um blogfolio de coisas sonoras

19.6.05

The Legendary Tiger Man no Subscuta
O blues com estilo do Homem-Tigre

O gajo tem estilo. Entra no palco nos passos largos dos tacões do seu par de sapatos brancos, despe o casaco do seu fato negro às riscas de imaginário cinematográfico de gangster mafioso, e dirige um “boa-noite” à sala repleta. O tripé do instrumento que toca com os pés (usualmente conhecido por bateria) serve de repouso artístico para a indumentária despida e as palmas de cerca de 150 pessoas, provavelmente a melhor assistência de sempre do Subscuta (é importante que se o diga), serve de cabide de reconhecimento para o alter-ego mais solitário de Paulo Furtado, o singular The Legendary Tiger Man. O gajo é todo estilo. Esconde os olhos por detrás de uns óculos escuros numa visão contemporânea e revivalista dos anos 80, e afugenta os espíritos da douta decadência das margens do Mississipi com uma gravata negra às riscas brancas. Aprisiona a sua clássica Gibson Les Paul na tradição/maldição blues, prepara o sapato branco esquerdo para o prato de choque (munido de tamborim e corrente metálica), o sapato branco direito para o bombo de pé, e senta-se num “banco eléctrico” para uma execução lenta.

O som convence logo à partida. Os graves da guitarra são acentuados, o bombo manifesta-se centro de atenções, e as manietações blues preenchem os requisitos mínimos da tradição negra americana pronta a enviar via “slide”, em carta registada e com aviso de recepção, todos (ou quase todos) os clichés a uma plateia que abana a cabeça e bate o pé ao ritmo do “bomboman” rebelde. Os temas de “Naked Blues” e “Fuck Christmas, I Got The Blues”, respectivamente primeiro e segundo registo discográfico do Homem-Tigre, já são conhecidos por estas bandas. À segunda música, o verso “I’m gonna make you mine”, ainda que baixinho, ecoa no reflexo de vozes e o kazoo já faz estragos na timidez dos sorrisos de agrado e nos comentários ao ouvido.

O público desafia-o com palavras em faísca azul e atira uns berros formato feedback vocal – “I’ve Got The Blues, Baby!” – como quem se atreve a pôr à prova a loucura nómada de “um gajo que anda pelo mundo fora a tocar bombo e guitarra ao mesmo tempo”. E a resposta ao subconsciente e à transformação “telepática” das palavras em som veio em tímidos esvaimentos sobre “música primitiva para um público primitivo” (e isto é um elogio), a introduções sobre “o porquê de não existirem barcos, nem no Cávado, nem no Mondego, nas respectivas margens de Barcelos e Coimbra (ressalve-se as associações desportivas do calhambeque)” e em “elogios perpétuos a mestres de blues recém falecidos” com versões próximas. O gajo tem estilo.

Mais estilo tem ao convencer o público a pôr-se de pé e a saltar para a frente do palco para um encore preparado pela notícia de que comemorava da melhor forma o dia do seu aniversário. E ainda mais estilo tem ao evidenciar uma coerência de percurso: na americana folia rockabilly dos desaparecidos Tédio Boys, na rocalhada soul de ascendência óbvia dos Wray Gunn, e no blues enraizado na pureza negra mágica deste Tiger Man.

Não se irritem com a palavra “estilo” a surgir ao ritmo repetido do bombo (quase em formato disco sound), nem com as palavras ambíguas como quem disfarça a voz pouco “negra” com distorção, nem mesmo com os clichés jornalísticos que se subjectivam como quem se inventa numa estrutura de blues que não (a)varia. A verdade é que, com estilo (mais uma vez!), com a casa lotada e com inúmeros aplausos o Tiger Man deixa o Subscuta no ponto de caramelo.

setembro 2005