“Cem Anos de Literatura Portuguesa” na Biblioteca Municipal
Os nexos e os desanexos do mundo literário
Encontra-se patente na Biblioteca Municipal, desde o passado dia 19, a exposição “Cem Anos de Literatura Portuguesa – Nexos na Criação Literária do Século XX”. Uma proposta que assenta, basicamente, numa classificação de autores por afinidades ou nexos (embora alguns autores sejam inclassificáveis e outros estejam ausentes), e numa aproximação de elementos comuns de correntes literárias e movimentos artísticos distintos. Daí os 5 “Nexos na Criação”: a crise precedente das rupturas na viragem dos séculos, do Decadentismo no final do séc. XIX (representado por nomes como Raul Brandão ou Camilo Pessanha) à transição para o séc. XXI (onde se enquadram, por exemplo, Natália Correia ou Virgílio Ferreira); as rupturas aclamadas pelas vanguardas, quer no Modernismo nas duas primeiras décadas do séc. XX com Fernando Pessoa ou Almada Negreiros, quer nas “novas vanguardas” dos anos 60 (Luiza Neto Jorge, Herberto Helder, entre outros); a subjectividade que aproxima o Movimento da Presença dos anos 70-90, aliando autores como José Régio ou Miguel Torga a Al Berto ou Ruy Belo; a consciência política como elemento de aproximação entre o Neo-Realismo e o Pós-25 de Abril com referências quer a Júlio Pomar e Aquilino Ribeiro, quer a Saramago, O’ Neill ou Lobo Antunes; e por último, o grupo dos ecléticos (uma ponte entre os anos 50 e os 70-90), umconjunto de autores inclassificáveis como Cardoso Pires, A. Bessa-Luís, Eugénio de Andrade, M. Cesariny, ou Paula Rego.
Independentemente do maior ou menor criticismo ou do relativismo da proposta, a exposição tem a seu favor a valoração e divulgação da arte e da literatura, podendo funcionar como um incentivo à leitura. Mas também à reflexão sobre a exposição em si e à sua articulação com a “vida cultural” da Biblioteca.
Um interessante catálogo…
O catálogo resume a exposição na sua totalidade. É gratuito, e apresenta um grafismo cuidado e uma atenciosa recolha de textos e imagens. Só por isso vale a pena a visita. A exposição propriamente dita, consiste num conjunto de painéis que reproduzem em ponto grande o conteúdo do catálogo, ou vice-versa. Independentemente da perspectiva, chega-se à conclusão de que entre o catálogo e a exposição em si, existe apenas uma diferença: o tamanho. Por isso, o visitante tem três opções: pode ler os textos e contemplar as imagens nos painéis (a opção mais demorada); pode apenas pedir um catálogo e nem sequer entrar na sala (a opção “eficaz”); ou pode, numa postura intermédia, pedir um catálogo e dar uma vista de olhos nos painéis numa pseudo-tentativa fugaz de encontrar diferenças.
Independentemente da escolha, o visitante-leitor, além de ficar com uma ideia geral da teia literária do séc. XX, pode sentir-se estimulado a uma leitura mais aprofundada das obras destacadas. Assim como, numa postura critico-reflexiva, a analisar a proposta de “nexos” apresentada.
Ou então, indo mais longe (ao andar de cima), suscitar a existência de desanexos entre a exposição e a Biblioteca: seja porque não existe articulação espacial entre a exposição e o livro-objecto original; seja porque as preocupações com a divulgação da exposição não se enlaçam às das obras de alguns autores, nomeadamente na área da poesia portuguesa. As prateleiras dessa secção encontram-se vazias há muito tempo devido a uma suposta catalogação (cada vez mais “eterna”) dos livros. A exposição cria uma espécie de nexo entre os autores e promove a cultura e o conhecimento. A Biblioteca também o faz. Mas com prateleiras vazias, sem uma catalogação competente e sem uma base de dados informatizada à disposição dos leitores, torna-se, evidentemente, mais complicado. É tão importante dar a conhecer como facilitar esse conhecimento. Por isso, recomenda-se vivamente aos leitores a consulta e a procura de poesia, embora em vão. Com exigência e persistência. Pois talvez, os livros sejam definitivamente catalogados e entre a exposição e a Biblioteca se venha a estabelecer, enfim, esse nexo.
Parafraseando Bernardo Soares: “Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem factos, a minha história sem vida”.
A exposição foi produzida em 1995 pelo Instituto Português do Livro e das Bibliotecas e pode ser visitada até ao dia 15 de Fevereiro durante o horário de funcionamento normal da Biblioteca e entre as 15h00 e as 19h00 durante o fim-de-semana.
janeiro 2004