Música para uma esplanada ruidosa
A música é calma. Muito calma. Os sons desembrulham-se através da subtileza do piano e do arrepio sonoro do violino (demasiado baixinho e tremeliquente). Os ruídos da esplanada do café Sandilha provocam o embaraço, como se fosse possível ter um ouvido atento à música e outro à conversa. A música continua lá no fundo, bem lá no fundo, e parece propositada a essa função (tão filme bar americano solitário) de banda sonora para uma esplanada ruidosa. O mini palco do “Olá Barcelos” (o “mini-milk” dos palcos) está demasiado afastado. Nas mesas mais próximas ouve-se a música com fundo sonoro de tilintar de copos, de vozes, risos e gargalhadas. Nas mesas mais afastadas ouvem-se conversas com um fundo musical pouco perceptível. A perspectiva é bem diferente. À escolha do freguês.
O projecto “Cordas e nem por isso” existe quase só para o Olá Barcelos. Depois da experiência tendencialmente jazzística com os Pituba (piano, bateria tuba e voz), o pianista João Dias recolhe alguns clássicos próximos e simplifica-os para piano e violino. “Autumn Leaves”, "Polkadots & Moonbeams" ou "Someday my prince(ss) will come" são alguns exemplos da vertente 50’s comum a ambos os projectos. No formato “Cordas e Nem Por Isso” tudo parece muito mais frágil e tímido (e fica bem). Não há a bateria nervosa, não há a voz, não há a preciosidade farta e grave da tuba. Há um piano muito mais líder e um violino solo bonito que (incompreensivelmente) não se quer destacar. Afasta-se do microfone (insegurança ou timidez?) quando o que importa cada vez mais é a atitude, o improviso ou mesmo a fuga agressiva para uma espécie de libertinagem musical anti-conservatório, ou anti-pauta. (O palco, seja ele qual for, é sempre muito mais pequeno do que o músico). E a esplanada estava mesmo a precisar muito mais de ser “incomodada” do que a ser um incómodo. Talvez por falta de tempo de ensaio, garantiu João Dias, ficaram “na gaveta”, por experimentar, as adaptações de temas mais recentes de outras vertentes musicais. Esperamos pela Carla Bruni na próxima actuação no dia 20 de Agosto.
Diversidade e eclectismo
Completar um programa musical para esplanadas não é certamente fácil. Por um lado, os projectos barcelenses repetem-se. Por outro lado, o perfeito equilíbrio entre a música (como essência artística) e a animação da esplanada é quase sempre uma incógnita: nunca se sabe se estaremos perante uma esplanada “bela adormecida”; se a música vai ser demasiado banda sonora ou um “isco” perfeito para os vizinhos que gostam tanto de ver actuações policiais (no ano passado houve autêntica animação); se o projecto se deixa intimidar pela proximidade com a esplanada (muitas vezes indiferente) e, consequentemente, se deixa contagiar por alguma apatia; ou se o público é mais apreciador de karaoke ou de música e músicos.
Talvez por todas essas razões o programa do Olá Barcelos vai no sentido assumido de diversidade e ecletismo. As tendências musicais (que variam conforme a esplanada) são obviamente diversas: blues, covers, jazz, folk, rock, pós-rock, flamengo ibérico, popular ou cabaret. E ganha muito. Porque também só pode ganhar. Apenas mais três apontamentos: o primeiro vai no sentido de que se começa a criar um núcleo barcelense de músicos amigos que, por não terem um Teatro Gil Vicente ou qualquer espaço digno para apresentarem novos projectos, se reúnem na esplanada (a título de exemplo refira-se João Dias e alguns projectos aos quais está ligado: Ribanceira, Projecto Alfinete, Pituba, Cordas e Nem Por Isso e Biarooz); o segundo manifesta a atenção que existe por novos projectos barcelenses válidos (os Biarooz vão ser certamente a grande novidade, a não perder); e o terceiro vai no sentido de uma (bem necessária) procura musical extra-barcelense – Jazza Live, Carlos Polónia Grupe, Kátaros ou Fatucha Leite e Juca Rocha (um belíssimo concerto de cabaret que promete).
Julho 2004