um blogfolio de coisas sonoras

7.6.04


Concerto de ópera no Auditório S. Bento Menni
“Barcelos nunca nos abriu as portas”


“Barcelos nunca nos abriu as portas” – censurou a representante do Círculo Portuense de Ópera (CPO), minutos antes de se ter dado início ao espectáculo. E, “porque os recados têm de ser ditos”, acrescentou ainda: “ao longo de todos estes anos estabeleceram-se vários contactos com os responsáveis autárquicos de Barcelos mas nunca conseguimos vir actuar”. O advento apenas foi conseguido no passado sábado à noite, a convite do director João Carvalho, para o encerramento das Comemorações dos 75 anos da Casa de Saúde de S. João de Deus.

Segundo o director da Casa de Saúde, o espectáculo merecia toda a relevância, não só porque era a primeira vez que o Círculo Portuense de Ópera actuava em Barcelos, mais concretamente no Auditório do Fórum S. Bento Menni, mas também porque talvez fosse o primeiro concerto de ópera realizado na cidade. Referiu ainda que, entre outras razões, embora tenha sido feita pouca publicidade (“apenas se espalharam alguns cartazes”), a plateia estava bem composta e se estava perante um bom público.

Contudo, podem-se fazer algumas breves considerações relativamente a alguns aspectos.

Em primeiro lugar, se atentarmos a uma análise mais rigorosa e a uma interpretação mais restrita do conceito de “ópera”, as expectativas apontariam para um espectáculo concentrado numa obra integral de um ou vários autores, com uma forte componente teatral e, no palco, além dos solistas/actores, a presença de um coro e de uma orquestra sinfónica. A “Noite de Ópera” do Círculo Portuense, essencialmente por não ter uma orquestra, distancia-se um pouco dessa ideia. Mas não deixa de ser ópera. Assim como também não deixa de ser ópera o concerto do Quarteto Vocal Rossini realizado em 2003, no mesmo auditório, inserido na programação dos IV Encontros de Música. No palco, sob a direcção do pianista/maestro Cristóvão Luiz, os dois solistas, Ana Barros (soprano) e Paulo Ferreira (barítono) foram acompanhados por um coro formado por cerca de 120 vozes. Palmira Troufa dirigiu a secção do coro infantil. O repertório, bem diversificado (uma espécie de “remix” de grandes referências), proporcionou aos espectadores momentos de prazer musical ao interpretarem temas extraídos de óperas e operetas bem conhecidas. Entre outras, destacaram-se “As Bodas de Fígaro” e “D. Giovanni” de W. A. Mozart, D’ Elisir d’ Amore” de Donizetti, “Cármen” de Bizet (com a conhecidíssima “Canção o Toreador”), “Tosca” e “Madame Butterfly” de Puccini, “Nabucco” e “Trovador” de Verdi, e “Carmina Burana” de Carl Orff.

Em segundo lugar, releva-se (mais uma vez) a importância de um auditório como o do Fórum S. Bento Menni no seio cultural de uma cidade. Apenas num espaço como aquele é possível realizar determinado tipo de eventos. Também é o único que existe em Barcelos. Infelizmente. Contudo, e apenas numa perspectiva de análise do espaço (sem qualquer intenção crítica), revelam-se algumas limitações. O palco, por exemplo, não tem dimensões suficientes para receber uma “grande” ópera, ou seja, é demasiado pequeno para albergar, ao mesmo tempo, um cenário, um coro (com 120 vozes) e uma orquestra sinfónica.

Em terceiro e último lugar, fica-se nitidamente com a sensação de que, um espectáculo com a qualidade apresentada no sábado à noite, com uma boa publicidade, teria motivado a lotação completa do Auditório. Isto porque, apesar do preço dos bilhetes ser de €12,5 (preço pouco usual no hábito cultural barcelense), mais de metade das cadeiras estavam ocupadas.

Segundo João Carvalho, “a Cultura deve ser difundida pelos órgãos autárquicos”. No que respeita à Cultura, a Casa de Saúde de S. João de Deus tem sido exemplar. A simples existência de um Auditório já é um excelente contributo para a cultura barcelense. Principalmente quando é o único que reúne determinadas características. E, efectivamente, “sem moralizar”, a Cultura deve ser difundida, principalmente, pelos órgãos autárquicos. Mas, uma divulgação eficaz não fará também parte do espectáculo? A divulgação é essencial. Deve ser feita ao nível da dimensão do espectáculo. E só (também) com ela Barcelos pode efectivamente abrir as suas portas.

Janeiro de 2004