um blogfolio de coisas sonoras

22.6.03

Exposição de Siza Vieira na Galeria Municipal de Arte
"Pensar a cidade, pensar o edifício, pensar o móvel"

Le Corbusier escreveu que “quanto mais íntima for a nossa relação com um objecto, mais este se aproxima da nossa forma antropomórfica; quanto mais distante, mais tende para a arquitectura”. Siza Vieira é conhecido internacionalmente pelas suas obras arquitectónicas. A Igreja do Marco de Canaveses, o Museu da Fundação de Serralves, a Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto ou o Pavilhão de Portugal na Expo’98 são alguns exemplos. Esta exposição revela uma faceta menos conhecida de Siza Vieira. As obras que se encontram expostas na Galeria Municipal de Arte desde o dia 11 de Julho, e que vão continuar até 30 de Setembro, denotam toda a proximidade minimalista que o artista estabelece entre diferentes formas artísticas evidenciando a fronteira ténue que as separa e a sua relação de dependência (cidade-edifício-móvel). Uma ideia de proximidade também entre o Homem e o objecto. Um contacto simples. Por vezes, secretamente, requintado com pitadas de humor. É exemplo disso o cinzeiro que abana numa alusão à conhecida marca de charutos Habana. Diferentes materiais - vidro, porcelana, plástico, madeira, cristal, aço, acrílico, prata (o material a que ultimamente Álvaro Siza mais se tem dedicado) – dão substância a cerca de 150 peças, datadas entre 1956 e 2002, que ilustram as diferentes facetas artísticas do autor. A simplicidade dos objectos transformada numa obra de arte: o relógio Rio Douro cor de prata, copos, castiçais, candeeiros, azulejos, um faqueiro, um decanter, a garrafa Barbosa Almeida, o cinzeiro Habana, latas de sardinhas, jarras, candeeiros, castiçais, uma miniatura da chaise long, uma original cruz... Objectos esses que completam o cenário mobiliário. Um estirador, um móvel de faqueiro, bancos, cadeiras, estantes, a cadeira Marco, a poltrona Serralves, um conjunto de sofá e mesa que compõem o cenário do programa Acontece. Tudo elementos-“recheio” que a arquitectura minimalista, natural e sóbria, de Siza Vieira não dispensa. Um design que deixa transparecer a personalidade e criatividade do seu autor internacionalmente reconhecido. Tudo fruto da sua vontade, quase compulsiva, de desenhar. «Uns jogam golfe, eu desenho. Liberta-me o espírito».

Motivos de ordem profissional, que o obrigaram a ausentar-se para o estrangeiro, impediram Siza Vieira de estar presente na inauguração prevendo-se, contudo, a sua comparência na data de encerramento.

Numa altura em que comemora 75 anos de elevação a cidade, Barcelos, depois de Leiria, é a segunda cidade portuguesa a receber esta exposição. Pode ser visitada de terça-feira a sábado, das 10 horas às 12h30 e das 14h30 às 18 horas. Ao domingo, está aberta entre as 14 e as 18 horas. Para casa apenas poderá levar o catálogo da exposição e um dvd sobre as suas obras e projectos. A entrada é livre. 

julho 2003

Exposição de pintura de Pedro Gomes (Pato) em S. João de Deus
Roma ominonis rolf amu a adiv a rad

Numa primeira leitura, desatenta, parece estarmos presente uma citação “latina” (ou melhor, “pseudo-latina”) qualquer. Mas não. A mensagem não é directa, deve ser lida ao contrário. Aquilo que parecia dizer algo relativo à velha capital italiana e que, por isso, nos parecia algo distante, transforma-se. A flor que se apresenta numa tela multicolor adquire uma nova dimensão deixando, por momentos, de ser uma simples flor. As letras invertidas que a acompanham transmitem a mensagem do barcelense Pedro Gomes (Pato) que expôs os seus quadros no passado fim-de-semana no auditório do Fórum S. Bento Menni. E foi mesmo só no fim-de-semana... O pretexto foi o convite da Escola de Dança de Barcelos que organizou, no mesmo espaço, o evento “Amar, com Amor & Amor para Amar”.

“Quando decidi começar a pintar, em 2000, comprei uma série de materiais e parti para a tela sem qualquer tipo de base teórica. Não consegui fazer nada. A cor não saía. Fiquei um ano a olhar para a tela”. Pedro Gomes é autodidacta e não teve qualquer tipo de formação artística, “apenas gostava de desenhar”. No seu pequeno “laboratório”, onde flutuam sons e imagens televisivas, constrói um mundo próprio e indiferente. Quase tudo o que sabe aprendeu com livros e através do contacto com outros pintores e suas obras e técnicas. Quase, porque na base da aprendizagem está o experimentalismo, a procura de algo através da prática e do erro próprio. É o que considera mais importante. Ao longo de três anos de auto-aprendizagem foi reunindo não apenas trabalhos em óleo, acrílico ou aguarelas, mas também foi explorando outras técnicas e materiais menos usuais. Isso reflecte-se na diversidade de quadros que apresenta. São experiências. Não basta ter uma boa escola, é necessário experimentar, explorar e, de certa forma, aproveitar o lado positivo de uma aprendizagem solitária que permite um olhar e um saber diferente.

Contudo, as imagens não vagueiam apenas por meros exercícios ou representações de naturezas mortas ou corpos femininos. A reflexão pessoal e o manifesto por valores e direitos humanos assumem destaque nas mãos que mancham de vermelho-sangue a tela geométrica aprisionada – “A aicnêtsixe ed mu res odarre zaf od etneconi mu res odapluc”. Por vezes, apenas uma leitura às avessas permite compreender e pensar.

Daqui para a frente pretende expor noutros locais e continuar a explorar e evoluir na experiência. Quando parte para, não pára. Continua…
III Encontro de Bombos na Feira do Artesanato

De todos os instrumentos musicais, o tambor é talvez o mais universal, utilizando-o os mais diversos povos sob as mais diversas formas. Tem a sua origem num passado longínquo, remanescente de remotos instrumentos utilizados em rituais religiosos, ou usados em rudimentares meios de comunicação ou ainda, como estimulante nas lides guerreiras. O tambor português é do tipo europeu, isto é, bi-membranofone – de caixa de ressonância cilíndrica e dimensões variáveis mas sempre mais ou menos altas, peles retesadas por corda corredia ou parafusos passados entre elas, permitindo assim a graduação da sua tensão. O bombo é um grande tambor, de som grave, intenso e indefinido. Normalmente é carregado ortogonalmente sobre o peito, dependurado no pescoço através de uma bandoleira. E é, sem dúvida, um dos instrumentos privilegiados no folclore português.

Decerto que para tocar bombo não basta arranjar um maço ou uma baqueta e bater. É preciso saber como bater, ter uma boa (não necessariamente perfeita) noção de ritmo e força para os bombos maiores. O centro de animação da Feira de Artesanato, na tarde do passado domingo, foi o III Encontro de Bombos. Um evento que denotou uma necessidade de crescimento se não quiser ficar entregue a repetições. Nele estiveram presentes os Grupos de Zés Pereiras Duas Igrejas de Vila Verde, o Grupo de Bombos dos Bombeiros Voluntários de Vila Meã (Amarante), a Orquestra de Percussão Tarimba do Externato de Nossa Senhora das Graças (Braga), o Grupo de Zés Pereiras de Pedregais (Vila Verde) e o Grupo de Zés Pereiras de Barcelinhos.

Nem sempre o instrumento, neste caso o bombo, é sinónimo de barulho. E por isso, o público mais atento, não pôde deixar de prestar atenção máxima à actuação da Orquestra de Percussão Tarimba do Externato da Nossa Senhora das Graças de Braga. Quer pela qualidade dos tocadores muito jovens, quer pela diferença marcada pelo entrosamento dos instrumentos percussivos, quer pela coordenação estudada de ritmos muito diversos. Uma demonstração inteligente de percussão. E com um balanço distinto do resto. Os ritmos eram engenhosos, bem coordenados e mais elaborados do que os usuais ritmos repetidos do tipo claque de futebol, tradicionalmente utilizados no folclore português. Privilegiaram a qualidade e diversidade em detrimento da força e procuraram não fazer “barulho”, mas sim, música. Além das estruturas morfológicas tradicionais do tambor – bombos, caixas (tarolas) e tamboris – apostaram em sons diferentes. Um jovem elemento da orquestra, também solista, tocava em duas frigideiras adaptadas. Sem alvoroço, e com os olhos postos no seu coordenador, alternaram compassos e misturaram ritmos, desde marchas e cadências latinas, até mesmo ao costumado compasso folclórico. Mesmo quando executavam ritmos mais tradicionais davam-lhe frescura e um toque floreado. Sem dúvida, uma boa e interessante prestação.

