um blogfolio de coisas sonoras

22.6.05

Exposição de pintura na Galeria AB
A vida, segundo Jerónimo

Encontram-se expostas na Galaria AB, na Rua Direita, até ao próximo sábado, 27 de Julho, pinturas de Jerónimo Fernandes da Silva. Artista barcelense que assina simplesmente Jerónimo. Os quadros expostos, poderão ser vistos quase como se de uma pequena retrospectiva do autor se tratasse.

Ali estão obras que representam um percurso de 50 anos de pintura (o quadro mais antigo é de 1954, tinha então Jerónimo apenas nove anos de idade) e que abarcam as várias fases criativas (formas de interpretar o mundo exterior) do autor. Surpreendentes, porque pouco conhecidas, são três obras em que Jerónimo recorre à técnica da colagem. Obviamente que também não faltam as representações, interpretações e recriações dos cristos – os quais têm na obra de Jerónimo um lugar e um peso comparável ao que tiveram na de Rosa Ramalho. “Eu pinto estes cristos, porque tenho a verdade na alma e não escondo aquilo que sou e aquilo que sinto”.

“Um sonhador da arte e da poesia”. A obra de Jerónimo revela-se existencialista e elevada à condição humana. Quer nas suas pinturas, quer nos seus poemas, deambulam fantasmas de carne e osso, intensifica-se o drama religioso do Homem perseguido pelo olhar profundo de Cristo, crucifica-se o amor e a sedução pela vida marginal e pelo sonho angustiado, assume-se o isolamento e a relutância em pertencer a qualquer voga – “Eu pinto o que sinto”. O artista recolhe-se no seu íntimo, nas suas recordações de infância e constrói o seu próprio mundo. Um mundo de cores estranhas, visões, entidades abstractas, corpos caóticos e devaneios esquisitos. Um mundo para um qual não existe mais nenhum. Um mundo que se edifica numa espécie de solipsismo artístico e, talvez filosófico. A partir dele constrói tudo o resto e propõe uma visão analítica de tudo que o rodeia. A amargura do Ser em debates existenciais representados num vermelho sanguíneo, cor forte e apaixonada. O encantamento pela figura triste de Cristo que distorce e atira para diferentes impressões e expressões (uma figura ambígua entre o sofrimento e o perdão). Crucificações que obsessivamente transformam o amor em ódio e o ódio em amor. O julgamento dos comportamentos e pensamentos do Zé-Ninguém por ele mesmo. A revolta contra a própria Arte, ou melhor, contra aquilo que pretende ser Arte. O desprezo pela falta de sinceridade e autenticidade de personagens falsas.

Um retrato de uma mulher passa despercebido. Nem o próprio modelo compreendeu que um artista faz a sua própria representação e se perde em sentimentos abstractos e cores nada apolíneas. Daí também, a aparente ausência das mulheres que pinta nesta exposição.

Jerónimo foi o primeiro pintor português a expor em Brasília, foi bolseiro da Fundação Callouste Gulbenkian e aluno extraordinário da Escola de Belas-Artes do Porto. Além de uma vasta obra dedicada à pintura, é uma vida apaixonada pela Arte e pelo mundo. Na Galeria pode ser apreciada uma pequena partícula dessa sólida construção.

A exposição pode ser visitada todos os dias entre as 16h e as 20h, com o horário suplementar, sexta-feira e sábado, entre as 22h e as 00h.

setembro 2005