Maestro António Vitorino de Almeida no Subscuta
“O Diabo na Música”
Entrou no palco do Fórum S. Bento Menni de sorriso aberto para uma plateia bem vazia e agradeceu aos presentes por “terem saído de casa com um calor destes”. A figura é mais do que conhecida e dispensa apresentações. Inconfundível. Quando refere ironicamente que “a luz arrefece o piano” talvez se compreenda, em parte, porque passou cerca de metade (ou mais do que isso), do recital da passada sexta à noite, em “conversa” com a plateia. Os restantes apelos de justificação residem naquilo que é mais óbvio e que foge ao iluminado sentido de humor do maestro: no seu elevado e especioso grau de comunicação que lhe permite simplificar teias de pensamento de uma intelectualidade pesada para muitos; e na concepção que possui sobre o que é a música clássica (e não só clássica) e da forma como ela se deve apresentar, nua e despojada de tiques bolorentos de superioridade.
Durante cerca de uma hora e meia, “divagou conscientemente” ao piano em metáforas sonoras, demonstrando porque é que “as tentativas de explicar o que é a Música” se perdem, na maior parte das vezes, em palavras e abstraccionismos fúteis. Através de uma sonata de Beethoven adaptou a palavra ao som e o som à palavra. Simulou “a pergunta”, “a resposta”, “a discussão”. Lembrou que a música é também uma linguagem especializada na comunicação de emoções. E, principalmente, salientou que “a música não foi feita para cantar e muito menos para dançar”. “A música foi feita para se ouvir”.
O “Diabo na Música” apareceu entretanto. Quando se soltou o acorde maléfico composto pelas notas fá e si. Ao fazê-lo, e ao explicar a sua proibição no contexto de trevas da Idade Média, transformou o belzebu numa verdadeira caricatura modelar dos “artistas do barro” barcelenses: baixinho, batatudo, barbudo, de “tridente na cabeça”… enfim, um castiço desenho animado mitológico.
De seguida, com mais uma composição de Beethoven, exemplificou a diferença entre “compositores que sabem nadar e outros que nem por isso”. A travessura serviu para troçar de “artistas de sol e dó”, aqueles que dizem que “demoram meses a compor um tema que é sempre a mesma coisa”. Os risos vieram por uma caracterização muito (diabolicamente) peculiar: “pornofonia”!
Porque já estava na praia, e porque lhe apeteceu perder-se ainda mais nela, atirou-se aos cromatismos do século XIX e a compositores como Schubert, Wagner, e Schoenberg (“aqueles que não regressam à praia”). Quando se deu por ele, já estava imbuído na estética atonal do século XX e em novas divagações sobre o “Diabo na Música” (agora, “os PIDEs e os GESTAPOs da música” avessos à tonalidade).
Depois, a “aula” centrou-se em Chopin, um “compositor virulento”, “nada piegas” e que “odiava dança”. Exemplificou o compasso ternário como o bater do coração e visualizou a valsa como uma “dança subversiva” proibida no início do século XIX (mais uma vez, “O Diabo na Música”!) - “nunca as pessoas haviam dançado agarradas em público”.
Já na parte final vieram as recordações de Viena, da cidade onde viveu 23 anos seguidos: a estória do músico que ficou sem um braço e que passou a tocar realejo (“era só dar à manivela”); a estória trágica do assobio do “Peixe Assado”; as grandes borracheiras de músicos de bares de altas horas; a tristeza e infelicidade dos vienenses de “dentes podres”; a figura da Madame Semerda (!) “que tinha uma fábrica de chocolates”. Traduziu tudo em música e terminou com uma composição sua: uma Paráfrase sobre Viena.
Apesar de tudo (das estórias, dos muitos apontamentos humorísticos; das exemplificações musicais; dos pormenores sobre alguns compositores e de até alguns malabarismos mímicos) soube a pouco. Sabe sempre a pouco.
Junho 2005