Um objecto-retrato do povo
O progresso ditou a entrega do cântaro de barro ao museu. O objecto que durante tantos anos assumiu um funcionalismo de relevo, quer na lide doméstica, quer numa actividade mais industriosa ou artesanal, vê a sua utilidade actual limitada ao estético e ao decorativo. Como forma de colmatar essa “perda”, numa espécie de “destino abençoado”, encontra-se patente na Sala de Exposições Temporárias do Museu de Olaria, desde o passado dia 3 de Fevereiro, a exposição intitulada “O Cântaro em Portugal: formas e utilizações”.
Mais do que um ícone português tradicional, o cântaro é um objecto com história. Possui um design que resistiu ao longo dos tempos e que foi sempre, com naturalidade, adoptado pelos povos e pelas diferentes culturas. A ausência de ornamentos na grande maioria das peças denota um claro prevalecer do funcionalismo face a qualquer outra intenção mais artística ou decorativa.
“Portugalmente” falando, a ele nunca se deixou de associar a imagem da mulher que, com uma mão na cintura num equilíbrio surpreendente e elegante, o segurava e transportava na cabeça. “Arte” que não é esquecida nas peças em miniatura dos nossos artistas barcelenses ou em escritos poéticos que nos ficam na memória – “Descalça vai para a fonte/Leanor pela verdura/Vai formosa, e não segura”. Uma forte imagem que ultrapassa os tempos e ilustra uma das principais utilidades do cântaro: transporte, serviço e armazenamento de líquidos (quer para uso doméstico, quer, por exemplo, no combate aos incêndios há mais de 60 anos).
Contudo, apontam-se ainda muitas outras utilidades. A maioria delas está relacionada com o trabalho de artificie ou agrícola: para reforçar a cor do ouro nos processos de corar e agemar, para o curtimento de azeitonas, ou para preparação e transporte da calda de sulfato (repare-se bem no verde do sulfato que envolve um dos exemplares da exposição).
Outras, bem menos utilitárias, prendem-se com o entretenimento e lazer. Basta lembrar o tradicional jogo de “corrida de cântaros” ou o cântaro em formato miniatura que, quando não um elemento decorativo, era um brinquedo (dos poucos que haviam) para as crianças. Convém ainda não esquecer a utilidade que poderia ter um cântaro partido. Se a forma se mantivesse, tanto poderia servir para cultivar flores como para uma galinha chocar.
No Museu de Olaria encontram-se expostos cântaros de diversos pontos do país. Destacam-se os vários exemplares do Minho (representado por Barcelos e Vila Verde) e da zona transmontana (Chaves e Bragança) que, em conjunto, completam cerca de metade da exposição. Á medida que se desce no mapa regional, o objecto assume diversas “variações”. O cântaro de duas asas do concelho de Almeida (Guarda), a bilha do distrito de Lisboa, a quarta de Loulé (Faro), o cântaro com tigela do Fundão (Castelo Branco), ou a bilha de Ponta Delgada (Açores) deixam transparecer a diversidade e a riqueza cultural do país.
Mais do que um ícone tradicional ou um objecto com história, o cântaro é também um digno retrato dos hábitos das gentes e da evolução dos tempos. É neste retrato que reside o interesse pedagógico da exposição que pode ser visitada até 30 de Junho de 2004.
fevereiro 2004