um blogfolio de coisas sonoras

22.6.04

Exposição sobre a vida e obra de Ary dos Santos na Biblioteca
Poesia, revolução e silêncio

Ary dos Santos morreu a 18 de Janeiro de 1984. Há pouco mais de 20 anos. Poeta, comunista, publicitário e autor de algumas das melhores canções do Festival da Canção, no tempo em que Portugal parava em frente do televisor para assistir à europeização da cultura... Num tempo em que escrever o verso “quem faz um filho, fá-lo por gosto” (“A Desfolhada” na voz de Simone de Oliveira) era uma indecência. Num tempo em que a voz rubra de Fernando Tordo (“A Tourada”) quase se calou e se viu impedida de representar Portugal no Eurofestival. Num tempo em que ser comunista e participar activamente nas sessões de poesia do “Canto Livre Perseguido” era – passe a redundância – um “acto livre perseguido”.

Ary foi a voz poética do povo – um poeta da Revolução – “porque ser poeta é escolher as palavras que o povo merece”. “Tinha a capacidade única para encontrar a palavra certa para a música certa” (José Jorge Letria). Jorge Palma confessa que abandonou as letras anglo-saxónicas depois de ver Ary trabalhar. Ainda bem. Jorge Palma é hoje, seguramente, uma das principais referências da composição musical escrita em português.

Fora os sucessos “A Tourada”, “A Desfolhada” ou “Os Putos”, Ary dos Santos “era completamente rasurado”. “Porque era rebelde, uma pessoa incómoda e avessa a capelinhas literárias”. “Porque a instituição literária portuguesa não gosta da rua e dos palcos, que julga menores” (José Fanha). Talvez por isso não esteja referido na exposição “Cem Anos de Literatura Portuguesa – Nexos de Criação Literária do séc. XX”. Talvez também por isso (no sentido inverso), foi inaugurada na passada sexta-feira uma exposição dedicada ao poeta da “Rua da Saudade” – patente na Sala de Exposições da Biblioteca Municipal até ao dia 4 de Abril (ver pág. 19).

São vários painéis com apontamentos biográficos, poemas, fotografias e comentários, que reproduzem um pouco da fotobiografia “Ary dos Santos – o Homem, o Poeta, o Publicitário”, da autoria de Alberto Bemfeita (livro que pode ser adquirido por 29,40 €); alguns poemas manuscritos (“Sonata de Outono”, “Os Putos” ou “Memórias de Adriano”); troca de correspondência (Álvaro Cunhal; SPA). Podem também ser adquiridos os livros “As palavras das cantigas” (11,50 €) e “Obra Poética” (17,80 €) – ambos das Edições Avante – e o CD “As Portas que Abril Abriu”.

Num tempo em que a música se alimenta de uma indústria barata e comercial; em que abundam os repetidos e velhos pseudo-poetas da canção; em que a denominada música ligeira portuguesa se espelha num Festival da Canção tosco e apagado (para não falar na sua qualidade duvidosa); em que a revolução cultural é mais individual-solitária do que partidária-solidária; em que o ostracismo intelectual é camuflado por manifestos inócuos em prol da música e literatura portuguesa, … apenas incomoda o silêncio. Não o silêncio de uma Biblioteca contida na leitura, mas o silêncio de uma Sala de Exposições pouco visitada. Vazia de gente.

março 2004