Do hábito à certeza
Promover um concerto de ópera nas comemorações do Dia Mundial da Música reveste-se de toda a previsibilidade monótona do “ter-de-ser” clássico. Ocasionam-se locais habituais, normalmente (pequenos) auditórios, e espera-se que por um milagre as pessoas “acordem” de programas televisivos ou cafezeiros e apareçam para ocupar todos os lugares na plateia. Ou, pelo menos, quase todos.
Na passada sexta-feira à noite, o número de pessoas presente no Auditório da Biblioteca Municipal para assistir ao recital de ópera do projecto Vox Angelis não ultrapassava 40. Em Barcelos já é um hábito. Já é um hábito as pessoas serem desinteressadas e passarem o tempo todo “a falar mal” do que vai acontecendo, dirão alguns; já é um hábito a publicidade/divulgação ser absolutamente deprimente, dirão outros; e não é hábito acontecerem “coisas” (essas “coisas” culturais) com regularidade e qualidade, dirão ainda outros. No entanto, e passem as redundâncias, absorvem-se algumas certezas: não é hábito acontecerem “coisas” culturais com regularidade (qualidade ainda vai aparecendo alguma); existem eventos que desaparecem do mapa cultural barcelense sem se saber muito bem porquê (alguém ouviu falar de Encontros de Música este ano?); a publicidade resume-se a “meia-dúzia” de fotocópias (por vezes a cores, vá lá) nas paredes que se confundem no meio de outras papeladas; não existe um espaço convidativo por excelência (o Teatro Gil Vicente, ou uma Casa da Cultura, para quando?); e, de facto, as pessoas desinteressam-se, não aparecem nos eventos (também porque não são informadas) e são corrosivas nas críticas. Por isso, quando se sai de casa para assistir a determinados espectáculos o cenário é previsível: salas vazias. Só não é previsível a qualidade dos artistas, quando desconhecidos…
Um bom concerto
O recital de ópera do projecto Vox Angelis aconteceu sem aquela penumbra que mistifica a figura humana no palco (as luzes do Auditório permaneceram sempre acesas). Mas, não foi por isso que deixou de ser merecedor dos mais significativos aplausos por parte do público. Aliás, algumas passagens vocais só não alcançaram o máximo do “arrepianço” porque o auditório não possui a excelência acústica merecida. Ao longo do concerto imperou a simplicidade. Quer na expressividade teatral típica dos gestos-ópera, quer na abordagem entusiasta de pequenas peças destacadas de obras bem conhecidas do público. Sobre o requinte do piano de Angel Gonzales a particularidade distinta das “personagens” vocais funcionou na perfeição do colectivo. E, ao mesmo tempo, todas elas se destacaram individualmente: Pedro Nunes, baixo-barítono, nas interpretações logo “a abrir” de “Avant de quitter ces lieux” (Fausto) de Gounod e de “Bella siccome un’angelo (Don Pasquale) de Donizetti; Maria José Carvalho, soprano, na busca melancólica de sentimentos-Puccini (“a voz que faz chorar”); e José Lopes na experiência incansável de interpretar a conhecidíssima “Ária do Toreador”, de Bizet, com uma voz mais espirituosa e segura do que o tema às vezes promete. De toda a (im)previsibilidade fica uma certeza: foi um bom concerto.
outubro 2004