O triunfo dos genéricos
Ainda é cedo. Dentro da tenda quase não há movimento. O dj vai pondo alguns discos a rodar (“os melhores hits de todos os tempos”); os seguranças, ainda descontraídos, vão preparando a sua pose mumificada para o trabalho; as barraquinhas de bebidas preparam-se abertas para ninguém. São 23h e chove. O espectáculo de Quim Barreiros está marcado para as 22h mas nada se passa. O horário é meramente indicativo. É necessário aguardar pelo “adormecer” diário da Festa das Cruzes (hoje, sexta-feira, pelo final do espectáculo de Luís Represas e da sessão de fogo piromusical), pelo “hábito-chegar” nocturno dos estudantes para a justa composição do espaço-tenda, e, quiçá, pelo amainar da chuva. Provavelmente, só depois da 1h00, Quim Barreiros entra no palco.
Enquanto nada acontece, no backstage conjugam-se os preparativos para mais uma noite e conversa-se com o presidente da Associação, Pedro ####, para uma análise crua de alguns aspectos fulcrais. Numa síntese frásica pode-se mesmo concluir: “ainda é cedo”.
A procura de uma identidade – a integração do IPCA na cidade
“Muitas pessoas ainda não sabem o que é o IPCA. Não existe um rosto, uma face, uma imagem que o identifique e distinga”. Enquanto não for construído o novo campus universitário, alguns problemas continuam a ser incontornáveis. As instalações – urbanamente diluídas no caos arquitectónico da Urbanização das Calçadas (“o dormitório da cidade”) – revelam precariedade física e constituem um complicado obstáculo para a realização de uma série de projectos e ideias próprias de uma academia estudantil. Projectos e ideias que passam, por exemplo, pela criação de uma sede para a Associação, de um café académico (para a realização de tertúlias), ou de uma companhia experimental de teatro.
No início, a festa dos estudantes do IPCA (antes de ser Queima das Fitas) era a Festa das Cruzes. No mesclar-se de ambos os eventos constatava-se uma adaptação dupla: a integração dos alunos na cidade apresentando-lhes o ex-libris festivo popular barcelense; e uma espécie de recepção de boas-vindas das mentalidades mais populares a um espírito novo na cidade. Essa perspectiva de colaboração prometia, sem dúvida, algo novo. No mesmo palco, exibiam-se projectos bem diferentes e envolviam-se públicos com tendências culturais distintas.
Depois, a festa estudantil autonomizou-se (ou quase, porque na individualidade dos cartazes os programas misturam-se, os espectáculos de Quim Barreiros, Luís Represas e Anjos fazem parte de ambos). Contudo, no duelo programático e na emergência de uma orientação única, o cariz mais popular parece ter vencido.
A programação das noites do “queimódromo”
Ao autonomizar-se, a Queima assume-se, finalmente, como a festa dos estudantes (com as habituais tradições: serenata, cortejo, missa de bênção das pastas). Através de um mini-inquérito, a maioria decidiu a programação do “queimódromo”. À Associação restou-lhe apenas “dar às pessoas aquilo que elas queriam”. Foi este o primeiro critério. O segundo (intimamente relacionado com o primeiro) prende-se com questões financeiras, por uma venda de bilhetes praticamente assegurada.
E o que é que os estudantes do IPCA preferiram? Preferiram o esquema de programação do ano passado, repetindo-o e estagnando-o, – requisitaram novamente o Quim Barreiros (“estava no topo da lista”) e os Neurónios Abariados (“porque são amigos”), e os Canta Bahia tomaram o lugar dos Dança Brasil (duas bandas musicalmente idênticas). Preferiram os comerciais Anjos e dispensaram as “demoníacas” bandas alternativas (recorde-se a actuação dos Urbana Fall no ano passado). Preferiram um programa de “festa, copos e danças” em detrimento de um programa culturalmente mais diversificado e eclético (os Rádio Macau perderam, sem qualquer hipótese, na disputa de um lugar com os Canta Bahia). E dispensaram a programação de pelo menos uma noite com bandas de Barcelos…
1h20. “Ainda é cedo”. Quim Barreiros prepara-se para entrar no palco. No ano passado estava muita mais gente (tem explicação?). O público já aqueceu ao som de Britney Spears e coisas do género. Está tudo pronto para cantar e saltar ao som do acordeão.
Divertem-se. É o triunfo dos genéricos.
(As Queimas são cada vez mais uma monocultura isolada e virada para si própria. Mesmo a de Coimbra regride e submete-se à pobreza cultural das maiorias. A noite carnavalesca do dia do cortejo – a noite diferente das outras em que os pimbas eram contratados para gozar ou para serem gozados – generalizou-se e foi elevada à imagem cultural do estudante universitário)
maio 2004