um blogfolio de coisas sonoras

19.6.05

Recital de piano no auditório da Biblioteca
Sem pautas e com poesia

Dois aspectos importantes a reter relativamente ao recital de piano na passada sexta-feira à noite no auditório da Biblioteca: uma boa afluência de público não muito comum nos eventos de música clássica realizados naquele espaço; e uma apresentação musical de nível, quer no que respeita à escolha programática, quer relativamente à “proposta” de comunicação com o público. Ambos os aspectos podem explicar-se suficientemente pelo artista e pelo seu currículo. Miguel Campinho, nascido em 1978, concluiu o “Master of Music in Piano Performance” na Hartt School – University of Hartford (Connecticut - EUA) em 2002, venceu vários prémios em Portugal e mais recentemente nos EUA (3.º prémio na “Young Artists Competition” organizado pela Connecticut State Music Teachers Association), estudou também na Hochschule der Kunste (Berlim) e, entre outros factos relevantes, actuou a solo e em música de câmara em vários países (Portugal, Espanha, França, Alemanha e EUA). Para um músico com apetite musical por virtuosos (Paganini e Liszt), apesar do já alcançado, pode muito bem ainda ser pouco...

O recital dividiu-se em três partes. A terceira surgiu como um bónus: um encore de regresso a um excerto de Rachmaninov (a lembrar o filme “Shine”) interpretado pela primeira vez pelo músico “há sensivelmente 7 ou 8 anos” no mesmo local (“Vambora!” [sic] gritou alguém na fila da frente). Na primeira parte foram interpretadas obras de três diferentes autores: Xavier Montsalvatge, Isaac Aleniz e Maurice Ravel. Do primeiro, catalão, nasce uma ambiência desconcertante, notas certas nos sítios errados (ou notas erradas nos sítios certos?), para uma banda sonora de desenhos animados desconchavados onde o ragtime se cruza com folclore cubano – Três Divertimentos “sobre temas de compositores esquecidos”. Um bom início. Depois de uma interpretação de “sabor espanhol” (El Puerto de Albeniz) acontece o jogo espelhado na interpretação de “Une barque sur l’ocean” de Ravel em ritmo de ondulação marítima, ao mesmo tempo melancólica e tempestuosa, revelando uma estética complexa e estranha de “jogos de espelhos” (da explicação fica a frase: “os olhos não se conseguem ver a si mesmos a não ser por outras coisas”). Bonito.

Aparentemente, a escolha dos autores para a segunda parte obedeceu a um critério de preferência e admiração de Miguel Campinho. No entanto, destacam-se alguns aspectos comuns: o virtuosismo patente nas obras, quer nas “Variações sobre um tema de Paganini (Livro I)” de Johannes Brahms, quer na abordagem de Franz Liszt apresentado como o “primeiro grande pianista virtuoso” (também conhecido por partir pianos); o ambiente sonoro mefistofélico, quer na abordagem da excentricidade de Paganini (“o violinista que vendeu a alma ao diabo” para atingir a perfeição), quer na “Valsa Mefisto” (Liszt) inspirada na imagem de Fausto; e a poesia, quer pela não indicação de andamento na “apaixonada” “Rapsódia Op.79 n.º 2” (Liszt), quer no “dizer” do “Soneto 104 de Petraca” (Liszt). Neste momento o pianista recorre ao poema e quase troca a fala pela melodia (o que mais valia). Pautas para quê?

janeiro 2005