um blogfolio de coisas sonoras

7.6.05

Concerto de Dead Combo no Auditório da Biblioteca
Encontro de anónimos

Primeiro chegou o Gangster. Depois o Gato-pingado. Dois personagens emergentes de uma BD do “fadoeste”, acordados, de repente, numa cidade esquecida e fora do tempo. Um de aspecto mafioso, fatinho às riscas a condizer, e óculos escuros; outro, circunspecto, de sapatinho branco, calça justa vermelha e uma cartola vadia a esconder os olhos. Estavam feitos. Ambos tinham sido incumbidos de accionar a máquina de desintoxicação de música feia e fraca dos ouvidos de todos os presentes no encontro de anónimos. O primeiro muniu-se de quatro instrumentos fundamentais: o contrabaixo, a melódica, a guitarra “eléctrica cadente”, e o kazoo. O “cartolas”, conhecido por envenenar o demónio “cámuitapinta”, muniu-se de quatro guitarras “eléctricas cadentes” bem reverberadas. Abriram a mala, retiraram um embrulho, e despejaram logo pelas goelas a baixo um forte trago de “Rumbero”. Efeito imediato. Neles e nos outros. O Zé foi o primeiro a intervir. Depois o Asdrúbal. Embora talvez nenhum deles se chame, nem Zé, nem Asdrúbal, estavam decididos a chicotear as palavras e a atiçar o fogo artístico dos protagonistas da noite: “onde é que isso está à venda?”. Com a simples pergunta quebraram-se todas as regras do encontro de anónimos e decidiram partir para o universo Dead Combo, para mais um trago daqueles. (A descrição que se segue pode provocar a mais severa alteração na interpretação dos leitores.) Em poucos minutos chegaram à Rua das Chagas – a rua que “dantes dava para estacionar o carro, e agora já não dá” – e perto da esquina da famosa encruzilhada abriram-se as portas de Dead Combo. O Zé entrou pela Janela (Mediterrânica) e deu logo de caras com a alucinante Eléctrica Cadente: “ou és tu que estás atrás de mim, ou eu atrás de ti”. Ofuscado pelas luzes vermelhas soturnas, acalmou-se. Quebraram-se as tendências, despejou-se a electricidade, e sob suspeita, uma voz feminina interveio para desfazer o duelo. Uma voz saiu do palco: “A menina dança?”. Claro. Atraídos pelo aroma dançante aproximam-se os outros: Mr. Eastwood, o Pacheco (de melódica debaixo do braço) e o espírito de Carlos Paredes. E saiu mais uma Rodada (de saias). Em homenagem a Paredes, o Gato-pingado ajoelha-se a contorcer-se com a guitarra e murmura: “espero que vocês gostem e que Ele me perdoe”. O demónio observava-o. No final da imolação, Paredes apareceu mesmo e sentou-se na mesa do solitário Ribot, precisamente no lugar da Ana que foi para Angola. Entretanto, o Zé perde a luta. Morre de amores de Verão recordando Mujitos Summer e quando dá por ela é atirado porta fora com um soco dos grandes: “Esta é mesmo para ti, ó Zé!”. O Gato-pingado não estava para brincadeiras. (Nunca mais se ouviu falar do Zé a não ser para o próprio confessar que tocava gaita-de-foles). Entretanto, pela janela entra um outro conhecido: Tom Waits. Senta-se na mesa de Ribot e Paredes e pede uma rumba de si próprio: “Temptation” com maraca a bater nas cordas da guitarra e kazoo. Paredes, por sua vez, pede mais um prato de miolos de Morricone com fado para um Tejo Walking e Ribot repete a dose: “mais uma rodada de Rumbero”. Em brinde. O universo vermelho Dead Combo acabava de fechar.

Os Dead Combo são apenas dois: Pedro V. Gonçalves (o Gangster) e Tó Trips (o Gato-pingado). E chegam. Estiveram na passada sexta-feira à noite, de Subscuta, a tocar para um público entusiasmado e apreciador. Ficaram as fotografias de momentos faustosos: Temptation (versão de Tom Waits); Mujitos Summer, Ribot, e Paredes Ambient. Ficaram as poses de verdadeira dimensão artística. Ficaram as palmas reveladoras. Os Dead Combo não estão à espera que o resto acorde. Estão muito à frente.

Março 2005