um blogfolio de coisas sonoras

8.6.05

Maestro António Vitorino de Almeida no Subscuta
“O Diabo na Música”

Entrou no palco do Fórum S. Bento Menni de sorriso aberto para uma plateia bem vazia e agradeceu aos presentes por “terem saído de casa com um calor destes”. A figura é mais do que conhecida e dispensa apresentações. Inconfundível. Quando refere ironicamente que “a luz arrefece o piano” talvez se compreenda, em parte, porque passou cerca de metade (ou mais do que isso), do recital da passada sexta à noite, em “conversa” com a plateia. Os restantes apelos de justificação residem naquilo que é mais óbvio e que foge ao iluminado sentido de humor do maestro: no seu elevado e especioso grau de comunicação que lhe permite simplificar teias de pensamento de uma intelectualidade pesada para muitos; e na concepção que possui sobre o que é a música clássica (e não só clássica) e da forma como ela se deve apresentar, nua e despojada de tiques bolorentos de superioridade.

Durante cerca de uma hora e meia, “divagou conscientemente” ao piano em metáforas sonoras, demonstrando porque é que “as tentativas de explicar o que é a Música” se perdem, na maior parte das vezes, em palavras e abstraccionismos fúteis. Através de uma sonata de Beethoven adaptou a palavra ao som e o som à palavra. Simulou “a pergunta”, “a resposta”, “a discussão”. Lembrou que a música é também uma linguagem especializada na comunicação de emoções. E, principalmente, salientou que “a música não foi feita para cantar e muito menos para dançar”. “A música foi feita para se ouvir”.

O “Diabo na Música” apareceu entretanto. Quando se soltou o acorde maléfico composto pelas notas fá e si. Ao fazê-lo, e ao explicar a sua proibição no contexto de trevas da Idade Média, transformou o belzebu numa verdadeira caricatura modelar dos “artistas do barro” barcelenses: baixinho, batatudo, barbudo, de “tridente na cabeça”… enfim, um castiço desenho animado mitológico.

De seguida, com mais uma composição de Beethoven, exemplificou a diferença entre “compositores que sabem nadar e outros que nem por isso”. A travessura serviu para troçar de “artistas de sol e dó”, aqueles que dizem que “demoram meses a compor um tema que é sempre a mesma coisa”. Os risos vieram por uma caracterização muito (diabolicamente) peculiar: “pornofonia”!

Porque já estava na praia, e porque lhe apeteceu perder-se ainda mais nela, atirou-se aos cromatismos do século XIX e a compositores como Schubert, Wagner, e Schoenberg (“aqueles que não regressam à praia”). Quando se deu por ele, já estava imbuído na estética atonal do século XX e em novas divagações sobre o “Diabo na Música” (agora, “os PIDEs e os GESTAPOs da música” avessos à tonalidade).

Depois, a “aula” centrou-se em Chopin, um “compositor virulento”, “nada piegas” e que “odiava dança”. Exemplificou o compasso ternário como o bater do coração e visualizou a valsa como uma “dança subversiva” proibida no início do século XIX (mais uma vez, “O Diabo na Música”!) - “nunca as pessoas haviam dançado agarradas em público”.

Já na parte final vieram as recordações de Viena, da cidade onde viveu 23 anos seguidos: a estória do músico que ficou sem um braço e que passou a tocar realejo (“era só dar à manivela”); a estória trágica do assobio do “Peixe Assado”; as grandes borracheiras de músicos de bares de altas horas; a tristeza e infelicidade dos vienenses de “dentes podres”; a figura da Madame Semerda (!) “que tinha uma fábrica de chocolates”. Traduziu tudo em música e terminou com uma composição sua: uma Paráfrase sobre Viena.

Apesar de tudo (das estórias, dos muitos apontamentos humorísticos; das exemplificações musicais; dos pormenores sobre alguns compositores e de até alguns malabarismos mímicos) soube a pouco. Sabe sempre a pouco.

Junho 2005