“Ratazanas do campo”
Barcelos contou este ano com três festivais de música: o pioneiro Rock na Barragem, em Areias S. Vicente (ou melhor, o Cellos Rock na Barragem depois do “apadrinhamento” camarário); o MetalCova, em Vila Cova, dedicado ao metal; e o recém-criado Pesadelo Rock, em Carapeços. Numa altura em que os grandes festivais de Verão começam a revelar uma fase decadente, a verdadeira alternativa parece ser o pequeno festival em pequenas localidades. Nascem como cogumelos. E ainda bem. No passado sábado à noite realizou-se o Pesadelo Rock, no campo de futebol ACDC de Carapeços. A organização do evento foi da responsabilidade de Pesadelo Amarelo/A débil. Uma estreia a assinalar.
Punk-rock ao rubro
Eram quase duas horas da manhã. O enfurecido e energético vocalista dos cabeças-de-cartaz Mata-Ratos anunciava mais uma música. A pergunta foi simples – “Somos homens ou somos ratos?” – e a resposta de alguém da assistência não tardou em originalidade – “Somos ratazanas do campo!”. Gargalhadas. A legião de seguidores dos Mata-Ratos encontrava-se já num estado avançado de delírio (e etílico não?). Via-se pelos gestos, pelos berros, pelo abanar das grades de protecção do palco, e, essencialmente pelo mosh. Estranha dança feita de encontrões. O restante público, agora menos disperso pelo campo de futebol do Carapeços, achava piada. No palco, o vocalista “deitava fumo” pela cabeça careca. Pouco se percebiam as letras (impróprias para criancinhas), mas na frente agitada sabiam-nas de cor. Apesar das várias mudanças de formação da banda (iniciaram a carreira em 1982) o espírito punk-core mantém-se incandescente. Quem não se lembra da célebre “A minha sogra é um boi”? O auge de um concerto onde, de entre outros títulos também sugestivos, se destacam: “Dança com a merda”, “Ratos”, “Napalm na Rua Sésamo”, “Beber até morrer”, ou “Xu-pa-ki”. Mas também… “Amor eterno”. Em tempos de censura teriam pis também eternos…
A noite começou com os famalicenses Allison Bentley. A ausência não permite dizer mais do que isto: punk. Os Green Machine, de Barcelos, atiraram-se ao palco com um rock forte, ainda debutante, descendente de uns Zen ressacados e com raízes primitivas (mas não primárias) no blues-rock mais psicadélico. A ex-voz dos extintos Weird Nox regista-se rouca e quase-poderosa nos graves, com alguns resquícios grunge, mas agora despidos da colagem ao maioral Vedder. A postura é no mínimo estranha. Exprimem-se num dialecto proto-pseudo-“Azar Karadas”-ucraniano. Queixam-se do cheiro a estrume dos campos? Gozam com as imagens dos Kiss que aparecem no écran-candidato-a-écran-gigante? Lamentam o pouco público presente? Fica a dúvida. Há uma música que se chama [grunhido] e de repente deixam de falar pseudo-ucraniano. A última música vale pelo resto: viram as costas ao público e abandonam o palco em devaneios eléctricos. Uma surpresa.
Os Amazing Supersoopasound Clash apareceram no lugar dos The No Counts D.O.M. (nomes complicados não?). Fizeram a banda sonora perfeita para o Pesadelo. David Lynch em incursões experimentalistas pelo ruído electrónico, improvisos repetitivos, e alguns ritmos inconsequentes. Uma bateria, um Macintosh, uns pedais de efeitos, percussões e outras coisas esquisitas. Só. O palco arde. Os níveis de ruído sobem ao máximo. Distorções de guitarras artificiais, samples de vozes, percussões marcadas até ao insuportável, barulho. Trinta minutos de barulho numa viagem às profundezas do id. Uma viagem na qual quase ninguém embarca por, talvez, não se sentir preparada para isso.
Os Dance Damage, de Santo Tirso, substituíram os ausentes Brainwashed by Amália. O som estigmatiza-se pelo casio distorcido onde os 80’s sobrelevam uma postura kitch insana volátil. O vocalista conta estórias que metem “fucking” em quase todas as frases, o guitarrista desfigura o “casiotónico” (ou “casioatómico”) com laivos sónicos eléctricos. A postura revivalista é óbvia mas dignifica a possibilidade de reinvenção.
A partir daqui o cenário transforma-se. O perfil punk autêntico apresenta-se à frente do palco: sapatilhas All-Star; ganga curta, rota e enrodilhada; cabelos em susto animalesco ou em revivalismo encoracolado; garrafa de vinho na mão; piercings e afins. Os americanos Dui dão início à viagem punk. O som pela imagem. O punk quer-se assim. Nu. Sem hesitações, directo, fácil, “speedado”, com energia nas palavras e na postura.
O mosh à frente do palco é a sério. Tombos em violência soft (repare-se, quando alguém cai é imediatamente ajudado a levantar-se do chão). A qualidade do som parece medir-se pela movimentação. No final dos Dui (e antes dos Mata-Ratos) um “acrobata” visualmente nada punk transforma uma perfeita primeira experiência ao sair de cena extasiado: “Cá puta!”.
September 2004