Depois, os tradicionais Zés Pereiras com os seus enormes bombos em ritmos de força bem marcados, rufos de tarola e gaitas de foles ao desafio. Batimentos militares pujantes que chegavam a abafar o som agudo dos instrumentos de sopro. Vibrações estonteantes que despertam o ritmo interior, o olhar e ouvido atento, principalmente das crianças. “É a tradição”, dizem uns. “É só barulho”, dizem outros. Uma dicotomia que não deixa de ser interessante.

julho 2003


Festas populares no concelho
Martim festejou o Santo António

Chega o calor e começam as festividades dos santos populares. Em muitas localidades, como é o exemplo de Martim, há uma dedicação ao culto divino do santo padroeiro de seu nome de baptismo, Fernando de Bulhões. Nascido em Lisboa em 15 de Agosto de 1195, é tido como protector dos marinheiros, leiteiros, pobres, moças casadouras e curador de infertilidades. Associa-se a sua imagem de “santo casamenteiro” à folia dos meses quentes de Verão – uma altura encarada como de grande fecundidade da terra e das mulheres – numa aproximação entre o sagrado e o pagão, e alimenta-se o mito. O mito que cresceu a partir de 1950, quando o franciscano apadrinhou diversas uniões de classes mais pobres, por iniciativa do jornal "Diário Popular". Através de inscrições, os noivos casavam no dia 13 de Junho e ganhavam enxoval e equipamento doméstico. Em contrapartida, era exigida uma insólita garantia de virgindade, provada clinicamente. Propaganda do Estado Novo.

Hoje em dia, chega o calor e preenche-se a agenda dos artistas populares portugueses. Percorrem praticamente o país inteiro actuando em romagens, romarias e pequenas festividades. Pequenas festas que se tornam grandiosas para quem as organiza porque é algo que lhes pertence e que está intimamente relacionada com a sua cultura e as suas gentes. Os espaços e os programas são sempre muito parecidos assim como os cartazes pitorescos e coloridos que apresentam o programa e uma infinidade de patrocínios. Há sempre, ou quase sempre, fogo de artifício, roulotes de bifanas, música gravada nos altifalantes, carrinhos eléctricos para os mais jovens, a procissão “majestosa”, as “grandiosas” actuações dos “afamados” artistas, muita gente, folclore, bandas de casamentos e baptizados, entre outras coisas.

As festas de Martim em honra de Santo António não fogem à regra. Durante nove dias o santo foi venerado, tendo as actividades terminado no passado fim-de-semana com um programa cultural bastante diversificado: folclore com os grupos “Lavradeiras de Meadela” de Viana do Castelo e “Casa do Povo de Martim”, bandas de música, fanfarra e a “majestosa” procissão no domingo; a animação dos Zés Pereiras com Gigantones e as actuações da Orquestra Crystal e do famoso Emanuel no sábado; o encontro de concertinas e a actuação da “afamada artista” Ruth Marlene, que apresentou novos temas do seu mais recente trabalho, na sexta-feita, dia de Santo António. E, durante todo o fim-de-semana, fogo. Fogo de artifício, fogo preso, alvorada com salva de morteiros e “pirofantasia”.

junho 2003


Celebrações de Santo António em Arcozelo
“Cantigas do bairro” 1º de Maio

É disto que o povo gosta. Da apetitosa sardinha assada acompanhada de um naco de broa e de uma malga de bom vinho. Da música de fanfarra digna de muitos coretos esquecidos e das frequências agudas dos altifalantes que expelem música gravada de ranchos durante todo o dia. Das cores alegres e quentes das vestimentas dos desfiles e das pequenas luzes que piscam como uma árvore de natal. Das coreografias ensaiadas ao ritmo das cantilenas antigas que se repetem nas marchas. Das diversões e jogos que só aparecem uma vez por ano: tiro ao meco e badameco, “tiro” à rifa e afins. Também dos quatro póneis que andam lentamente à roda, numa espécie de fuga à tontura (tortura?) que só termina no cansaço (também) das crianças risonhas sentadas no dorso e no preço dos bilhetes (2 euros). Da música pimba ou popular (ou o que lhe queiram chamar, pouco importa) dos conjuntos afamados da zona que incitam ao bailarico com as suas versões de versões sintetizadas. Dos martelinhos, das pipocas, do algodão doce, da roulote de bifanas, febras e cachorros e dos foguetes. E não só.

Todos estes elementos típicos estiveram presentes na festa em honra de Santo António do Bairro 1º de Maio. Há quem diga que “as pessoas do bairro esperam o ano inteiro pela festa mal esta acaba”. Certamente. Logo na sexta-feira as pequenas ruas encheram-se de pessoas ansiosas pelo desfile. Ao longe, ouvia-se a música colorida da Banda Plástica de Barcelos, locomotiva sinfónica das marchas. Eram muitas as pessoas que esperavam pelos grupos e acolhiam com palmas e mimavam as crianças do Bairro 1º de Maio, aparentemente já cansadas da longa caminhada. “A cultura não é só para os grandes, é também para os pequenos” dizia o comentador, evidenciando a maioria de cores infantis presente. A escola de música de Arcozelo “Oops!”, com os seus arcos luminosos alusivos à escala das notas musicais, presenteou a assistência com uma composição original à qual deram o nome de “Marcha Oops!” – “Somos da escola Oops!/E aqui vamos cantar/Para o nosso santo António/E as festas animar”. Também num ambiente percussivo desfilou a escola do ATL de Arcozelo cantando a “Tianica” e o rancho folclórico da Casa de Saúde de S. João de Deus. A encerrar o desfile, a marcha das Donas de Casa com o carro alegórico da comissão de festas transportando o Santo António “verdadeiro”. Uma decoração com muitas luzes e que ia “desde o rolo da massa até à colher de pau”.

Por volta das 23h30, os Maxi Music (compostos por um teclista e um vocalista), subiam ao palco e percorriam um alinhamento de temas pimba e populares conhecidos (Quim Barreiros e outros), dando ritmo ao baile que se iniciou logo de seguida. As crianças subiram ao palco e preencheram o espaço vazio mas, como incomodavam a prestação enérgica do artista, tiveram de descer... No dia seguinte, a prestação de “Zé Manel Music Box e Sílvia Alexandra” foi muito idêntica. Musicalmente, os temas repetem-se. Papel químico. Visualmente, acrescentam-se luzes no palco, fumo, um PA mais potente, uma vocalista e quatro bailarinas. E o “Apita ao comboio” continua a entreter os bairristas. Outros, preferem o gosto do algodão doce. No domingo, a Banda D’Amizade e o grupo de danças de salão de Arcozelo deram continuidade. Diversão. O que importa mesmo é a diversão. “Santo António já se acabou”… É disto que o povo gosta.

junho 2003








19.6.03

Fim-de-semana revivalista em Barcelinhos
O regresso das tasquinhas

No passado fim-de-semana, no âmbito das comemorações dos seus 50 anos, o Rancho Folclórico de Barcelinhos provou que a simplicidade pode triunfar. Na sede da instituição montaram seis barraquinhas, representando cada uma delas as tasquinhas mais carismáticas de Barcelinhos (infelizmente, já extintas),e tentaram reviver da melhor forma a herança gastronómica típica de cada uma: o bacalhau recheado da Rabela; os bolinhos de bacalhau, o chicharro e as iscas de fígado da Saramicaca; as pataniscas e o chouriço da Quinhas da Venda; os pernis e a sardinha pequena da Teresinha Sarreira (também conhecida por O Esganado); as tripas, a raia e as fanecas do Caganeira; e os rojões, o bacalhau e as “cantigas da rua” da Gica. Os espaços já não existem mas ficaram as memórias e os nomes muito peculiares dos estabelecimentos. Antigamente, numa das tasquinhas mais saudosas, “havia um alguidar cheio de carne à entrada da taberna, um ramo de loureiro e uma cabeça de porco pendurada na porta”, recorda o vice-presidente do rancho folclórico, Rodrigo Amaral, para quem a iniciativa cultural Reviver Barcelinhos “foi um verdadeiro êxito, tendo em conta o número de pessoas que passaram pelo local durante os três dias”. Musicalmente, as participações foram bastante variadas dentro do género popular: do humor esganiçado dos cantares ao desafio aos desvarios abonecados e infantis da internacional Banda Plástica de Barcelos, passando pela grave melancolia ébria das vozes da tuna do IPCA e pelas adaptações do universo ABBA da Banda Filarmónica de Oliveira. Dois ou três flashes foram suficientes para soltar vozes e estimular o bailarico ao som desta última banda. Quem não embarcava muito em danças podia contentar-se com a célebre patanisca ou emborcar um boa malga de vinho ao ritmo de uma boa conversa.

