um blogfolio de coisas sonoras

7.6.05

Concerto de Dazkarieh no Auditório da Biblioteca Municipal
Bálsamo de instrumentos esquisitos

Há imagens difíceis de apagar da última sexta-feira de Subscuta. Uma delas: o desfilar sonoro de um ou outro instrumento esquisito por músicos multi-instrumentistas. Outra: o deambular de corpos à frente do palco, em ritmo de dança, como sombras à frente de uma tela de cinema. Ainda outra – uma imagem imaginada: noites de Verão algures numa terra de Portugal profundo, num festival de gentes (fora do circuito artificial de Festivais de Verão), moda hippie ao rubro, tendas por todo o lado… E o que é que isto de “imagens” quer dizer? A primeira quer dizer que os quatro elementos dos Dazkarieh são bons músicos. Com uma margem de progressão considerável, é certo (ainda são novos e o estilo musical é exigente), mas com habilidade e gosto para os toques tradicionais da música do mundo em trânsito pela folk irlandesa, música celta, folk nórdica, música de leste, do mediterrâneo e, principalmente, tradicional portuguesa. Muitos estilos fundem-se. Além disso, não será à toa dizer, por exemplo, que há traços rock na forma de tocar bouzouki irlandês. Aliás, é como ouvir composições medievais de Kapsberger e descobrir como é que se herda arranjos com centenas de anos em guitarras eléctricas (à) Led Zeppelin. Há quem estude isso… Seja como for, seria quase uma não-descrição do concerto omitir neste texto a apresentação dos músicos e dos instrumentos: Vasco Ribeiro Casais: bouzouki grego, flauta transversal, gaita de foles e nyckelharpa; Helena Madeira: voz, bendir e kalimba; Luís Peixoto: bouzouki irlandês, bandolim, voz e cavaquinho; Baltazar Molina: cajon, darabuka, riqq, bendir, tar e adufe.

A segunda “imagem” quer dizer que o público do Subscuta perdeu a vergonha e foi para a frente do palco fazer aquilo que, mais do que atenção, aquela música merece: dançar. O desafio de Helena Madeira, de muletas, foi decisivo: “eu não posso dançar mas vocês podem”. Haja gente sem vergonha! Ou “roubando” a expressão de um pensador em voga: haja gente sem “medo de existir”. Com meia dúzia de dançarinas (não eram de Barcelos, de certeza) o concerto ganhou uma nova dimensão, apesar da falta de espaço (será que vai ser assim no concerto dos Terrakota?), e por momentos até se pensou que a malta de Barcelos, que durante tanto tempo, por vergonha ou sabe-se lá o quê, ia ver concertos atrás da mesa de som, conseguisse, finalmente, ultrapassar totalmente o medo do palco. Bastaram-se com palmas. Muitas palmas. Palmas responsáveis pelo encore da banda e pelo melhor tema da noite.

A terceira imagem quer dizer que não se acredita que ninguém não tenha imaginado um festival no Verão ou outra coisa do género para compor o cenário envolvente do palco e da plateia. A música dos Dazkarieh transporta toda a energia e calor (a música celta é a eterna culpada, pela energia) e a fuga de verão para um lugar longe do urbanismo-depressivo da cidade. Por isso, é um bálsamo sonoro de Verão. Um bálsamo de sonoridades próximas… por instrumentos esquisitos.

Abril 2005