um blogfolio de coisas sonoras

7.6.05

O primeiro concerto de Biarooz
O movimento das coisas

Há no ruído da esplanada uma mistura de resquícios electrónicos de um sample partido em sonoros fragmentos cósmicos. Há na Rua Direita de montras de ambos os lados uma tela que esconde uma delas, perdendo os manequins a postura de estilo do peito para cima (uma visão propositada que se embrenha na indiferença). Há uma janela que se abre e abre os olhos para um movimento diferente na noite da esplanada. Há um “woooow” (tradução: um daqueles gritos típicos nos concertos de salas pequenas) que anuncia a chegada dos músicos, descontraídos, na pose comum de alguém que passa e espreita: “Somos nós?!”. Há um palco que atravessa a nocturna Rua Direita numa sexta-feira de movimento anormal (Feira de Artesanato? Rui Veloso?) que provoca o esquisito, desfeito pelo símbolo veraneante do evento Olá Barcelos (mais um). Há uma “invasão” de palco para a sóbria afinação e montagem de instrumentos e mais uma cerveja que se pede ao empregado antes que ela se perca na desorientação do avolumar de pessoas. Tudo pronto e começa o filme… (ou já teria começado?). A música de Biarooz parece fazer parte de toda essa agitação calma, como uma banda-sonora. O filme é urbano. O filme é Biarooziano. Constroem a banda-sonora perfeita para aquele momento – a expectativa parada na proximidade de pessoas sentadas. E ao mesmo tempo, transportam o movimento das pessoas que circulam ao lado para um écran imaginário de uma curta a preto-e-branco, em loop. E fazem-no com simplicidade. Numa mistura de electrónica (em apontamentos Múm ou Isan) e rock (pelas guitarras com distorção 80’s) perfeitamente enquadrável no amplo conceito de pós-rock. É isso mesmo: pós-rock.

As músicas têm uma particularidade interessante: parecem não ter fim. Parecem ser infinitas numa determinada frequência onde apenas se consegue entrar durante alguns minutos. De repente, sem saber muito bem como, regressa-se à frequência normal e deixa-se de a ouvir: a música termina. Continua infinita na imaginação espacial? Ou perde-se por falta de invenção?

As imagens projectadas ajudam a compreender a mecânica fantasiosa da música. Movimentos de aço descrevem o estilo cinema/banda-sonora: faíscas ruidosas de soldaduras artificiais; conta-gotas sonoros numa pandeireta Velvet; “melosidade” repetitiva em arabescos de “sininhos” e vibrafone; minimalismos de guitarras imbuídas numa massa cinzenta concentrada; duplicidade/cumplicidade de sons reverberados (demasiado) “lá atrás”; contratempos esquisitos com a simplicidade rítmica de uns Mogwai (só a bateria, mesmo); planícies sonoras rectilíneas cheias de luz; por vezes, um “feeling” J.J. Cale numa aceleração estranha quase punk; quebras imprevisíveis (também de um computador “teimoso”); alguns sons cósmicos e batidas cirúrgicas; e uma versão (repetida no “encore”) de “Gunnera” dos Isan, com uma guitarra “à frente” a lembrar melodias The Cure.

C. Ricardino, guitarrista dos Ribanceira, lidera o processo. Compôs as músicas e, do encontro com os restantes músicos, na adaptação do artificial ao acústico, nasceu o conceito corpóreo de Biarooz: José Novo (bateria); João Coutada (baixo); João Dias (guitarra) e C. Ricardino (guitarra). As músicas ainda têm títulos provisórios, ou talvez não: Xalita, tu alcançarás!; Lucas; Fuga; ou ??Scraage??. Quase no final do concerto, o acaso presenteou um número circense de Agosto. Dava para um novo título: “O cromo alucinado que fez malabarismos à frente do palco (à Bruce Lee) e grunhiu para lá umas coisas divertidas”. Surrealista? Quem viu sabe o que foi… Indescritível.

Eis os Biarooz. A prova de que em Barcelos continuam a nascer “coisas”… (A melhor designação: “coisas”. Pela estranheza e pela amplitude artística, antagónica ao funcionamento provinciano da cultura citadina. Por isso, as pessoas olham para elas como “coisas”. E, consequentemente, os músicos olham para essas mesmas pessoas também como “coisas”, embora num sentido bem diferente). E muito ainda há para dizer. Afinal, foi apenas o primeiro concerto… em movimento.

2005