um blogfolio de coisas sonoras

7.6.05

Concerto de Bildmeister no Subscuta
Guitarras ao alto e fé em Deus

11 de Março de 2005. Dia eleito, em "espírito de pomba branca", feriado "funeralesco" por um atentado terrorista na vizinha Espanha. Pedem-se minutos de silêncio. O horror à violência e o "medo pelo medo" querem-se transportados da imagem televisiva repetida para o dia do indivíduo, quer isolado, envolvido nos seus pesadelos, quer social, numa cadeia de medos em quedas de dominó. O livro do filósofo José Gil, "Portugal hoje: o medo de existir", alcança um número de vendas surpreendente e promove a questão: o livro (entenda-se qualquer um) "inscreve-se" realmente, de uma forma ainda invisível, na mentalidade da sociedade portuguesa, ou a sua inscrição opera apenas a nível das bonitas prateleiras e das estatísticas? Mas isso é outro assunto… Na passada sexta-feira, preparava-se um atentado neste "país de medos". Numa cidade nortenha, conhecida pela "terra do barro" (porque o galo já é de todos), por volta das 22h, ultimavam-se os sigilosos preparativos para uma grande explosão capaz de dizimar cerca de 70 pessoas (poucos mas bons) em apenas cerca de uma hora. E nada parecia estar a ser feito para prevenir tamanha "desgraça". Os quatro "terroristas" escolhidos para a operação Bildmeister entraram silenciosamente no palco do Auditório da Biblioteca Municipal sem que ninguém os impedisse. Com a maior das calmas, devidamente disfarçados de pessoas normais e inocentes, actuaram como se nada fosse, descontraidamente. Agarraram na ponta dos cabos na semi-escuridão e… BUM! Guitarras ao alto e fé em Deus (seja Ele quem ou o que for) … Hugo Ramos e Nuno Santos, os "terroristas" mais temíveis, pouco dados a melodias (excepto quando cantam), disparam feixes de energia eléctrica através de guitarras destrutivas em curiosos devaneios sónicos (com feedback à mistura) e em fortes jogos cruzados de solos e riffs estranhos (com wha-wha, por vezes, a perfurar os tímpanos). Puro rock. Sem slows, e a repetir-se indefinidamente até acabar o ingrediente explosivo. No entanto… há ali uma qualquer lacuna entre a canção de garagem e as interessantes incursões no rock experimental, quase psicadélico. As vozes implodem. Possuem aquele “nhe nhe nhe” lamechas típico de alguma malta indie que não se cansa de espremer borbulhas pop. O que não deixa de ser um bom disfarce. Para quem gosta, claro. Gil Ramos e João Vitorino não perdem tempo e reforçam a intensidade da explosão. Firmes nos poucos ritmos que simplificam, e nas lineares figuras geométricas que engendram, correm sempre na mesma direcção: para a frente. Nem que seja a fugir do próprio feedback (“O feedback anda atrás de ti!” – gritou alguém do público).

Permitam-me a metáfora. Lembram-se do "artista" apanhado no Gente Gira, que depois de unir os fios e de ver o prédio a ruir, os desune numa tentativa oca de remediar o erro cometido? Ora, os Bildmeister desunem os fios e constroem o prédio novamente. Ameaçam a demolição, mas realmente nunca o fazem. Viajam pela música em loop. Quando acaba a dose forte de distorção volta tudo ao início para mais uma viagem. Não quebram limites, mas quase. Falta-lhes ainda o ingrediente de passagem para o "outro lado". E denunciam-se interessantes pela seguinte fórmula: quanto mais experimentalistas, ruidosos, repetitivos, psicadélicos e monocórdicos, mais próximos dos mestres. Com certeza, não terão dificuldade em desfazerem-se do intenso nevoeiro londrino nas suas próximas investidas explosivas.


Março 2005