um blogfolio de coisas sonoras

8.6.04

Festival de bandas “Avante Minho 2004”
Revivalismo e evolução (?): retrospectiva

Recuemos no tempo: dias 13 e 14 de Julho do ano de 1996. No palco do polivalente da Escola Secundária Alcaides de Faria a constelação urbano-artística barcelense (de “garagem”, sublinhe-se) organizava-se num desfile quase vertiginoso de bandas rock (e outros projectos menos enquadráveis no estilo) seguindo o regulamento de um concurso promovido pelo Partido Comunista. O objectivo era quase de atropelo: ser seleccionado para a final em Braga e, de seguida, para o Palco Novos Valores da Juventude na Festa do Avante. Nesse mesmo ano, os festivais de verão entram em ebulição: Vilar de Mouros regressava num revivalismo hippie de outros tempos e Paredes de Coura assumia-se como o verdadeiro festival alternativo. Os recém criados The Astonishing Urbana Fall (ex-Angelica’s Mercy) actuavam em ambos, disparando imagens sonoras únicas contra os mais “duros de ouvido”. No seguimento desse movimento desbravador (“lá fora” e “ex-garagem”) a cena musical barcelense despoletava – em argutas sessões experimentais – do embrulho enérgico para o pseudo-estrelato alternativo da então denominada “Seattle portuguesa” (não tanto pela réplica “grunge”, mas pela agitação eléctrica aliada à originalidade dos projectos).

No baú das recordações locais (daquilo que se passava cá dentro, bem dentro) sobrevive um cartaz intitulado “Fim-de-semana com novos valores musicais em Barcelos”, no qual figuravam os seguintes projectos: Dilema, Plebeus, Leitmotiv, Fuckmore (versão alternativa dos Fucklore), Quito, Servos da Gleba, The Gift (coincidência de nomes apenas), Just Creation, Oratory (talvez o grupo barcelense mais antigo ainda no activo... e com currículo internacional), The Grandmother’s Hole, Miguelito e Flávio, Ribanceira, Mortuária, Vallium, The Distortionable Sent eBarulhos do Cheiro. Venceram os Ribanceira. Só não foram ao Avante porque o júri, na final, gostou mais de uma réplica bracarense de uns (já) bolorentos Guns N’ Roses...



“Isto é punk, não é preciso tocar afinado”

Durante quase oito anos muita coisa aconteceu: os festivais de verão multiplicaram-se e uniformizaram-se numa gamela comercial (e não só); as Queimas foram perdendo o vigor cultural; o Cellos Rock (não confundir com o Rock na Barragem) ganhou asas de ícaro; o pote mágico de bandas barcelenses perdeu o “efeito-cogumelo”; sem espaços dignos para tocar, a grande maioria dos projectos afundou-se num diletantismo inoperante e outros, poucos, embarcaram num individualismo de resistência (e ainda bem); a política cultural e musical continuou a assentar na popular Festa das Cruzes e em eventos esporádicos sem direcção artística.

O evento organizado pela JCP no passado sábado – Avante Minho 2004 – teve o seu quê de revivalismo de concertos na Praceta Sá Carneiro (embora o espaço escolhido tenha sido o arborizado e pouco iluminado Campo da Feira): as condições técnicas dos primeiros tempos (colunas montadas em cima do palco); as sonoridades catalogadas em estilos vincados de alguns projectos (metal, grunge, punk); a qualidade de som fraca e instrumentos imperceptíveis quando se precisa de guitarras fortes (que o digam os Azia ou os Godiva); um público “de amigos” que timidamente se vai aproximando do palco (“é bom jogar em casa”); a ameaça de que os concertos têm obrigatoriamente de acabar à meia-noite (fazendo-se tudo pela transgressão...)

Assim, e por ordem de actuação: os Void, de Fafe, praticantes de um rock de estilo em misturas orientais e “satrianiescas” (leia-se solos virtuosos de esquisitos tecnicistas) conquistaram o segundo lugar ( e bem); os Godiva, de Famalicão, em dedicações guturais “para os iraquianos” perderam som nas guitarras metal imperceptíveis e guedelhudas o que pouco ganharam com o sintetizador gótico; os Cão da Laura, de Braga, quiseram pôr tudo o que sabem nas três músicas que impunha o regulamento – de nu-metal a sons “entre aspas” de chiclete – culminando no exagero de arranjos e desafinações q.b. para aquilo que se pode chamar: uma seca; os Surface, de Braga, inspirados num bobo da corte qualquer e nas vocalizações “grunge-pearl-jam” (mais um Eddie Vedder!) alcançaram, com a “balada da noite” (“de fazer meninos”), o terceiro lugar; os barcelenses Rendimento Mínimo apresentaram uma sonoridade eléctrica forte, clichés blues-rock de um Hendrix a bordo de um zepelim perdido no “Sonho Americano”, uma rouquidão-pedra (em português) a fazer lembrar Mão Morta e, com naturalidade, ganharam o passaporte para a final, a realizar-se na Costa da Caparica, no primeiro fim-de-semana de Julho; os Azia, “a primeira banda punk-rock de Barcelos dos tempos moderno-revivalistas pós Strokes”, não gostam dos “Meninos da Mamã” (provocam-lhes azia), e atiram-se nalguns sons borbulhentos (punk-teenager-Green-Day) à agitação e à atitude do estilo: “Isto é punk, não é preciso tocar afinado”.

junho 2004