O (clássico) silêncio incómodo
O silêncio, ou pelo menos a ideia abstracta que temos dele, é na maior parte das vezes algo que se implora aos “deuses” para a contemplação de sons leves, naturais e frágeis. É no duelo de charadas entre Benigni e o médico alemão em “A Vida é Bela”, “aquilo que quando dizemos o seu nome deixa de o ser” e não são raras as vezes em que não nos recusamos a pronunciar um “shhh” para a tranquilidade comunicativa da e pela música. Outras vezes, o silêncio é incomodativo. Ou então, um convite ao adormecimento pós-jantar. Exemplifique-se.
O silêncio é incomodativo quando nos deslocamos para ver um concerto numa quinta-feira à noite, no Auditório da Biblioteca, e deparamo-nos com meia dúzia de gatos-pingados. “Pouca gente” é sinónimo de silêncio. Um silêncio incomodativo. Pode-se ter a certeza disso. Embaraça os músicos porque representa menos palmas e embaraça o pouco público presente porque quase se sente culpado por isso. Pergunta-se, mais uma vez (porque o cenário repete-se): quando é que, nesta cidade (e noutras, já agora) a senhora música clássica despe o seu vestido brilhante de um século antigo, a cheirar a naftalina, e vai para as ruas, para os jardins, para os cafés, ou para outro sítio qualquer, ao encontro de um público que lhe foge? Exactamente como se faz em Londres, Paris, Berlim… (é assim tão longe?) sem vergonha de se tocar Liszt, Bach ou Beethoven de calças de ganga.
Incomoda também o silêncio dos atrasos e dos intervalos. O concerto pelo Quarteto de Cordas Aquarelle estava marcado para as 21h30 e começou pouco antes das 22h00. É um atraso normal quando se espera pelo público. Acredite-se, não vale a pena. Não vale a pena trocar minutos de ansiedade dos músicos pelo tempo “precioso” de um público que não vem. (Quem é o artista, afinal?) Nem vale a pena fazer intervalos de 3 minutos (na realidade foram mais) para revelar atrás da porta dos bastidores tentativas de silêncio, tiques de ensaio, e tensão pré-execução. Não há público que chegue para abafar esses “ruídos”…
O que valeu a pena, mesmo, foi quando não houve silêncio. Quando Vera Sousa (violino), Daniel Ferreira (violino), Carina Rocha (viola) e Raquel Ribeiro (violoncelo) entraram em palco e atacaram as cordas na interpretação de Beethoven – Quarteto op. 18 n.º 4. E quando o pouco público presente bateu palmas, mesmo quando não devia, quebrando uma das “regras” dos concertos de música clássica. A interpretação de Quarteto op. 77 n.º 1, de Haydn, prevista para o início do programa daquela “Quinta-Feira Musical” foi trocada (com aviso prévio) para terceiro e último lugar. Permitam, no entanto, a intromissão: o que seria mesmo de espantar fantasmas de lugares vazios era a abertura com o Quarteto op. 108 n.º 7 de Schostakovich. Seria a banda sonora ideal, “hitchcockiana”, para descrever um auditório semi-vazio e os comportamentos de um “público ausente”, um público que se diz na maior parte das vezes “grande apreciador da cultura”.
Maio de 2005