12.6.04
Concerto de órgão e canto no Templo do Bom Jesus da Cruz
A música natural e infinita do Templo
É um instrumento musical fantástico. Enorme. Com um estatuto quase orgânico no interior do Templo do Bom Jesus da Cruz, quer no plano artístico e decorativo, quer num plano metafórico de máquina de energia em funcionamento. Uma espécie de pulmão musical e espiritual. Orgástico-espiritual. Sem pecado. Porque as palavras devem ser usadas na autenticidade metafórica do seu significado. Porque a música deve ser ouvida pela música e com todos os seus adjectivos libertadores da alma. Algumas pessoas benzem-se ao entrar no Templo. A liturgia reside no âmago dos crentes. Faz parte. Evidencia-se na mecânica dos gestos e na forma de estar respeitosa perante os olhares divinos e humanos. À medida que o concerto de órgão e canto decorre, o respeito por Deus e pela Igreja começa a fluir para a Música. Soltam-se alguns sorrisos pelas correrias das crianças impacientes. Trocam-se olhares familiares e distraídos com os elementos do coro. Como se dissessem “Estás a cantar bem!”. As orações dão lugar a palmas. Afina-se o olhar e o ouvido com o afinar do órgão. Fecham-se os olhos na contemplação da música mesmo sob o efeito de qualquer sonolência abstracta. Ou então, abrem-se, para a banda sonora perfeita de um documentário artístico e espiritual ou de uma visita guiada pelo Templo.
Jorge Alves Barbosa, sacerdote da Diocese de Viana do Castelo, organista, evidencia-se nas interpretações de Buxtheude (“Prelúdio e fuga em sol menor”), de Pachelbel (“Ária quarta em sol”), de Diego da Conceição (“Meio registo do II tom acidental”), de F. Couperin (“Ofertório da “Missa dos Conventos”) ou de J. G. Walther (Concerto em si bemol maior). O som do órgão transforma-se. Sem tecnologias de “botão”. Tudo se processa com ruidosos movimentos mecânicos. Ouve-se o respirar dos tubos e o calcar dos pedais. Distingue-se a suavidade das flautas. Destaca-se o som típico e familiar do órgão “bachiano” da famosa “Tocata e Fuga em Ré Menor”. Dissocia-se o toque libertino de uns anos 60 revolucionários sob o comando de um “Winter Shade of Pale” ou de uma criação intemporal de Gainsbourg (o órgão atravessou os tempos indo de um extremo ao outro – do som que se associa à Igreja e à música clássica ao som que se alia à revolução hippie). Esboça-se uma quase-gargalhada perante o som jocoso e “marreta” dos metais distorcidos. Muito próximo dos sintetizadores dos anos 80 especializados em efeitos de ficção científica. Portentoso! A imagem barroca também engrandece: a talha dourada que o envolve (executada por Miguel Coelho, célebre entalhador barcelense do séc. XVIII); os pequenos cinco anjos musicais no topo; e a, ainda mais pequena, face angelical na base, rechonchuda e tristonha, quase esmagada pela imponência.
Junto ao altar, enquanto o órgão descansa e hiberna musicalmente, o Coral Magistroi, de Carapeços, dirigido pelo maestro Manuel Fonseca, flui numa suavidade branqueada. Alguns rasgos vocais “neoblanc” são camuflados pelo todo das vozes. Passa-se para o oposto. Do som do enérgico órgão para a meditação do canto: “De Profundis” de Bach; “Crux Fidelis” de D. João IV; e “Vinea Mea – Responsório da Paixão” de Serafim Coelho. O pico dinâmico do concerto é alcançado com “Jesus alegria dos homens – Coral da Cantata 147” com órgão, coro e o violino de Paulo Teixeira. As sucessivas intervenções monocórdicas que introduzem os temas, embora pedagogicamente interessantes, quebram a dinâmica musical e dão-lhe um tom eucarístico.
O órgão do Templo do Bom Jesus da Cruz, construído por Calisto Barros Pereira, entrou em actividade no ano de 1731. Mais recentemente, em 1993, foi restaurado pelo organeiro Manuel Fonseca nas oficinas Masof – Organ. Não há tecnologia que o consiga imitar. Em termos musicais, orienta-se a crença no sentido da existência de pecado na sua não utilização e na sua subjugação a uma presença meramente decorativa à mercê do pó e da dissonante humidade. Assim, a comunidade (principalmente musical e artística) retribui o “infinito obrigado” da Irmandade do Bom Jesus da Cruz pela presença, na passada sexta-feira à noite, nas Comemorações dos 500 Anos do Milagre das Cruzes.
Março de 2004