Eventos deste género não deambulam apenas no revivalismo fugaz de uma tradição que se pretende manter. Também evidenciam a necessidade de proporcionar aos barcelenses e “peregrinos” animação nocturna e diurna, dando vida a espaços esquecidos e mal aproveitados. No próximo ano, a organização promete “dar continuidade ao projecto e, a pedido de muitos, alargar a duração do evento para uma semana”, disse o vice-presidente. “Aliás o ideal seria existir este tipo de animação todos os fins-de-semana. Não exige grandes investimentos, apenas alguns apoios mais significativos e disponibilidade”.

Agora imaginem. Imaginem a margem esquerda do rio Cávado repleta de gente nas noites prolongadas de Verão. Luz, muita luz. Uma tasquinha aqui outra acolá. Um copo aqui, outro acolá. Um mundo animado, como a cidade nunca tinha visto antes, onde habitam o “tasco-patanisca-revivalista-antigo”, o “tasco-hamburger de plástico-moderno” e as diferentes gerações que os caracterizam. Agora, imaginem do outro lado, um espelho daquilo que continuam a magicar. Imaginem concertos e esplanadas na praia fluvial. Imaginem o que quiserem... Seria um cenário muito interessante. Interessante demais para uma cidade votada ao esquecimento e desconhecimento onde a noite se desvanece e mergulha no vazio. Cenário distante, sem dúvida. Escolham uma data provável e sejam os profetas do século XXI.

junho 2003

Feira das Artes no Largo do Apoio
As artes saíram à rua num dia assim

O dia começou cedo e a chuva ameaçava estragar uma das iniciativas mais interessantes dos últimos tempos no centro histórico da cidade, mais concretamente no esquecido e apagado Largo do Apoio. E quando se utiliza a expressão “últimos tempos” talvez seja bom lembrar o cientista Albert Einstein, presente na feira sob a forma de escultura/caricatura de Joaquim Esteves, e a sua teoria da relatividade. Assim, talvez seja necessário fazer algumas longas incursões temporais, recuar à Idade Média e imaginar como seria o movimentado mercado diário que se realizava naquele espaço. Hoje em dia, como muitos outros locais, encontra-se reduzido à sua singela função de... zona histórica. Há relativamente pouco tempo alguns concertos de jazz deram-lhe vida, mas não foram suficientes para o catapultar do seu estado de coma profundo. E profunda também deverá ser a reflexão do leitor ao abrir as gavetas da memória e tentar descobrir algo mais relativo àquele espaço. Fica aqui o desafio.


Arte em movimento

As “Feiras com Junta”, iniciativa da Junta de Freguesia de Barcelos, são a prova de que os espaços apenas ganham vida quando os habitamos. No passado sábado realizou-se a Feira das Artes. Um conceito que pretendia abarcar um grande número de formas artísticas. Essencialmente, música, pintura, escultura e artesanato. Não se tratava de uma feira qualquer. Além das obras (pinturas com as mais variadas técnicas, esculturas em madeira e barro, artesanato em verga) também se expunha a própria arte: moldava-se o barro, atiravam-se cores para a tela e fazia-se música no momento (estudos e improvisos da escola de música Oops!). As artes misturavam-se, fundiam-se e confundiam-se numa exposição de rua. A única esplanada situada no Largo do Apoio ganhava outra vida e outras conversas (mais artísticas talvez). O chafariz transformava-se num instrumento musical ao preencher com o som d’água os espaços vazios de uma bela solitária guitarra clássica. O som violento de duas baterias e de uma guitarra distorcida invocavam a urgência de furar barreiras e atravessar os ouvidos duros. As pinturas mais abstractas adquiriam compreensão fácil com os improvisos jazzísticos de um colectivo multi- instrumentista. As cores espontâneas e alegóricas de um pincel preenchiam uma tela no momento da criação. Moldava-se o barro e criavam-se inúmeras expressões diferentes. Desvanecia-se o artista anónimo e colocava-se, num rasgo de oportunidade, o seu nome ao lado de outros mais conceituados ou, simplesmente, mais conhecidos. Notava-se a existência de uma comunidade artística de valor, à qual não se dá a devida atenção – e por isso habita nas margens. Evidenciava-se a necessidade de construção de um centro artístico e cultural que proporcione o crescimento de um universo de ideias comuns para a rua e não apenas nela. “Nem parece que estamos em Barcelos” comentava-se na esplanada. O público dividia-se. De um lado, grupos de amigos, outros artistas ou simples apreciadores da criação contentes com o ambiente diferente gerado na cidade. Do outro, aqueles que apenas procuravam algo a condizer com a mobília da sala e teciam comentários mais inusitados aos próprios artistas do tipo: “Que quadro feio!”. Primeiro estranha-se, depois… continua a estranhar-se. Nessas alturas fica sempre bem a frase de Bruno Munari: “Cada um vê aquilo que sabe”. E a sabedoria também se transmite com a realização contínua deste tipo de iniciativas. É preciso tempo e insistência para entranhar.


Noite de serenata

À noite, por volta das 22h, o cenário era completamente diferente. A feira tinha-se despedido para dar lugar à Noite Académica com fados e tunas da Universidade do Minho e do IPCA. Os acordes de “Verdes Anos”, de Carlos Paredes, despertavam uma assistência que, na falta de lugares sentados, se encostava à Casa dos Carmona e se sentava num pequeno muro do outro lado do largo. Trocava-se o Paço dos Duques pela Cabra e Universidade, a Matriz pela Sé Velha, as insígnias coloridas da batina dos estudantes por um pouco mais de espírito académico, e parecia uma tradicional serenata de Coimbra. Os turistas apreciam, os estudantes afirmam-se, e a cidade cresce. E com mais esplanadas também se diverte.
O próximo sábado vai encher-se de cores e de aromas com a Feira das Flores. E depois? O que vai ser do Largo do Apoio? 

julho 2003






8.6.03


III Queima das Fitas do IPCA
O esquisito e os outros na festa dos estudantes

Durante quatro dias o espaço destinado às futuras instalações do IPCA, em Vila Frescainha S. Martinho, serviu de palco à III Queima das Fitas. Este ano houve uma clara aposta na diversidade. Música popular, brasileira, dj’s e o vanguardismo dos The Astonishing Urbana Fall (TAUF) preencheram o programa musical do Queimódromo.


O esquisito

Numa tela projectava-se um documentário sobre uma pequena localidade cujos habitantes têm um gosto “especial” por armas – Goreville, USA. Uma guitarra “slide” americana atravessava o Atlântico via guta-percha e, à medida que mergulhava na cultura europeia, desarmava as vozes “psico-bélicas” e diluía as imagens a preto e branco. O relógio marcava aproximadamente 1h30 e os barcelenses TAUF encarregavam-se de o fazer esquecer. Sons atmosféricos e sequências repetitivas e minimalistas misturavam-se com contratempos fugazes transmissores de vibrações anacrónicas. Um sax em desalinho partia para um jazz livre de figuras geométricas submetendo-se ao improviso. Num curto vazio rítmico, surgia uma voz distante e um respirar artificial de violoncelo.
A música dos TAUF é esquisita num duplo sentido: é uma música que se encontra com dificuldade (tornando-se ainda mais invulgar em eventos deste género); e é algo apurado, elegante e bem acabado. Apenas pode ser esta a principal razão para a pouca afluência do público. Este, infelizmente, é cada vez menos esquisito, prefere entreter-se a dançar aos ritmos da Shakira e a ouvir anedotas de “fernandos rochas”. A simples justificação de o concerto se ter realizado muito tarde e num dia da semana chuvoso (terça-feira) não parece ser suficiente.

