um blogfolio de coisas sonoras

7.6.05

Concerto de Old Jerusalem no Subscuta
“Uma espécie de experiência”

As palavras são precisas. Tão precisas quanto os sons, a matéria acústica de que são feitos, e aquilo que faz do Homem uma criatura que cria: a ideia. As palavras de Francisco Silva (Old Jerusalem) fazem as frases soltas que ficam: “uma espécie de experiência”; “nunca tocámos juntos”; “um processo de recriação das músicas”; “pode ser uma porcaria”. Juntas (as frases) anunciam a ideia: fazer uma espécie de concerto-ensaio-improviso-de-canções. Ou seja, ao corpo acústico das canções de Old Jerusalem, à simplicidade da guitarra e da voz de Francisco Silva, é adicionado o condimento arriscado de uma outra plataforma acústica sob o comando de Ricardo, percussionista dos Mandrágora: um batuque, um timbalão, um bombo popular colorido a servir de bombo de pé; um prato; e um instrumento com uma sonoridade deliciosa, que tão bem fica em “Earlier The Lake Today”, e que provoca, sem se perceber muito bem porquê, alguns sururus e sorrisos-chop-soy na plateia.

Perigosamente, as palavras ribombam para uma interrogação insistente: “nunca tocaram juntos?”; “recriação de músicas (já tão bem criadas)?”; “pode ser uma porcaria?”. A desconfiança adquire o lugar da aceitação livre do improviso. Principalmente, pela música tão intimista, de quarto, por vezes suave demais para um batimento cardíaco, e repleta de subtilezas inimigas da sintonia improvisada. A memória vem como um consolo, fosse qual fosse o resultado da “espécie de experiência”: os mestres Carlos Paredes e Charlie Haden juntaram-se para o improviso, gravaram um disco, e raramente se “encontraram”. Todavia, a música nunca deixou de o ser, as ideias não se desfizeram e os músicos nada perderam. O encontro valeu mais do que tudo. E, de “portas abertas”, a ideia flúi…

O concerto desliza em toques de geleia country-americana e respira quase em exclusivo o último trabalho (de “nome pomposo” e “muito arty”) “Twice The Humbling Sun”, sucessor do primeiro “April” (primeiro num duplo sentido: como marco na estreia do projecto Old Jerusalem; e como álbum eleito por muitos, e pela imprensa nacional especializada, o melhor do ano). Aliás, já não há espaço para “April” e para músicas como “Wither”, “Stroll”, “Beauty is a Tear”, ou “Is This April?”. Desapareceram do rol. Mas deixaram um rasto misterioso em “Twice…”, pairando no ar a dúvida se foram abandonadas e consumidas pelo tempo, ou se foram incorporadas subtilmente no agora. Ou então, se foram alvo da decisão madura aludida no verso de “One, I Should Know You”, a segunda música do concerto e a sexta do disco: “find the wisdom to say “fuck it” or “keep it”. “Twice…” dá a resposta. Basta ouvir “180 Days” (tão próxima da sonoridade rítmica de “Stroll”) ou a bela frágil “Earlier The Lake Today” (tão próxima da ambiência melancólica de “Call”).

Em palco, a densidade sonora do disco não se repete. Os pequenos apontamentos de outros instrumentos e as ambiências atmosféricas sintetizadas transferem-se, numa “espécie de experiência”, para a ideia que temos delas. Todos os cuidados ficam entregues à magnifica voz de Francisco Silva. Além disso, há mais espaço para as palavras, para o bater do pé, para desencontros nos finais das canções, para a exposição da obra alheia, para um “dasss” irritado, e, em suma, para o conceito de concerto intimista. Afinal, as palavras não são assim tão precisas… em palco há algo que não se explica.

Maio 2005