Ensaios no quarto: anotações intimistas
Será que o som de uma guitarra quando vai além do quarto não deixa de ser intimista? Será que poderemos continuar a falar de uma “timidez vocal quebradiça” quando o “público” grupo de amigos se converte num grupo de pessoas que se conhecem superficialmente pelo café, ou pelos copos, em busca de puro entretenimento? Ambas as questões isoladas podem parecer insignificantes mas o seu enquadramento no conceito do Olá Barcelos (de animação de esplanadas) serve de ponto de partida para a análise de dois dos espectáculos agendados no final da semana passada: o de High Flying Bird, na noite de quinta-feira, na gelataria D. Nuno; e o de Miguel Oliveira, na esplanada do Café Visage, na sexta-feira.
Ambos remetem o espectador para a figura do artista solitário acompanhado pela sua guitarra acústica, numa mistura de simplicidade e palavras. No entanto, nos mais diversos pormenores manifestam-se as diferenças. A primeira reside precisamente naquelas duas questões e ajuda a reflectir sobre vulgarizada expressão “intimista”. High Flying Bird (nome adoptado por Bruno Lopes, também vocalista dos The Pisces) não sai do quarto. É tímido (ou envergonhado), introvertido pelas escolhas musicais e parece não querer cantar muito alto para não incomodar o vizinho esquisito (o que torna o ambiente interessante). Miguel Oliveira não. A voz é colocada (quase radiofónica) e bem direccionada aos ouvidos mais “hit parade” de amantes de música ligeira e karaokes. Não gosta de ficar no quarto e é o verdadeiro homem da viola na imagem “à volta da fogueira” de episódios adolescentes (“conhecem esta?”). Toca tudo e mais alguma coisa. No mesmo saco é capaz de colocar versões de Xutos & Pontapés, Delfins, Pearl Jam, Sétima Legião ou Beatles (ainda bem que não vai aos pimbas, mesmo pimbas).
Já as escolhas de High Flying Bird percorrem os trilhos da folk. A maioria das músicas são originais (do disco “Songs of Freedom”) e as versões são quase todas autênticos “hinos”: “Blowing in the Wind” e “All Along the Watchtower”, de Bob Dylan; “The Needle and The Damage Done”, de Neil Young; “Dolphins” de Fred Neil (celebrizada numa imponente versão de Tim Buckley); ou “Strawberry Fields” dos Beatles (adaptação folk?). No entanto, a voz perde por “não ter asas” e por querer, mesmo assim, voar alto demais nos momentos em que a manhosice de um Lou Reed ou a atitude rouca-quase-afónica de um Wayne Coyne (Flaming Lips) ficava bem.
Miguel Oliveira tem voz. Canta bem. Os clientes da esplanada rendem-se às melodias e letras que sabem de cor. Batem palmas (as incitações são frequentes), cantam sorridentes, e aguardam com entusiasmo pela próxima música numa tentativa de adivinhação aos primeiros acordes. Mas a distância criativa é enorme. Raramente apresenta uma música original (para não falar num estilo) e os “covers” adaptam-se quase por imitação ao acústico-“Resistência” num repertório já estanque. Mas, se o caminho for a interpretação… venham mais concursos tipo “Chuva de Estrelas” que a marca é garantia.
Julho 2004