Quarteto de saxofones “Sax Unlimited” no Subscuta
Da vénia clássica à vénia popular
Há músicas que têm o “terrível” condão de por toda a gente a cantarolar a sua frase principal, e que se tornam por isso grandes “hinos orelhudos”. Por muito que nos cansemos de as ouvir por todo o lado, obedecemos religiosamente aos mecanismos reflexivos pavlovianos da entoação musical, e lá se solta um “lá, lá, lá”, ou um “ni, ni, na, na”, ou um “pa, na, na” (tudo varia pela expressão do sujeito), simplesmente porque a melodia se entranha mentalmente e não nos conseguimos livrar dela. Sentimo-nos muitas vezes estupidamente perseguidos. Invadidos na nossa privacidade. E, no caso da música pimba e de outras “foleiradas” que andam por aí, achámo-nos vítimas de um atentado enervante. É em anúncios de televisão. É em cânticos futebolísticos. É em altifalantes de fraca qualidade sonora (ainda por cima!) de festas de paróquia em ressaca por foguetes. É nas colunas balofas do vizinho. Simplesmente, é. Existe.
Algumas dessas músicas, que até nem são más de todo, passam a ser. Relegamo-las para balde dos “enjoos musicais” e esperamos que algum dia, pelo aperfeiçoamento da reciclagem revivalista, se lhes devolva o que lhes pertence: as suas raízes, os percursos dos seus autores, o contexto da sua criação artística e uma interpretação digna. Se fosse possível, exigiríamos a sua audição como se fosse a primeira vez, isolada, despojada de artifícios comerciais, e até, livre do estigma da catalogação popular (no caso daquelas músicas que toda a gente conhece, mas não que não se sabe de quem são, e nem nunca se vai saber... até um dia).
O concerto dos Sax Unlimited terminou exactamente com uma dessas – “The Entertainer” de Scott Joplin. Unicamente com o objectivo de soltar a melodia popular “com cabeça de Jano” (ao mesmo tempo “alegre-amiga” e “perseguidora-lapa”) em direcção à plateia silenciosa, para se impregnar nas vozes à saída do auditório da Biblioteca. Que digam que não os saxofonistas, autores da “experiência” tentadora dos reflexos de que se falava há pouco: João Monteiro (sax barítono); João Oliveira (aquele-que-deu-um-concerto-com-o-grupo-pela-primeira-vez-e-que-teve-de-pedir-emprestada-a-gravata-do-casamento-do-pai-para-não-destoar-muito); Marco Ribeiro (sax alto); e Rui Reis (the-entertainer-sax-alto). Aliás, a dinâmica da segunda parte já fazia antever o resultado. Os temas escolhidos vogavam no carrossel do jazz popular e “hollywoodesco” (“Smoke Gets In Your Eyes” de Jerome Kern), “medleys” de estilos sul-americanos (“Cha, cha, cha”, “Valse” e “Samba” de Lino Florenzo), e incursões/fusões de estilo grego (“Suite Hellenique” de Pedro Iturralde”), o que foi particularmente mais libertador nos solos dos instrumentistas.
A primeira parte foi dedicada a autores clássicos. Pela sequência (com intervalos de ponto e vírgula a marcar as vénias no palco – o inevitável cliché clássico e popular-do-tempo-dos-Beatles): “Bourré” de Johann Sebastian Bach; “Andante Cantabile” de Piotr Ilytch Tchaikovsky; “Scherzo” de Nikolai Rimsky-Korsakoff; “Danse Slave n.º 8” de Antonin Dvorák; e “Old Hungarian Dances” de Ferenc Karkas. Assim se desenrolou o programa do concerto. E a melodia alegre não sai a cabeça.
junho 2005