Três noites de puro entretenimento

Na quarta-feira, a animação do recinto ficou a cargo dos Neurónios Abariados e do famoso artista popular Quim Barreiros, frequentemente solicitado para actuar nas Queimas de todo o país. Temas como “A garagem da vizinha” e “Quero cheirar o teu bacalhau” eram cantados “maliciosamente” por um público composto não só por estudantes. Em vésperas de feriado e em plena Festa das Cruzes, foi a noite mais bem sucedida. O parque de estacionamento encontrava-se lotado e dentro do recinto estudantes conviviam com admiradores do músico de todas as idades. Os Neurónios Abariados dedicaram-se a fazer versões, à sua imagem, de temas conhecidos de bandas como os Xutos & Pontapés ou The Doors.
Na quinta-feira foi dia de música brasileira com a actuação dos Dança Brasil. Muitos dançavam. Outros concentravam-se nos movimentos voluptuosos da bailarina bronzeada. À frente do palco, um grupo de estudantes trajados agitava as cartolas e as bengalas e cantava: “Tira a mão do bolso e joga-la para cima” e “Quero-te provar”. Um deles, debruçado sobre o palco e de óculos de sol permanecia imóvel e de boca aberta ao som de versões de Caetano Veloso e de Mamonas Assassinas.
No último dia, sexta-feira, a noite ficou entregue aos dj’s Jesus del Campo, Nuno Cacho e aos MOS – Tiago Lopes e Pedro Pimenta. À medida que a noite avançava o ambiente aquecia e aos poucos o cenário tornava-se algo dantesco. O palco convertera-se numa espécie de altar com duas figuras artificiais e andróginas a dançar em cada um dos lados. O som atingia decibéis exagerados e apenas um público habituado, apreciador daquele género musical, parecia reflectir as vibrações rítmicas comandadas pelo dj Nuno Cacho. Outros preferiam a zona exterior do recinto. Era mais a festa de um público específico daquele género musical do que uma festa de estudantes. Infelizmente, e num universo à parte da academia estudantil, confrontos físicos à saída do recinto revelavam a mentalidade pequena de alguns noctívagos.

maio 2003



Encerramento das comemorações dos 50 anos do Grupo Folclórico de Barcelinhos
O Festival do Rio venceu a chuva 


Pela primeira vez, em 23 edições, o Festival de Folclore do Rio teve de enfrentar um adversário inesperado: a chuva. À hora do início do evento que é, cada vez mais, um dos maiores acontecimentos culturais regulares do concelho, a chuva ameaçava. Apesar do contratempo, o Festival começou. A primeira actuação esteve a cargo do grupo Xistrália, da Galiza. Seguiu-se o grupo da casa e uma espécie de irmão gémeo vindo das Américas: o Grupo Folclórico Migrante de Barcelos, (de Toronto, Canadá) com trajes e músicas inspiradas no rancho de Barcelinhos. A chuva começou a cair com maior intensidade durante a actuação dos alemães Volkstanzgruppe Frommern, que ainda conseguiram levar a prestação até ao fim com a impressionante e perigosa “Dança da espada”. Depois, nada se poderia fazer. Ainda não eram 11 da noite, e uma enorme chuvada obrigou as pessoas a abrigarem-se onde podiam: debaixo dos dois primeiros arcos da ponte medieval, no quartel dos bombeiros ou na sede do Grupo de Barcelinhos.

Devido aos compromissos assumidos pelos participantes estrangeiros, a organização começou por dar o Festival como acabado. Mas logo se reuniu como que em gabinete de crise, e antes da meia-noite já se anunciava que o Festival continuaria no dia seguinte, domingo – só com os convidados estrangeiros.

Antes, os mais afortunados tiveram ainda oportunidade de participarem num momento raro. Dentro do quartel dos bombeiros, e enquanto cá fora a chuva caía com intensidade, membros do Ballet Folk de San Luís Potosi, do México, improvisaram alguns temas do seu reportório, aquecendo vivamente as almas dos “espectadores”. Um coro “tequilla”, trompetes, uma enorme viola baixo, violinos e uma harpa faziam esquecer a chuva. “Una más”, pediu o entusiasmado público por mais de uma vez.

Pela mesma altura, também o grupo vindo da Rússia e os galegos, abrigados na sede da organização, também exibiam alguns dos seus temas. Misturavam-se os sons e as cores: as agudas vozes russas, uma tarola ao desafio, um bailado alemão limitado pelo espaço, a fluorescência das vestes malaias, os ritmos ciganos do conjunto galego, as gaitas de foles e as concertinas… um verdadeiro convívio internacional.



Cinco culturas diferentes

Apesar de não ter sido possível garantir as mesmas (boas) condições técnicas que foram usadas no sábado, e da dificuldade em gerir o tempo de actuação dos russos e dos mexicanos (que nesse mesmo dia também actuaram em Monção), a organização proporcionou ao público um Festival de muito boa qualidade – com algumas actuações daquelas que dificilmente se esquecem.

O importante era, uma vez mais, proporcionar ao público a possibilidade de assistir ao vivo a músicas, danças e coreografias de qualidade. E isso, com esforço e capacidade de organização, foi conseguido.

A primeira actuação da noite de domingo foi do Student’s Folk Ensemble Katowice (Polónia), fundado em 1969 e composto por estudantes da universidade da Silésia e colégios da mesma região. Apresentaram uma dança bastante teatral – uma espécie de ritual de acasalamento – e outra bastante acrobática. A música tornava-se ainda mais alegre com os gritos e assobios dos dançarinos (o que se tornou uma constante em praticamente todos os grupos) e surpreenderam, no final, ao despedirem-se interpretando uma música popular portuguesa – cantada em português, com forte sotaque. Como sempre acontece nestas ocasiões, a assistência rendeu-se à simpatia.

Depois da Polónia, um salto até ao outro lado do mundo.

“Olá” – foi a palavra de saudação aprendida e repetida pelo grupo malaio, Student’s Perfoming Arts Association, mal estes entraram no palco. Utilizavam instrumentos orientais típicos e começava a revelar-se interessante a forma como diferentes povos, com culturas muito díspares, faziam uso dos mesmos instrumentos – violino, flauta e concertina. Com vestes de cores fluorescentes apresentaram uma dança com gestos, ritmos e movimentos sensuais – o simples movimento das mãos das bailarinas como que fascinavam. Durante a actuação deste grupo, homens e mulheres nunca se cruzaram em palco.

Um ambiente muito diferente do grupo que lhe seguiu – novamente, e sem chuva, o Volkstanzgruppe Frommern, da Alemanha. Desde 1978 que possuem uma ligação forte com o rancho folclórico de Barcelinhos. Apresentam um traje com mais de duzentos anos e danças burguesas firmes e aprumadas: “Dança dos tecedores”, “Dança das fitas” e “Dança da espada”. Nesta última dança entrelaçam as espadas formando dois conjuntos de oito que servem de pedestal e elevam as “vozes do reino”. Dois divertidos momos tentavam quebrar a rigidez da dança fazendo emergir as primeiras gargalhadas. As cores das vestes, os sinos que tilintam e a máscara risonha que possuíam contrastavam com o aspecto aprumado e formal dos restantes elementos.

Da Rússia surgia toda a energia de passos e sons com o Ensemble Stepnye Zarnitsy. Uma tarola efusiva, mudanças bruscas de ritmo, balalaicas, gritos marcados e o som dos pés despertavam a assistência. “Raio de Verão na Estepe” foi uma das apresentações. Movimentos tipicamente russos reveladores de uma ginástica impressionante. Também cantavam e disparavam gritos. Gritos de guerra. Ou talvez não. Simplesmente condimentos de uma espécie de dança de acasalamento. A falange de apoio russa incitava o restante público arrancando o maior aplauso da noite.

O último grupo da noite, o Ballet Folk de Sam Luís Potosi, do México, remetia os pensamentos para o Speddy Gonzalez. Os vestidos das mulheres eram simplesmente deslumbrantes. Produziam movimentos e efeitos circulares coloridos encantadores.

No final um par de cada país dançou uma chula do Minho. Um momento interessante, quanto não seja, pela estranheza.

TE + CB
julho 2003




Walter Hidalgo Tangos nos IV encontros de Música de Barcelos
Noite de tango merecia casa cheia

O vermelho do sangue argentino não é um vermelho qualquer. Transporta em si todos os traços melódicos e melancólicos, toda a poesia de formas, movimentos e palavras, toda a vida boémia e embriagada de amores que caracterizam o tango de Buenos Aires. O escritor Jorge Luís Borges era da opinião de que nenhum outro maestro ou músico consegue despertar o mesmo sentimento que qualquer “tanguero” latino provoca. O dueto de músicos argentino que actuou na passada sexta-feira à noite, no auditório de S.Bento Menni, provou exactamente isso.

Walter Hidalgo toca de uma forma irrepreensível bandoneon (instrumento alemão da altura da II Guerra Mundial que produz os sons que caracterizam a saudosa série “Allô Allô”), respira com ele e canta chorosamente de olhos fechados. Na guitarra, Ramon Maschio também fecha os olhos e colmata a agressividade e agitação de um tango moderno, ao estilo de Astor Piazzolla, com suaves harmónicos clássicos. Juntos, assumem uma cumplicidade total. Fazem percussões nos instrumentos, assobiam, desafiam-se um ao outro e, com um ritmo quente, atingem momentos verdadeiramente onomatopaicos. Os dedos aceleram e enterram sentimentos a uma profundidade desmesurada.

No centro do palco, os passos de dança protagonizados por Dario e Inês completam o cenário de luzes intermitentes e dão cor aos sons. Num misto de movimentos sensuais, que oscilam entre uma suavidade feminina e o automatismo provocado pelo ritmo sincopado e, por vezes, malévolo do bandoleon, enlaçam-se em arabescos eróticos. Criam personagens diferentes de todas as vezes que entram em palco sem, contudo, desvirtuar os estereótipos da dança: um homem, em trajes de rufião, que simula proteger quando explora; e uma mulher, com um vestido sensual, que finge entregar-se por amor e não por medo.

