um blogfolio de coisas sonoras

8.6.03

Orquestra do Norte nos IV Encontros de Música
Encontros com classe

A existência de um auditório como o S.Bento Menni veio, decididamente, contribuir para o desenvolvimento da cultura barcelense. Nele decorreram os IV Encontros de Música, que encerraram no passado sábado à noite com o espectáculo da Orquestra do Norte acompanhada pelo pianista Adriano Jordão, afirmando-se cada vez mais como um espaço único em Barcelos para a realização de determinado tipo de eventos. A música clássica, apesar da sua característica mais elitista do que popular e do seu corpo mais rigoroso e aprumado, consegue atrair um número considerável de pessoas ao auditório. É certo que a projecção da Orquestra do Norte e do pianista Adriano Jordão dispensa uma divulgação mais cuidada mas, tendo em conta o cenário noutros espectáculos dos Encontros, poderá dizer-se que a afluência do público no passado sábado foi muito positiva.

A “Abertura” da ópera “As Bodas de Fígaro” de Mozart, por muitos considerada a sua melhor ópera em termos de enredo e desenvolvimento narrativo, deu início ao espectáculo dirigido por António Baptista. Nela notava-se o destaque que o compositor dava aos instrumentos de sopro, principalmente o clarinete, que introduziu pela primeira vez numa orquestra sinfónica.

Sem retirar o centro das atenções ao colectivo orquestral, o pianista Adriano Jordão assumiu o protagonismo na interpretação do “Concerto n.°2 para piano e orquestra Op.21” de Frédéric Chopin. À partida parece um paradoxo, mas o compositor, e por inerência os intérpretes das suas obras, conseguem tornar a orquestra a alma do espectáculo, o que à partida parece impossível. O piano é muitas vezes esquecido para dar lugar a outros instrumentos. Por vezes, navega suave e solitariamente sobre ondulantes vibratos e interessantes pormenores técnicos de bater do arco nas cordas e pizzicatos, evidenciando toda a beleza melancólica da música. Perante composições em que vigora o elemento pessoal em detrimento de ornamentos exibicionistas, o pianista entregou-se de uma forma sedutora, procurando um alcance mais espiritual e emotivo da essência da obra.

A segunda parte do concerto foi preenchida com a “Sinfonia n.°4 (8) em Sol Maior Op.88” do compositor checo Dvorak. O sentimento mais triste predominante na primeira parte deu lugar a algo mais vivo. Os momentos mais calmos, onde o vibrato das cordas se misturava com o toque adocicado das flautas, alternavam com momentos mais tempestuosos transmitidos pela força do tímbalos. O espírito mais improvisador e bem menos atento às regras de estruturação de composição da música clássica do compositor conduziu os músicos para um final intenso e forte. Digno de um épico. A pedido das inúmeras palmas de um público atento fizeram um encore e repetiram a parte final do último andamento, “Allegro ma non troppo”.

Inserido no projecto de descentralização da cultura musical iniciado pela orquestra em 1992, o concerto por momentos fez esquecer que Barcelos ainda é uma cidade pequena. Momentos raros, por sinal.

abril 2003