“A hora mudou?”
Por vezes os títulos querem representar mais do que realmente o são, ou então, condenam o povo à contemplação de uma máscara “daquilo que se quer que seja”, em detrimento “daquilo que na realidade é”. USANÇAS – I Festival de Músicas do Mundo é um exagero de referências. Mas não de intenções. Tenciona ser um evento de referência musical popular de Barcelos em consonância com a Festa das Cruzes (afastando-se, ainda bem, de territórios pimba) mas não passa de mais uma série de concertos de uma noite qualquer da romaria, em absoluta submissão à “lei” do fogo de artifício da meia-noite. Por um lado, USANÇAS aparenta ser uma ideia atravessada pelo conceito do ANDANÇAS chegando-se perto deste apenas pela similitude do nome. Por outro lado, o subtítulo “I Festival de Músicas do Mundo” parece ser demasiado amplo para retratar uma noite com duas bandas de música tradicional portuguesa bem distantes entre si, quer em estilo, quer em qualidade, e uma banda de música tradicional galega com raízes mais próximas de Portugal do que do resto do mundo. Mas, a intenção é boa. Principalmente se, para o ano, se tornar realmente um festival com várias “músicas do mundo” e se se tornar a referência musical por excelência da Festa das Cruzes. Se o povo, eterno apreciador de fogo de artifício, o merece ou não já é outro assunto.
No programa da Festa das Cruzes, do dia 30 de Abril de 2005, lê-se “24h00 – Fogo do Rio – Ponte Medieval, com as margens do rio Cávado iluminadas por milhares de “lumes vivos””. Para a grande maioria de barcelenses é isto que realmente interessa. Toda a gente sabe disso. Quem o deve saber muito bem também é o “azarado” Félix – o Fora-da-Lei que numa das edições anteriores, enquanto apresentava mais um “blues minhoto”, deixou de se ouvir e ficou sem ninguém na assistência quando estourou o primeiro foguete à meia-noite. Para evitar situações incómodas (e porque se aprende também com os erros) arranjou-se a solução “brilhante” da antecipação dos concertos. E o que aconteceu foi o seguinte: às 21h30, os Arrefole já terminavam a sua actuação quando no programa das Festas o início do concerto (e do USANÇAS) estava marcado para as 22h (“a hora mudou?”)! Pelos vistos, além de não poder haver música durante a “foguetada” também não pode haver música depois dela… tem de acontecer tudo antes.
Assim sendo, em respeito pela “abençoada chuva de estouros” o concerto dos Quadrilha terminou precisamente à meia-noite em ponto. Durante cerca de uma hora, a banda de Sebastião Antunes salvou o USANÇAS da pura vanidade. O público (aquele que não procurava um lugar cativo para assistir ao fogo) aglomerou-se junto ao palco, acompanhou a energia do carismático vocalista, e não faltaram vozes a acompanhar as letras mais conhecidas (pelo menos, o “Ai Caramba!” era inevitável) e os habituais “artistas” do público que (nunca se percebeu muito bem porquê) inserem o pino e outras acrobacias em movimentos de dança exibicionistas. A actuação dos galegos Xistra de Coruxo ficou-se na positiva por um interessante clarinete, uma peculiar sonoridade grave (só por isto mereciam um som muito mais forte), e pela simpatia.
Maio de 2005