um blogfolio de coisas sonoras

7.6.05

Concerto de Dr. Frankenstein no Subscuta
E o monstro tornou-se doutor

O monstro tornou-se “soutor” (leia-se sr. doutor). Frankenstein, a elegante e musculada criatura de laboratório de parafusos nas têmporas, terminou finalmente o curso de surf rock revivalista dos anos 50/60, com especialização em guitarra eléctrica Telecaster (de alavanca), variante Dick Dale and His Deltones. Na persistência da comprovação de que o cérebro não é feito apenas de parafusos, porcas e molas, estudou e pós-graduou-se em bandas sonoras de filmes de série B de qualidade mais que duvidosa. Hoje possui um currículo de respeito: dez anos de “estudos”, participação em compilações (Portugal Rockers, Supermarket Music, Cais do Rock); e “certas e determinadas edições” (“The Lost Tapes From Dr. Frankenstein’s Lab”; ou “The Psychotic Sounds of Dr. Frankenstein”).

Na passada sexta-feira 13 (!), noite de bruxas, o proclamado dr. (provavelmente perdido em saias de magas de Vilar de Perdizes), por não possuir o dom da ubiquidade, não se apresentou na sua figura magnânima para uma aterrorizante noite de Subscuta. Ao invés, deixou-se transparecer por três figuras humanas: André Joaquim (guitarrista “a sério” com repa rockabilly e Telecaster com alavanca para “surfadas” de puro rock n’ roll; Pedro Rolão (contrabaixista feito, em olhares de canto para malabaristas “fatfredianos” pouco dados a “doutoradas”); e André Marques (baterista a precisar de uns parafusos a menos no instrumento, i. é, a precisar de uma bateria com menos timbalões). As restantes duas figuras (existem dúvidas sobre a sua verdadeira natureza humana… zombies?) foram desalmadas por uma bruxaria de ausência: a menina de saia, de style negro de anos 50, apareceu de vez em quando para tocar teclas retro como quem joga Spektrum nos dias de hoje (há algo mais kitch?); o rapaz da guitarra eléctrica azul-bebé (Fred Baltazar) auto-desalmou-se e eclipsou-se quase sempre, disfarçando a ausência numa mecânica de dedos para acordes standard. A bruxaria de sexta-feira 13 é impiedosa…

O doutor Frankenstein gosta de vincar o instrumental (ou melhor, o instru-Mental) e preparou a tese para cerca de uma hora de engates musicais, sem instruções, e com uma dificuldade acrescida: fazer uma banda-sonora para um filme… mas sem filme (daí a parte mental do instrumental). Assim sendo, os músicos tiveram de fazer uma banda-sonora para um filme imaginário, e o público teve de imaginar, através da música, o filme imaginário. Confuso? Levanta-se a questão: será o filme o mesmo? É uma incógnita… Mas, algumas cenas imaginadas podem ser iguais: aquela em que Travolta e Samuel Jackson (dupla Pulp Fiction), depois de uma “surfada” nas águas propriedade do “Monstro da Lagoa Negra” sofrem uma valente congestão mental (quase mortal) por terem comido o pudim do anúncio “O Boca Doce é bom é bom é”; e aquela em que o 007 e a Teresa Salgueiro, dos Madredeus, dançam uma versão de “Vem (Além de Toda a Solidão)” saída de uma jukebox propriedade de Nosferatu, o verdadeiro apresentador do Festival da Eurovisão. A esta hora, o doutor Frankenstein, o Dick Dale, o Ed Wood, e o Tarantino devem estar a fazer um brinde num sótão qualquer… e o Silva (que veio ao Subscuta pela primeira vez), a nova personagem da plateia, o grande cabeçudo, o parecido-com-o-Paulo-Portas-se-tivesse-o nariz-maior, o quase-gigantone, ainda deve estar de olhos revirados à espera de ver Dr. Frankenstein num palco grande.

Maio 2005