O público inicialmente silencioso, aplaudiu de pé no final. Contudo, não fez esquecer a quantidade de lugares vazios em nada condizentes com a qualidade do espectáculo. Uma coisa é certa, não é só uma questão de divulgação. É preciso fazer muito mais para combater o marasmo na cultura barcelense.

abril 2003



Espectáculo de Tony Carreira na Festa das Cruzes
15 anos de Carreira

Há alguns anos atrás, o famoso humorista Herman José, vestido de uma das suas personagens mais carismáticas, cantava: “Tony, o meu nome é Tony Silva. Sou um grande criador de toda a música Ró”. O Tony que esteve presente na passada sexta-feira nas Festas das Cruzes não é nenhum personagem. É um real cantor romântico com uma séria carreira de 15 anos de sucesso. E, tendo em conta o cenário de diversões e pessoas que nestes dias preenchem o centro histórico da cidade, a escolha não poderia ser melhor. O espectáculo de Tony Carreira é perfeitamente condizente com o clima cultural que se respira neste tipo de festas.

Eram apenas 20h30 quando as pessoas se aglomeravam na frente do palco situado na Av. da Liberdade. E esse facto já dava para imaginar o que iria acontecer. Se o fim-de-semana de Cruzes já por si arrasta milhares de pessoas à cidade, tornando-a inevitavelmente caótica, uma noite com o espectáculo do famoso cantor seria claustrofóbica, diria mais, impossível. E assim foi, ora não fosse o Tony Carreira o artista que esgota o Pavilhão Atlântico, em Lisboa, e até o Olympia de Paris. Num curto espaço de tempo, a cidade foi invadida.

O Tony Carreira não é um artista qualquer. Ao contrário de muitos artistas que animam festas, tem uma banda com bons executantes e não canta em “playback”. Tem um guitarrista chamado “Fifi” de cabelos compridos que parece um elemento de uma banda rock de um “glamour” duvidoso dos anos 70. Mas é só o aspecto, porque a música que apresenta é ligeira e ultra-romântica. As fãs deliram. Sabem as letras de cor. Cantam com entusiasmo e gritam nos intervalos: “Tony, Tony, Tony”. Quase choram de felicidade...

Durante um instrumental com guitarras à Dire Straits, o artista e as duas elegantes coristas vestidas de negro, saíram do palco e mudaram de roupa. O artista passou de um branco tranquilo e harmonioso para um vermelho néon condizente com os vestidos decotados até ao umbigo das duas vozes femininas e com as luzes fogosas e intensas do palco. Tinha chegado a parte acústica e mais intimista do concerto. Protegido pela guitarra acústica desabafou: “Eu sou muito tímido e esta música tem muito a ver com aquilo que eu sou. Na altura era mais rebelde. Hoje estou mais calmo”. Assim, surgiram os primeiros acordes de “Sonhos de menino” e o público, na sua maioria composto por mulheres, delirou. O concerto terminou antes da meia-noite para dar lugar à habitual sessão de fogo de artifício. Ignorando o espectáculo no firmamento, uma multidão de fãs apinhava-se junto ao palco para pedir um autógrafo.

Já em horas tardias, quando a cidade tinha voltado ao normal vazio das ruas, o camião TIR com letras garrafais a dizer Tony Carreira partia para o seu destino. “Ai destino, ai destino” cantava alguém numa das barracas de comes e bebes ainda aberta. Há fenómenos inexplicáveis, ou não.

Maio 2003

Orquestra do Norte nos IV Encontros de Música
Encontros com classe

A existência de um auditório como o S.Bento Menni veio, decididamente, contribuir para o desenvolvimento da cultura barcelense. Nele decorreram os IV Encontros de Música, que encerraram no passado sábado à noite com o espectáculo da Orquestra do Norte acompanhada pelo pianista Adriano Jordão, afirmando-se cada vez mais como um espaço único em Barcelos para a realização de determinado tipo de eventos. A música clássica, apesar da sua característica mais elitista do que popular e do seu corpo mais rigoroso e aprumado, consegue atrair um número considerável de pessoas ao auditório. É certo que a projecção da Orquestra do Norte e do pianista Adriano Jordão dispensa uma divulgação mais cuidada mas, tendo em conta o cenário noutros espectáculos dos Encontros, poderá dizer-se que a afluência do público no passado sábado foi muito positiva.

A “Abertura” da ópera “As Bodas de Fígaro” de Mozart, por muitos considerada a sua melhor ópera em termos de enredo e desenvolvimento narrativo, deu início ao espectáculo dirigido por António Baptista. Nela notava-se o destaque que o compositor dava aos instrumentos de sopro, principalmente o clarinete, que introduziu pela primeira vez numa orquestra sinfónica.

Sem retirar o centro das atenções ao colectivo orquestral, o pianista Adriano Jordão assumiu o protagonismo na interpretação do “Concerto n.°2 para piano e orquestra Op.21” de Frédéric Chopin. À partida parece um paradoxo, mas o compositor, e por inerência os intérpretes das suas obras, conseguem tornar a orquestra a alma do espectáculo, o que à partida parece impossível. O piano é muitas vezes esquecido para dar lugar a outros instrumentos. Por vezes, navega suave e solitariamente sobre ondulantes vibratos e interessantes pormenores técnicos de bater do arco nas cordas e pizzicatos, evidenciando toda a beleza melancólica da música. Perante composições em que vigora o elemento pessoal em detrimento de ornamentos exibicionistas, o pianista entregou-se de uma forma sedutora, procurando um alcance mais espiritual e emotivo da essência da obra.

A segunda parte do concerto foi preenchida com a “Sinfonia n.°4 (8) em Sol Maior Op.88” do compositor checo Dvorak. O sentimento mais triste predominante na primeira parte deu lugar a algo mais vivo. Os momentos mais calmos, onde o vibrato das cordas se misturava com o toque adocicado das flautas, alternavam com momentos mais tempestuosos transmitidos pela força do tímbalos. O espírito mais improvisador e bem menos atento às regras de estruturação de composição da música clássica do compositor conduziu os músicos para um final intenso e forte. Digno de um épico. A pedido das inúmeras palmas de um público atento fizeram um encore e repetiram a parte final do último andamento, “Allegro ma non troppo”.

Inserido no projecto de descentralização da cultura musical iniciado pela orquestra em 1992, o concerto por momentos fez esquecer que Barcelos ainda é uma cidade pequena. Momentos raros, por sinal.

abril 2003
Tournée “Operação Triunfo” em Barcelos
Ao vivo e a cores

Para comemorar os 75 anos de elevação de Barcelos a concelho a Câmara Municipal decidiu, no passado domingo à noite, presentear os barcelenses com... um espectáculo d da mediática tournée “Operação Triunfo”. Ao vivo e, também a cores (partindo claramente do pressuposto que os aparelhos a preto e branco se encontram praticamente já extintos). E, fazendo uma alusão ao próprio nome do programa, foi um verdadeiro triunfo para a organização. A adesão do público obedeceu às expectativas, ora não fosse a “Operação Triunfo” um dos maiores êxitos televisivos da era pós-Big Brother. Uma adesão ao nível das Festas das Cruzes, em pleno Verão. Não faltavam as pipocas, os balões, e os vendedores de colares luminosos. Um trunfo transformado em triunfo. Ou melhor, dois trunfos num só: um programa televisivo de sucesso e portentoso gerador de audiências – o trunfo de “ouros”; e uma participante barcelense simpática e afável que conquistou o coração dos portugueses e, principalmente, dos barcelenses (“Sou filha da terra e tenho muito orgulho em ser barcelense. Obrigada Família!” – desabafou Flora durante o espectáculo) – o trunfo de “copas”.

O público mais entusiasta era, na sua maioria, composto por jovens adolescentes desejosas de ver os seus ídolos fora da realidade televisiva. Gritavam, cantavam baladas com lágrimas nos olhos, encenavam coreografias, levantavam cartazes com frases do tipo “Filipe G. és o nosso cromo preferido!” ou “David, estamos contigo!” , mostravam as suas t-shirts com fotografias dos artistas e com a frase mais badalada do momento – “Tou que nem posso!”, apinhavam-se junto ao backstage na expectativa de os verem mais de perto ou de conseguir um “valioso” autógrafo, pisavam as flores do jardim na ânsia de não perderem pitada do espectáculo.

