A maquinaria infernal
Talvez não fosse o auditório da Biblioteca Municipal o melhor local para a vertigem sonora dos Sikhara: demasiado quente, demasiado confortável, demasiado pequeno, demasiado auditório. Mas justificava-se. Na mesma noite (antes do concerto) foram exibidas sete curtas-metragens produzidas pela “Filmes da Mente” (algumas com títulos tão sugestivos como “A história do excremento, do preservativo e da minhoca”), e o “encontro” dos apreciadores de cinema alternativo (promovido pelo Cineclube da Associação Zoom) acabou por trazer consigo um projecto musical também “da mente”. Praticamente desconhecidos, os Sikhara nada devem à vulgaridade. Trata-se de um projecto rotativo liderado pelo norte-americano Scott Nydegger, actualmente secundado por Gustavo Costa e Yann Geoffriaud, que assinala já mais de 200 concertos nos E.U.A., na Europa e no Japão. A invulgaridade reflecte-se igualmente nos locais insólitos onde têm actuado: em frente a uma esquadra da polícia em Istambul (Turquia); numa mina de carvão (Polónia); numa estação de metro abandonada em Linz (Áustria); ou num templo Zenjouki com mais de 1400 anos em Kobe (Japão). A ligação à “Filmes da Mente”, ao Porto, e o facto de um dos elementos ser português (Gustavo Costa), trouxe-os a Barcelos para uma dose de noise electro-acústico desmesurado.
Como escreveu William Blake, “o caminho do excesso leva ao palácio da Sabedoria”. Muitos o seguiram no excesso. E muitos também o seguiram na sabedoria. De certo, sabe-se apenas que o excesso (a demasia) converte-se numa hipnose capaz de catapultar (de repente) o indivíduo para um transe que acaba por o deixar absorto. “Demasia” parece ser a palavra certa para, de uma só vez, descrever o apetite voraz por ruídos infernais e por batimentos cardíacos mentalmente destrutivos. Até porque, a “viagem” dos Sikhara, que se desenrola maquinalmente pelo mundo através de cânticos e timbalões, acaba por ser uma constante agressão de pesadelo numa queda horizontal que nunca mais acaba. Mas que, ao mesmo tempo, prende, enfeitiça e abre a mente (mesmo à força).
O transe é provocado pela maquinaria em permanente actividade vulcânica (sampler, drum machine, faixas pré-gravadas), em fusão com samples de cânticos tribais e folclóricos (recurso a recolhas de Giacometti) e com ruídos pouco concretos. A isto acrescente-se duas figuras (espécie de tramboleiros estranhos do caos industrial) a “agredirem” timbalões com ritmos saídos de uma máquina tribal. O líder do projecto, o norte-americano Scott Nydegger, revira os olhos como um danado asfixiado, na ânsia de um ataque epiléptico ou de uma libertação de raiva. A figura prende o olhar, como um louco. Talvez tenha sido uma das coisas mais estranhas que passou pelo auditório da Biblioteca Municipal. O que é bom sinal.
junho 2005