Ouve-se o respirar…
“O desafio da moderna gestão do património alarga o campo de actuação a iniciativas que, para além dos trabalhos de investigação, restauro e valorização, têm por fim tanto a divulgação como a vivência dos espaços, não só como lugares de memória, mas também de reconhecimento da sua própria condição de contemporaneidade.” Com esta frase-síntese no seu texto introdutório abre-se o catálogo/programa do projecto Mo(nu)mentos Musicais, promovido pelo IPPAR. Trata-se de um evento que interliga os patrimónios arquitectónico e musical numa relação sóbria entre o legado mundano-musical clássico e a particularidade espacial intrínseca do monumento. Daí talvez a nudez que está subentendida na designação do evento. Daí talvez a ideia de momento no sentido de tempo presente. A ideia não é nova. Em 1999 promoveram a série de Concertos em Monumentos, em colaboração com a Orquestra Nacional do Porto, e em 2000 e 2001 organizaram-se os ciclos de concertos Espaços de Polifonia numa “estratégia de fusão entre o legado material (os edifícios) e imaterial (a música).
Em 2004 a música entornou-se, ou entronou-se, na Igreja Matriz de Torre de Moncorvo, na Área Arqueológica do Freixo, no Mosteiro de Pombeiro, na Igreja de Stª Clara de Vila do Conde, no Mosteiro de Arouca, no Mosteiro de Cete e… no Mosteiro de Vilar de Frades. Foi neste monumento seiscentista, em Areias de Vilar, que no passado domingo, pelas 18h, o Quarteto Camões deu um concerto que esteve muito perto do sublime – entenda-se esta sublimação num conceito de fusão entre a materialidade e imaterialidade, como corpo (o monumento) e alma (a música). Apresentem-se os músicos: Radu Ungureanu (violino), José Paulo Jesus (violino), Luís Silva (viola) e Gisela Neves (violoncelo). Eis a “photo-síntese”: um quarteto no cenário de um altar nu em (re)construção, despedido de talha e de outros elementos decorativos, e com um enorme pano claro a cobrir a parede de fundo (a fazer lembrar a simplicidade de uma obra de Christo).
O concerto iniciou-se com o Quarteto op. 3, n.º 5 em Fá M, de Haydn. A melodia invulgar (para a época) elevou-se na grandiosidade do corpo da nave. A espacialidade acústica “gentilmente proporcionada” pela abóbada salientou a forma magnificente dos pizzicatos da Serenada no segundo dos quatro andamentos da obra. Uma beleza que foi destronada, como se fosse um espelho musical partido da arquitectura estilisticamente mesclada do monumento, aquando da apresentação da segunda obra musical prevista no programa. O espaço transformou-se. Catorze Anotações de Fernando Lopes-Graça (“um músico que está à espera de ser reconhecido internacionalmente”, segundo o violinista Ungureanu) provocaram sentimentos-suspense cinematográficos numa banda-sonora perfeita para o technicolor-vitral de Hitchcock. Catorze peças muito curtas repletas de minimalismos agudos e equilíbrios dissonantes (notas “feias” e terríficas) e finais abruptos disparados numa reverberação em direcção (quase em desafio) ao pórtico Manuelino. Na agudeza agressiva de Black Angels de uns Kronos Quartet. Fora da Luz.
Na segunda parte o espaço foi conquistado pelo Quarteto em Lá b, op. 74, de Beethoven, mais conhecido por “As Harpas”. Uma peça mais longa que é quase a coluna vertebral (uma peça-síntese) de toda a obra do autor. Ouve-se o respirar dos músicos… e com ele o respirar do espaço. A música também reconstrói o(s) monumento(s)… Próximos a reconstruir: Mosteiro de Salzedas (dia 17), Mosteiro de Rendufe (dia 24) e Mosteiro de S. João de Tarouca (dia 31).
outubro 2004