Eram aproximadamente 22h quando se ouvia o genérico do programa e se espalhavam luzes estonteantes no palco. Ouviam-se os primeiros gritos e a voz radiofónica de um dos concorrentes a gritar o habitual e artificial: “Boa noite Barcelooos!”. Filipe G., Filipe S. e Rui davam início ao espectáculo com o conhecido “Dancing in the Street” adaptado nos 80’s pela dupla Bowie e Jagger. A música não era gravada. Os competentes músicos (na guitarra, no baixo, na bateria e nas programações/sintetizador) encarregavam-se de reproduzir os temas originais com todos os pormenores técnicos. As luzes de palco e as coreografias dos bailarinos conferiam o restante aspecto cénico. Como na TV. Depois sucediam-se as típicas e premeditadas intervenções dos concorrentes: “Vamos lá pessoal!”; “Essas palmas!”; “Esses braços em cima!”; “Mais alto!”; “Estão a gostar? Querem mais?”; “E salta Barcelos, olé, olé!”.

Mas, a maior ovação da noite foi, sem dúvida, para a Flora quando entra em palco para cantar “Os Índios da Meia Praia” de Zeca Afonso. A 14ª música de um extenso repertório de 33 músicas com uma duração total aproximada de duas horas. Um repertório que mistura nomes como Zeca Afonso, Björk, Sérgio Godinho, Nat King Cole e Natalie Cole, com Bon Jovi, João Pedro Pais, Anastacia ou Shania Twain. Um desfile de hits conhecidos que preenchem as listas infindáveis dos karaokes e das playlists de djs de domingo à tarde. Capaz de agradar a toda a gente presente. Ou quase toda a gente...

Ainda houve tempo para o encore: “One day in your life” (Anastacia) com a Sofia, vencedora do concurso; “Man, I feel like a woman (Shania Twain) só com as mulheres; “Á minha maneira” (Xutos & Pontapés) só pelos homens, com direito a artifícios pirotécnicos; e o divulgado tema “Acreditar” com todos em palco.

Musicalmente, o espectáculo é uma espécie de karaoke com uma produção de qualidade avançada: um grande palco, uma vistosa produção de luzes, muita gente a assistir, música ao vivo, tecnicamente bem cantado (fruto de uma formação musical intensiva) e sem as habituais desafinações que assombram os bares e esplanadas em noites de karaoke. Tudo muito bem estudado.

Mas, algumas questões pairam no ar. Onde está o valor artístico do espectáculo e a capacidade criativa dos participantes? Porque apenas se dá valor a alguém quando aparece na TV e não quando ainda permanece no anonimato? Porque não se investe da mesma forma noutros eventos culturais que, apesar de arrastarem menos gente, têm mais qualidade? Uma coisa é certa. Há sempre a possibilidade de mudar de canal.

setembro 2003
Quarteto Vocal Rossini nos Encontros de Música
Música clássica com risos à mistura

O Quarteto Vocal Rossini actuou no passado sábado à noite no auditório S. Bento Menni, nos IV Encontros de Música de Barcelos, dando um espectáculo intitulado “Noites Rossinianas” centrado na obra do grande compositor italiano do sec. XIX, Gioacchino Rossini.

Tendo como ponto de partida as criações da segunda fase da vida do compositor italiano, os músicos não se limitaram a um mero recital de canto e piano das suas óperas leves e bem humoradas. A actuação foi ainda enriquecida com uma ligeira encenação que foi ao encontro de um público diverso, mais ou menos conhecedor da obra do compositor. “As Gôndolas”, “ Os Marinheiros” e “A Regata”, assim como alguns duetos de amor, destacando-se “Os Amantes de Sevilha”, preencheram a primeira parte do concerto, seduzindo os espectadores com a sua notável inspiração melódica, finais alegres, ritmos invulgares e elegância das situações dramáticas.

Depois de um pequeno intervalo, regressaram ao palco para apresentar um conjunto de obras muito divertidas, sem seriedade nenhuma, muito bem adaptadas à acção dos cantores no palco. Entregues à exploração do elemento histriónico das óperas de Rossini, foram despertando suaves risos da plateia. Uma voz infantil e constipada, assim como vozes que miavam, foram dando a conhecer ao público o espírito divertido do compositor, apontado como criador da nova ópera bufa.

Os aplausos do público foram ainda premiados com um encore, que consistiu numa criação rossiniana em cânone perpétuo que parodiava os cantores de ópera, comparando as suas vozes aos sons produzidos por determinados animais. Foi assim, numa confusão de latidos, mios e cacarejos que o concerto chegou ao seu final.

Contudo, apesar da excelente qualidade do espectáculo e da boa acústica do auditório do Fórum S. Bento Menni para a realização de um concerto de música clássica, a afluência do público não correspondeu às expectativas, estando presentes apenas cerca de 80 pessoas. Segundo um espectador, “a falta de uma divulgação mais eficaz parece ser a razão para a existência de um grande número de lugares vazios”.

Março 2003
The Astonishing Urbana Fall na “Oops!”
Uma noite de verão urbana

Numa altura em que escasseiam os bares em Barcelos com música ao vivo (aliás, praticamente inexistentes), em que o “gosto incomodativo dos outros” é cada vez mais amaldiçoado, em que se abandona a organização de um festival de jazz e um promissor “Cellos Rock”, em que, por tudo e por nada, agentes da autoridade interrompem espectáculos de uma forma nada condizente com o seu estatuto deontológico, em prol de uma vizinhança intolerante, as “Noites de Verão” da escola de música “Oops!” tornam-se cada vez mais um hábito cultural regenerador. Um evento que vai já na segunda edição e que durante os fins-de-semana do mês de Agosto preencheu lacunas na política cultural barcelense. “A dificuldade foi arranjar bandas”, assegurou organizador e proprietário da escola, Mariano Dias. “Existem cada vez menos porque também não existem espaços que as promovam”. Nesse aspecto, a “Oops!” funciona como um núcleo concentrado, quer na escola de música, quer na organização de concertos de bandas que passaram pelo estúdio de gravação.

O “progresso” arquitectónico descontrolado e descomedido da freguesia de Arcozelo constitui o cenário. Um cenário imperiosamente urbano: construções confusas e assimétricas, edifícios que brotaram ao longo dos últimos anos como autênticos cogumelos de cimento. Nos subúrbios, entre outros, desenvolvem-se alguns estereótipos: o indivíduo que vê a cidade como um local de repouso do trabalho e repugna qualquer tipo de ruído por muito pequeno que seja; o indivíduo tolerante que fica em casa numa espécie de relação cultural monológica com o televisor; ou o indivíduo que, simplesmente, tenta combater a monotonia e sai de casa à procura de lazer, arte, ou cultura, por muito difícil que seja de encontrar. E, por vezes, sem contar, acaba por conseguir. Ora, é para estes últimos que as “Noites de Verão” da Oops! existem. Uma minoria, sem qualquer dúvida.

E foi também uma minoria (o que não a equivale a pouca gente) que assistiu na passada sexta-feira à noite ao concerto dos The Astonishing Urbana Fall (TAUF). Um concerto sóbrio e concentrado, com doses de minimalismo pós-rock desprendido, despido de efeitos cénicos e de vozes, apolíneo, e cada vez mais distante do experimentalismo abrasivo de “Acetaminophen” e do formato electro-radioactivo de “Iconolator”. Uma versão (distante) de “Autogenesis Pilgrimage” revela uma fase pós-”Rhizome” cada vez mais entregue a ambiências jazzísticas improvisadas (“Azimuth”), a sons de vinil perdidos na memória, a danças frenéticas de baixo e bateria, a sons electrónicos e samples em viagens pela Islândia. Jazz e electrónica fundem-se e confundem-se. E a última música (um dos melhores momentos) é uma câmara lenta de sons melodiosos capaz de suster qualquer viagem urbana, ou melhor, qualquer queda (horizontal) urbana. Perfeita.

No fundo do palco uma tela com uma imagem arte pop: um avião militar e uma enorme explosão. Cores vivas e apelativas, um quadrado-banda-desenhada com a frase- “Control and ahead of me, Rockets blazed through the sky”-, e uma enorme onomatopeia - WHAAM! Uma tela/teia de associações: uma alusão ao rock urbano descendente de uns Velvet Underground de Andy Warhol; um movimento artístico sitiado em Nova York; uma explosão... um avião... um conjunto de edifícios às cores... sombras de músicos que se projectam numa casa abandonada. Uma noite de verão urbana.

Setembro 2003









7.6.03

6° Encontro Motard de Barcelos
Motas e strip: um estilo de vida

A Associação Clube Moto Galos organizou, no passado fim de semana, o 6° Encontro Motard de Barcelos. Num pequeno livro distribuído pela organização, que continha o programa das festas e os patrocínios de várias empresas e da Câmara Municipal de Barcelos, dava-se destaque ao regulamento e aos conselhos a seguir durante o encontro. Na nota de boas vindas do presidente da direcção do clube, Pedro Faria, apelava-se ao civismo e ao cuidado na estrada, terminando com um importante conselho: “(...) muita prudência na estrada, porque nunca é demais relembrar que os rails matam!”. É verdade, os rails matam. Mas a velocidade, as acrobacias, o não uso do capacete, o desrespeito pelas regras de trânsito, entre outros factores, também matam. Logo no primeiro dia, um violento acidente, na Av. Sidónio Pais, entre dois jovens motociclistas originou a morte de um deles. E se, por um lado, o acidente ocorreu fora do local da concentração ultrapassando, de certa forma, o campo de acção da entidade organizadora do evento, por outro lado, a falibilidade das campanhas de sensibilização não foi colmatada por uma segurança mais eficaz. Apesar das precauções das entidades policiais os motociclistas não deixaram de se aventurar nas ruas da cidade cometendo inúmeras infracções ao código da estrada.

