um blogfolio de coisas sonoras

7.6.04

Festa de angariação de fundos da Associação Cultural e Recreativa de Roriz
Como a Björk chega a Roriz

No plano festivo, Roriz já não é uma freguesia como as outras. A sua orientação recreativa já não passa apenas pelas celebrações religiosas nas datas tradicionais, tão iguais pelo concelho fora, com os habituais concertos “pimba”, luzes coloridas, carrosséis e foguetes. Aos poucos, começa a distinguir-se e a adquirir alguma individualidade. Muito por culpa da “pequena” Flora. Desde a sua participação no programa televisivo Operação Triunfo (OT), a música (ou tão só o mediatismo da mesma) conquistou as suas gentes. A Björk, por exemplo, através de uma interpretação nobre, mas também arriscada, chegou a Roriz, a outras localidades e a outras idades. A atenção foi conquistada. E, com normalidade, evidenciaram-se os sentimentos de orgulho e de pertença originados pelas relações de proximidade - a Roriz, pela naturalidade, e aos amigos e fãs, pela música e amizade. Somando a este aspecto a diversidade do programa de actividades da freguesia (teatro, música, moda e desporto) antevia-se a reunião de uma “grande família”. Por isso, não foi nada de estranhar a lotação do Auditório do Fórum S. Bento Menni, no passado sábado à noite, na festa organizada pela Associação Cultural e Recreativa de Roriz (ACRR).

A impaciência das crianças começava a manifestar-se nas suas constantes correrias. Os modelos já tinham desfilado na “passerelle” e o grupo de teatro da ACRR promovia atenção do público com a peça “O chá dos doutores”. A entrada de Flora demorava e somavam-se as interrogações sobre qual seria (ou quem seria) a surpresa OT. Provavelmente, já não seria uma surpresa. Depois da apresentação da equipa de ciclismo Pedal Clube a música tomou conta do palco. Os Roda Pé, banda de inspiração tradicional portuguesa “sediada” em Famalicão, apresentaram quatro adaptações originais de recolhas de Giacometti. Uma proposta interessante, e mais laborada do que o simples trocadilho do nome. Num momento popular humorístico, o idoso, mas enérgico, casal Zacarias de Freixo de Espada à “Xinta”, “interrompeu” o discurso da apresentadora e anunciou a “Festa da Flora”. Ou seja, fim de uma primeira parte sem Flora, início da segunda com ela, a solo e com projectos barcelenses dos quais faz parte (e dos quais já fazia quando ainda permanecia no “anonimato”). As previsíveis interpretações dos temas de Zeca Afonso (“Os Índios da Meia Praia”), Kate Bush (“Wuthering Heights”) e Björk (“It’s oh so quite”) transportaram momentos da OT para um espaço menos artificioso e muito mais vivo. Da mesma forma resultou a revelação da “surpresa OT” com as actuações dos amigos concorrentes. Para facilitar a identificação: Rosete, a do “À minha maneira”; Rita, a do “Shoop Shoop Song”; e André, o da “Feiticeira”. O típico “Boa Noite Barcelooos!” também não faltou. O público, rendido, assistia também à quebra da impaciência infantil com a “invasão” de palco. Grandes salvas de palmas. Os artistas do imaginário televisivo estavam ali, bem perto. Flora cantou ainda com outros projectos dos quais faz parte. Com os Stacatto no tema “Fantasia sem Tempo”, num estilo “festival de canção”, acompanhada de dois violinos (um pouco “tremidos”), saxofone e guitarra acústica. Com os Bardos, num estilo mais enraizado no tradicional irlandês e em retrospectivas medievais. E ainda, numa versão “rockeira”, com os Entropia (do qual também faz parte o seu irmão Leonel Miranda que acumulou, assim, a função musical no baixo, com a função de organizador do evento). Ainda bem que a atenção foi conquistada. O evento parece ter sido um sucesso. Apenas falta chegar à “Islândia”.

Fevereiro 2004