Concerto de Alla Polacca no Subscuta
As vozes assim o dizem
É um pós-rock com estranhos laivos pop. As vozes assim o dizem: quer as duas que cantam em coros de tons estranhos agudos; quer as vozes baixas da plateia (desejosas de catalogar sempre tudo o que mexe) que sentenciam entre um pop-alternativo ou um alternativo-pop. Mas isso já o sabíamos… Pelo menos desde a edição, em parceria com os Stoways, de “We have made thousands of people happy: why not you?”: um pós rock desejoso de vozes agudas e melodiosas; ambientes resgatados da voga Islândia pós-Bjork; um experimentalismo-pop que se deixa contaminar por resquícios de tiques progressivos (pouco precisos) e por ambientes sintéticos à Eno e Sakamoto (bem melhor); um rock a empurrar para Radiohead de Amnesiac. Ao vivo, os Alla Polacca transmitem a ideia de que nada disso é importante. À medida que vão tocando vincam três ideias muito caras (que os distinguem da maior parte de bandas que andam por aí): uma ideia de liberdade reconhecível no respirar das composições (independentemente de umas serem mais interessantes do que outras) e na execução das mesmas; outra, intimamente relacionada com aquela, de força e competência na secção rítmica (baixo e bateria) que ao libertar-se a ela mesma deixa espaço suficiente para a progressão das guitarras e das teclas; e uma ideia de persistência (no trabalho) evidenciada nos “arranques” e paragens imprevisíveis e na contenção das vozes para o ideal equilíbrio com o instrumental. São estes os ingredientes perfeitos. Os Alla Polacca têm-nos. Com eles deram um dos melhores concertos do Subscuta. As vozes assim o dizem.
Os Alla possuem também aquele impulso da experimentação despreocupada. Quando alguém apareceu, no próprio dia, com uma colecção de imagens caseiras de finais de 70 e inícios de 80 não hesitaram em projectá-la durante o concerto. Mesmo quando a curta duração do filme ocasionou uma quebra com o insuportável fundo azul e dizeres de dvd e a repetição das imagens de infâncias comuns: festas de anos domésticas, um bebé a tomar banho (provavelmente, uma ideia de imagem que toda a gente deve ter por casa em fotografias), namoricos à porta de casa, aventuras na praia, etc. Alguém se manifestou: “Mudem as imagens!” Ao que responderam: “não temos outras”. Ao que apetece mesmo dizer (deste lado e agora em private joke): “Asdrúbal, por favor, volta! Temos saudades tuas…”. A verdade é que o público do Subscuta não parecia o mesmo. A habitual “encenação” na “troca de galhardetes” simpáticos entre o público e os músicos resumiu-se a um enjoado “mudem as imagens”; a classe no respeito pelo silêncio pela música desvaneceu-se por momentos (principalmente nas partes mais calmas); e a adesão foi menor do que o habitual. E como explicar esta pouca adesão? Várias hipóteses: 1. os Alla são desconhecidos para a maior parte do público barcelense (a verdade é que estiveram parados cerca de um ano e ausência “paga-se” com esquecimento); 2. ainda há quem não saiba onde fica o Auditório da Biblioteca; 3. o público (cada vez mais) gosta de tropeçar nas coisas e não de as procurar (e quando tropeça prefere que lhe faça um desenho). Podem parecer todas hipóteses ridículas, mas a última tem muito que se lhe diga…
Maio de 2005