Mesmo assim a festa não deixou de ser festa. Durante três dias, a cidade foi invadida por uma quantidade considerável de motociclistas de todo o país. Uns mais estereotipados, de calças e blusão de cabedal, lenço na cabeça e o emblema do clube a que pertencem nas costas; e outros mais do tipo “tenho-uma-mota-e-vou-lá-ver-o-que-se-passa”. Na sexta-feira já se notava o alvoroço e ruído. No parque da cidade realizava-se a feira motard e algumas exposições. Duas motas penduradas numa árvore não deixavam praticamente ninguém indiferente. “Olha, olha, aquela parece estar enforcada!” comentava alguém que passava.

A noite foi preenchida por concertos e shows de strip tease. No palco, os barcelenses Projecto Alfinete tiveram a difícil tarefa de abrir as hostilidades tentando despertar o público com o seu pop/rock alegre. Nem mesmo os Diablo, banda de covers de rock “musculado” e revivalista dos anos 80, com versões dos Xutos & Pontapés bem ao gosto da maior parte da assistência, conseguiram quebrar a apatia. As primeiras reacções apenas surgiram quando as strippers chegaram. Ouviram-se as primeiras assobiadelas quando elas, ainda vestidas, se dirigiam para os camarins. Mal a primeira entrou no palco, o vazio na plateia deixou de existir. Depois de mostrarem os seus atributos, deram lugar ao espectáculo de Quinzinho de Portugal com o seu “bacalhau pimba”.

No sábado, a tarde foi preenchida com a perícia “Lambreta Store” e com a demonstração Freestyle de André Colombo e Ronaldo. Depois do habitual passeio das tochas pelas ruas da cidade a noite continuou com os espectáculos dos Beatiful Noise e dos Quinta do Bill e com os afamados e esperados “intervalos” de strip tease. No domingo, despediram-se da cidade depois do usual passeio turístico pelo concelho.

Com a presença dos autores do álbum “Nómadas” a organização conseguiu ter um programa musical mais interessante do que o da Festa das Cruzes deste ano. Contudo, continua a persistir a questão do ruído. Apesar do local ter as condições necessárias para a realização do evento, está situado perto do hospital e de muitas residências, existindo cada vez mais a necessidade de organizar o evento numa zona periférica da cidade e com melhores condições de segurança.

E para o ano era bom distribuir alguns códigos da estrada por muitos participantes.

Maio 2003


Concerto do Grupo de Música de Câmara da Banda de Oliveira
“Viajar para fora lá dentro”

Na passada sexta-feira à noite, o Grupo de Câmara da Banda de Música de Oliveira deu o seu primeiro concerto no auditório S. Bento Menni, sob a nova direcção artística de Samuel Bastos. Por isso foi “um concerto especial”. Especial para o maestro, para os músicos e para a maioria da assistência. O convite partiu da companhia de teatro “A Capoeira” para o recente evento “Quaternário – 1ª Feira de Artes de Barcelos”.

E foi uma estreia em clima de festa. Pelo menos para o Agostinho. De certeza. Batia palmas com entusiasmo e estendia as mãos com os polegares levantados como quem pedia boleia para uma festa numa aldeia qualquer. Ou simplesmente, como se dissesse por gestos: “É fixe! É altamente!”. Agostinho é de Cabeceiras de Basto. Há 12 anos que faz tratamento na Casa de Saúde de S. João de Deus e confessa: “Já estou habituado” – como quem “não aquece nem arrefece” com esse facto. Sente-se bem. Especialmente quando há festa. Diverte-se. E o concerto foi uma autêntica festa. “Vou sentar-me aqui na última fila. Não, não. Na primeira fila.” E começava a impacientar-se. Sempre, ou quase sempre, a olhar para o relógio. “Nunca mais começa!...”.

Os temas foram escolhidos dentro de uma linha particular. A que é habitual na formação escolar e repertório da Banda de Oliveira. Música típica de coreto. Adaptações para instrumentos clássicos (metais) de hits pop famosos (Abba); incursões no folk americano dentro do estilo das American Brass Bands (“com bateria e tudo!”); e arranjos em meddley de clássicos latinos com trompetes ao desafio que ninguém deixa de reconhecer e associar às touradas.

Uma autêntica banda sonora anos 80 de séries e filmes americanos nas tardes televisivas de domingo. Nostalgia. Momentos musicais que acordam “Tom & Jerry”. Sons que permanecem guardados e que se recordam sem se saber muito bem se são bons ou não. Melodias fáceis. Simples.

Foram muitos os momentos e movimentos que despertaram (ainda mais e não só) o Agostinho. A Dança Francesa de Praetorius/Kenny com o flautim do solista Luís Sousa; o meddley dos Abba com “Dancing Queen”, “The Winner Takes It All”, e “Fernando” (“Esta conheço muito bem!”); os “testos escondidos” que se ouviam na La Concha Flamenca de P. Artola; os trompetes de “Guantanamera” e “Puerto Rico” (“Vem aí o touro!” – dizia o Agostinho, simulando os cornos do animal com os indicadores na cabeça); e as palmas que se bateram no encore ao ritmo da música (foi o primeiro a pôr-se de pé e a aplaudir). Aplaudia e incentivava os outros a fazer o mesmo. Dava palmadas nas costas dos fotógrafos como se dissesse: “Bom trabalho!”. E, acima de tudo, “viajava para fora lá dentro”. No intervalo pairavam conversas no ar: as medalhas da equipa de futebol da Casa, as caneladas e a derrota no último jogo; o processo Casa Pia e os seus intervenientes “perigosos”; a qualidade e uma caneta Parker; e a pouca afluência de público nestes eventos, excepção feita ao Rao Kyao e ao Padre Borga (“Ui! Nesse é que ‘tava gente!”). E há tanta gente cá fora que viaja para dentro...

Outubro 2003
Classified e Pituba no Olá Barcelos
O incomodativo gosto dos outros

Não existem locais em Barcelos que promovam música com regularidade. Ponto final. Não basta uma agenda de concertos arbitrária de um bar qualquer, é preciso uma dedicação que, por vezes, ultrapassa a simplicidade de ganhar dinheiro a curto prazo. E, num circuito de bares, apenas existe uma realidade: as bandas e outros projectos pedem cachets baixíssimos porque não têm outras oportunidades para se mostrar ao público e, por isso, aceitam qualquer contrato para tocar. Alguns proprietários, muitas vezes com poucos meios financeiros, aproveitam essas condições e o baixo “preço de mercado”, e vulgarizam certos projectos ao nível do karaoke, metendo tudo no mesmo saco. E se os cachets não pagam as despesas necessárias para fazer um bom espectáculo (com as exigidas qualidades sonoras), também não pagam projectos extra território barcelense. Por outro lado, o Cellos Rock deixou de existir e, com ele, uma série de projectos que procuravam uma oportunidade de actuar ao lado de outras bandas mais reconhecidas. O (Cellos) Rock na Barragem não revela a mesma qualidade e a mesma aproximação. A maior parte dos concertos que se organizam no concelho não passam de pimbalhadas, de meras incursões na “Parolândia”. Salvo raras excepções, em que os músicos, artistas e promotores cooperam entre si e tentam fazer com que a cidade não fique entregue ao vazio, continuam a alimentar-se fantasmagorias. Pelo menos, no Verão tenta-se combater esse vazio. Dois exemplos: as Noites de Verão da escola de música Oops! e parte da programação do Olá Barcelos. Este último, assume cada vez mais um carácter compensatório e revela-se insuficiente numa cidade com muito mais para mostrar.


Música? Pode ser... mas baixinho

Na passada sexta-feira os barcelenses Classified actuaram no Olá Barcelos, mais concretamente na esplanada do TrianguBar na Av. Alcaides de Faria. Uma actuação que foi ameaçada pela intervenção, por volta das 23 h, de dois agentes da PSP. O que já se torna habitual. “Mais baixinho ou acaba-se já a música”, interromperam. A esplanada ampliada remete-se ao silêncio e contempla uma actuação (não) prevista, caricata, ou simplesmente ridícula. Abordaram o guitarrista e o dono do bar que nada tinham a ver com a situação. E a simples prova de uma licença camarária foi o suficiente para o regresso à música. As pessoas na esplanada assobiaram e protestaram: “Vai-te embora”. Uma garrafa de água cai de uma varanda. E os Classified regressaram mais soltos ao seu rock remendado com profundas raízes blues e viagens nos 70’s. E é assim que se quer o rock. Nada lavado, nada tímido, nada subjugado, nada comprometido. Os melhores momentos destacaram-se pela agressividade musical (“If I go insane”), e pela liberdade e à vontade dos elementos da banda. Algo que arrastado a toda a actuação, seria mais vigorante. O público gostou e aplaudiu.

