E com mais esplanadas também se diverte.
O próximo sábado vai encher-se de cores e de aromas com a Feira das Flores. E depois? O que vai ser do Largo do Apoio? 

julho 2003