um blogfolio de coisas sonoras

8.6.04

Concerto da Orquestra do Norte no Templo do Senhor da Cruz

“No ano de mil quinhentos e quatro, sexta-feira, vinte dias do mês de Dezembro, às nove horas, pouco mais ou menos (...) vinha João Pires, sapateiro, pela dita rua que vinha da Ermida do Salvador em que há, pelo dito dia (...) que focemos ver e guardar uma Cruz que demonstrava um grande santo milagre que estava junto da Cruz, aos Carvalhos do Campo da Feira. (...) Em direito da dita cruz, no chão, em um barreiro, estava feita e assinada, que fica da mão direita quando homem veo do Salvador, uma mui proporcionada e talhada e direita Cruz, toda tão preta como esta regra em cima, de três côvados e três quartos em ancho e, de largura a quadra dela de um palmo e todo por igual...”.*
Do milagre nasceu a obra. Em 1705, João Antunes concluiu a planta do Templo do Bom Jesus da Cruz, monumento barroco aberto ao culto em 1710.

No dia 6 de Abril de 1774, W. A. Mozart (1756-1791), para quem tocar um concerto era a mesma coisa que realizar um milagre, compôs a Sinfonia n.º 29, K 201/186a. Doze anos depois de ter começado a encantar as cortes europeias tocando cravo e violino. Tinha apenas seis anos de idade e dizia-se que (também) era um verdadeiro milagre.
Em 1769, Sousa Carvalho, músico nascido em Estremoz em 1756, oferecia ao mundo a ópera buffa, “L’Amor Industrioso”. Uma obra coerente com a tendência estética do pós-barroco, do chamado “estilo galante”, caracterizado por um ritmo harmónico lento e uma fecunda inspiração melódica, muito associado a um certo recorte “mozartiano”.
Cem anos depois da concepção da Sinfonia n.º 29 e setenta depois da última intervenção no Templo do Bom Jesus da Cruz, nasceu Gustav Holst que, afastando-se das influências germânicas da altura e fascinado pela música folclórica, pelo oculto e pelo misticismo religioso, procurou estabelecer um estilo musical inglês, deixando uma obra atractiva para o “grande” público e talvez repulsiva entre os mais “eruditos”.
Eis uma tela barroca de ligações e separações artísticas que permite ilustrar o início das comemorações dos 500 anos do Milagre das Cruzes.
No dia 20 de Dezembro de 2003, pelas 21h30, assinalou-se a data com um concerto sinfónico da conhecida (e repetida) Orquestra do Norte dirigida pelo maestro António Sousa Baptista. Sob a luz do grande candeeiro do Templo interpretaram a Abertura de L’ Amor Industrioso, Sr. Pruz’s Suite de Holst, a Sinfonia n.º 29 de Mozart e um Divertimento deste mesmo autor.
Em termos musicais não foi nenhum milagre. Mas foi o suficiente para promover a articulação e interpretação (com fundo sonoro) de várias obras de arte - a talha, os azulejos, as pinturas, as esculturas, o poderoso órgão de tubos, o Templo e o seu desenho arquitectónico - e, ao mesmo tempo, conferir uma certa animosidade às “imagens” religiosas (incluindo pessoas presentes) que pareciam mudar de expressividade consoante a melodia. Por outro lado, a música manifestou-se como uma forma sensível de veicular mensagens católicas primordiais, assim como para dizer que em Barcelos, como em muitas localidades do país, também se organizam concertos clássicos na época natalícia. “Aqui está o primeiro número. Outros números ver-se-ão com o tempo”. Na lonjura da distância, esperemos. Algum dia, outro “milagre” há-de acontecer.

*(Frei Pedro de Poiares, Tractado Panegyrico em Lovvor da Villa de Barcelos, 1672).

dezembro 2004