No sábado, a actuação dos Pituba no Pérola da Avenida, também foi interrompida. Desta vez, durante alguns minutos, pela chuva ( que foi suficiente para cancelar o concerto dos Rendimento Mínimo na Noites de Verão da Oops!). O som baixinho, elegante e melado que caracteriza os Pituba não incomodava ninguém. Antes pelo contrário, revelava-se uma verdadeira pérola. O piano e a voz, a bateria e a tuba partilhavam a mesma calma e a mesma alma. Um projecto muito interessante, requintado, e bem adequado (também) a um ambiente de esplanada. Mas, a forma como foram arrumados para um canto impedia o som “baixinho” de chegar à esplanada envidraçada. Os temas gravitam nos anos 30 e 40 e têm um aroma jazzístico – "Autumn leaves" de Joseph Kosma e "Polkadots & Moonbeams" de Jimmy Van Heusen são alguns exemplos. Finalizaram com nostalgia televisiva: a “Balada de Hill Street”.



A cultura com remendos

Existem diferenças. Existe o chamado entretenimento e aquilo que ainda pode ter algum valor artístico intrínseco. Um valor que existe independentemente da televisão e, por vezes, de outros meios de comunicação. Em Barcelos cria-se muito, mas já se criou mais. Não se cria mais porque não há espaço(s). Quer-se há muito tempo um espaço cultural onde se possam dar concertos, fazer exposições, assistir a uma boa peça de teatro, ver filmes de qualidade esquecidos pelos “grandes” cartazes, fazer parte de um cine-clube, ou simplesmente tomar café e poder ouvir boa música. Quer-se cada vez mais. Quer-se cada vez mais um Teatro Gil Vicente livre das teias de aranha e promovido a espaço cultural barcelense por excelência. No dia em que isso acontecer as palmas (se porventura forem exigidas) devem dar lugar a silêncio. Um silêncio por tanto tempo de abandono. O abandono de um espaço valioso e de uma cidade. Por enquanto, fazem-se remendos…


Agosto 2003
Inauguração da esplanada da E.S.A.F. com jazz
“Mas afinal o que vai haver aí?”

Uma catita “noite de Verão” – a inauguração de um novo espaço/esplanada na Escola Secundária Alcaides de Faria (ESAF) e a oportunidade para assistir a um concerto de jazz. Adivinham-se intervalos e “furos” descontraídos, a contemplar os primeiros dias de sol da época, num espaço bonito e moderno. Sem dúvida, uma excelente descontracção no período dos complicados exames nacionais e um bom prenúncio de férias (depois do sucesso obtido, claro!). Mas também, um convite aliciante para fazer “gazeta” às aulas.

Uma inauguração a pensar no futuro. O espaço, que outrora era um átrio cinzento de cimento, transformou-se numa área colorida adornada com uma escultura (a fazer lembrar notas de música “cortadas”) desequilibradora das formas rectilíneas do design mobiliário da esplanada. Servem-se bebidas coloridas e refrescantes (sem álcool!) para combater o “calor”. Os estudantes e professores convivem entre si numa relação menos formal, quase extra-escolar. A descontracção dos músicos difunde-se pela assistência. A música do quarteto “quatro.com” é muito mais do que um apontamento de lazer e muito mais do que uma “banda sonora” de um convívio entre adolescentes. Essencialmente porque incute nos jovens (e não só) uma apurada e estimulante cultura musical. Tão descontraída que até surge um “5º elemento” que timidamente os acompanha com uma pandeireta. Senta-se ao lado do palco e quer participar. E discretamente participa.

Contudo, a realidade era bem diferente. No mínimo estranha e anacrónica. A noite de inauguração da esplanada (sexta-feira, dia 24 de Outubro) não era uma noite de Verão. As condições meteorológicas eram bastante adversas. O frio gelava os músicos e a assistência. Uma assistência nitidamente pouco interessada no “espírito divertido e informal” de Rui Teixeira (saxofone), Hugo Raro (piano), Manuel Barros (baixo) e António Pinto (bateria) e nos seus arranjos de standards do jazz e de compositores mais recentes (Charles Loyd e Benny Golson). Não se percebia muito bem se a “banda sonora” era a música do quarteto ou as vozes altas das conversas. O mais importante parecia ser o convívio. Mesmo assim, o interesse de uma minoria resistente ao frio, composta por alguns alunos e antigos alunos, justificou uma actuação de mais de uma hora e um pequeno encore.

Apesar do desfasamento temporal há que dar toda a relevância ao evento. É que, já há muito tempo que não se assistia a um concerto de jazz em Barcelos. Um tipo de concerto cada vez mais raro na cidade, principalmente depois do desaparecimento do “Barcelos com Jazz” das agendas culturais. Assiste-se apenas, de vez em quando, a alguns improvisos com mais características de raridade do que de esporadicidade. Talvez não seja má ideia uma escola proporcionar aos barcelenses este tipo de eventos. Naquela esplanada, mas na época Primavera/Verão. É que não é só nas salas de aula que se aprende e se enriquece culturalmente. E com um pouco de educação cultural e musical talvez não se ouçam, com tanta frequência, comentários deste tipo (salvaguardando-se, evidentemente, a questão do frio): “Mas afinal o que vai haver aí? É a inauguração da esplanada? Ó, vou mas é para casa fazer croché!“

Outubro 2003


Frei Hermano da Câmara no Pavilhão Municipal de Barcelos
O mito de uma velha geração 


“Para um espectáculo ser bom tem que haver três coisas: o cantor tem que ser do melhor que há; os guitarristas e os técnicos de som têm que ser os melhores do mundo; e o público tem que ser super super super” - palavras do senhor, Frei Hermano da Câmara, durante o seu espectáculo, no passado sábado à noite, no Pavilhão Municipal de Barcelos.

Apesar destes três elementos não terem sido em conjunto, efectivamente, os melhores do mundo, isso pouco importou para o público que esteve presente e que, ao mesmo tempo, contribuiu, através da compra de bilhetes, para as obras no Centro Social de Durrães. De facto, em termos técnicos, o espectáculo poderia ter sido bem melhor. A qualidade de som esteve bastante longe da perfeição, quer devido à fraca qualidade acústica do pavilhão, quer devido a um ruído incomodativo que levou a várias trocas de microfone e provocou algumas desafinações. Mas, o que importava mesmo era a festa e a oportunidade para muitos de verem, pela primeira vez, Frei Hermano da Câmara ao vivo, num espaço que, apesar de não ter lotado, possuía uma moldura humana considerável.

Acompanhado por uma viola, duas guitarras portuguesas e uma viola baixo, o fadista de trajo negro iniciou o espectáculo por volta das 22h30. Desde logo, pediu desculpa pelo atraso e prometeu “cantar até o mandarem embora”. Apesar da impaciência e ansiedade provocadas pelo atraso, o público acolheu o fadista com uma grande salva de palmas.

No palco imperava a simplicidade. Um pequeno altar rosa forte com uma vela a iluminar uma figura religiosa feminina e uma jarra de flores, conferia o carácter religioso ao cenário apresentado. No mesmo altar, um copo com “licor dos deuses” que aquecia a voz do monge beneditino à medida que ia cantando muitas das músicas de uma longa carreira iniciada nos finais da década de 50.

Apesar da idade já avançada, quer do artista, quer da maior parte da assistência, o espectáculo foi repleto de energia. Cantaram, bateram palmas e riram com as sucessivas intervenções do monge sempre bem humoradas - “Quando se bate palmas não se canta ao mesmo tempo... Sai a voz toda tremida que até parece o Pavarotti!”. Mas, a interactividade com público, nitidamente conhecedor das suas letras e canções religiosas, não passou apenas pelo diálogo. O autor de “Colchetes de Oiro”, tema incluído no seu primeiro álbum datado de 1959, “Sunset and Sentimental”, desceu do palco e circulou perto dos seus fãs presenteando-os com uma série de músicas alegres carregadas de espiritualidade positiva, destacando-se “Jesus” e “Samaritana”. As letras das suas canções são autênticas orações religiosas adaptadas ao fado e resultam na perfeição perante um público também ele bastante religioso e católico.

E assim foi pela noite dentro... A eventual ausência de crentes na missa da manhã de domingo, não muito habituados a concertos até hora tardias, foi certamente perdoada pelo Senhor.

2003