Concerto de Fat Freddy no Auditório da Biblioteca
A loucura de estar Subscuta
Às 22h15 o Auditório da Biblioteca estava cheio. Luzes apagadas. Ruído baixo de vozes. Beth Gibbons de fundo. Os instrumentos preparavam-se no palco: o contrabaixo, a bateria, e duas guitarras eléctricas. Havia ânsia no público na acomodação pelo assento. Poucos minutos antes, enquanto se vendiam bilhetes descontraidamente, fumavam-se cigarros à entrada e trocavam-se palavras redondas de expectativas. Ao frio. Talvez não soubessem que o bar da Biblioteca, situado na sala onde normalmente se realizam exposições, se encontrava em funcionamento desde as 21h. Eram as caras dos concertos barcelenses (quer no palco, quer fora dele) e dos cafés nocturnos que fecham cedo de mais. Eram as conversas dos apreciadores de música, daquela que se entranha energicamente na agressividade eléctrica de uma guitarra obedecendo, por vezes, à vontade de pertencer a algo mesmo antes de se aprender a tocar. Eram as gerações distantes que se aproximam e comunicam graças a um elemento comum: o rock – seja ele rockabilly, progressivo, punk, alternativo, metaleiro, pop, ou pós. Eram as expressões de ânimo que deixavam transparecer, com um leve sorriso, qualquer coisa parecida com: “finalmente há música para nós em Barcelos”. E, mais importante, “quase todas as sextas-feiras” (poder-se-á, pela banda-sonora, retirar o “quase”?).
Às 22h20 os três elementos dos Fat Freddy estavam no palco. Agitados. Nádegas nuas dançavam na tela ao ritmo do fanfarrono tema gravado de apresentação. A “nave espacial” preparava-se para levantar sob o comando de uma guitarra “speedada” de olhos esbugalhados. Mas, sem avisar, um amplificador de guitarra Orange teimoso (terá adquirido vontade própria?) deu o início em seco. O público reagiu. Os Fat Freddy também. Desafiaram logo alguém da plateia para improvisar um número de stand-up comedy para disfarçar a falsa partida. E atiraram um irónico lacónico: “Peço imensa desculpa pela falta de profissionalismo”. Resolvido o problema, o Auditório encheu-se de som forte. À primeira música o guitarrista já estava de joelhos a contorcer-se. À segunda o baterista já dava “baquetadas” nas cordas do contrabaixo. À terceira, o público da primeira fila já se sentia “ameaçado” pelos movimentos do contrabaixista. Não é fácil descrever o estilo. Rock? Disco? Funk? Electrónica? Kraftwerk? Rockabilly? Punk? Kusturica? Frank Zappa? Jazz? Tom & Jerry? Inspector Gadjet? “Ambulância Blues”? “Electrocabaret”? Uma coisa é certa: não há slows. Cada música tinha retalhos cinematográficos de fundo: ficção científica “pré-histórica”; filmes de terror Série B; filmes de filiação fantástica (Fantasporto!); monstros de plástico; robôs dos anos 80; Batman e Robin; aparições Kraftwerk, entre outros (porque, tendo em conta a aceleração constante, não era possível estar atento a tudo). Há ainda tempo para malabarismos com o contrabaixo (por cima e por baixo) e desafios ao público (“Vamos tocar a próxima”). São bons músicos. Demonstraram o que sabiam sem exagerados virtuosismos. O que é bom. E um excelente começo para o Subscuta. Um começo louco. O público aplaudiu fortemente.
Na próxima sexta-feira saltam para a cena os Bildmeister. Rock forte e repetitivo. Electricidade q.b. Chega a ser hipnótico pela agressividade e reporta o ouvinte para universos bem próximos do alternativo americano descendente de uns Sonic Youth. Assim auto-descrevem-se: “As melodias estão cada vez mais simples deixando lugar para mais volume, sons intensos e distorcidos, mapas sonoros onde as estradas são quase sempre a direito e feitas a grande velocidade. As paragens servem apenas para recomeçar….” Não há tempo a perder.
Março 2005