um blogfolio de coisas sonoras

22.6.05

Exposição de pintura na Galeria AB
A vida, segundo Jerónimo

Encontram-se expostas na Galaria AB, na Rua Direita, até ao próximo sábado, 27 de Julho, pinturas de Jerónimo Fernandes da Silva. Artista barcelense que assina simplesmente Jerónimo. Os quadros expostos, poderão ser vistos quase como se de uma pequena retrospectiva do autor se tratasse.

Ali estão obras que representam um percurso de 50 anos de pintura (o quadro mais antigo é de 1954, tinha então Jerónimo apenas nove anos de idade) e que abarcam as várias fases criativas (formas de interpretar o mundo exterior) do autor. Surpreendentes, porque pouco conhecidas, são três obras em que Jerónimo recorre à técnica da colagem. Obviamente que também não faltam as representações, interpretações e recriações dos cristos – os quais têm na obra de Jerónimo um lugar e um peso comparável ao que tiveram na de Rosa Ramalho. “Eu pinto estes cristos, porque tenho a verdade na alma e não escondo aquilo que sou e aquilo que sinto”.

“Um sonhador da arte e da poesia”. A obra de Jerónimo revela-se existencialista e elevada à condição humana. Quer nas suas pinturas, quer nos seus poemas, deambulam fantasmas de carne e osso, intensifica-se o drama religioso do Homem perseguido pelo olhar profundo de Cristo, crucifica-se o amor e a sedução pela vida marginal e pelo sonho angustiado, assume-se o isolamento e a relutância em pertencer a qualquer voga – “Eu pinto o que sinto”. O artista recolhe-se no seu íntimo, nas suas recordações de infância e constrói o seu próprio mundo. Um mundo de cores estranhas, visões, entidades abstractas, corpos caóticos e devaneios esquisitos. Um mundo para um qual não existe mais nenhum. Um mundo que se edifica numa espécie de solipsismo artístico e, talvez filosófico. A partir dele constrói tudo o resto e propõe uma visão analítica de tudo que o rodeia. A amargura do Ser em debates existenciais representados num vermelho sanguíneo, cor forte e apaixonada. O encantamento pela figura triste de Cristo que distorce e atira para diferentes impressões e expressões (uma figura ambígua entre o sofrimento e o perdão). Crucificações que obsessivamente transformam o amor em ódio e o ódio em amor. O julgamento dos comportamentos e pensamentos do Zé-Ninguém por ele mesmo. A revolta contra a própria Arte, ou melhor, contra aquilo que pretende ser Arte. O desprezo pela falta de sinceridade e autenticidade de personagens falsas.

Um retrato de uma mulher passa despercebido. Nem o próprio modelo compreendeu que um artista faz a sua própria representação e se perde em sentimentos abstractos e cores nada apolíneas. Daí também, a aparente ausência das mulheres que pinta nesta exposição.

Jerónimo foi o primeiro pintor português a expor em Brasília, foi bolseiro da Fundação Callouste Gulbenkian e aluno extraordinário da Escola de Belas-Artes do Porto. Além de uma vasta obra dedicada à pintura, é uma vida apaixonada pela Arte e pelo mundo. Na Galeria pode ser apreciada uma pequena partícula dessa sólida construção.

A exposição pode ser visitada todos os dias entre as 16h e as 20h, com o horário suplementar, sexta-feira e sábado, entre as 22h e as 00h.

setembro 2005


II Mostra de Arte Jovem de Barcelos
Todos os nomes… uma imagem

Abreu Coutada, Ana Félix, Ana Nunes, Ana Silva, Antó S. Bento, Carlos G., Carlos Parente, Carlos Santos, Catarina Sousa, Elisabete Araújo, Eva, Filipe Miranda, Hélder, Inês Torres da Rocha, Inês Vaz, Isolete Duarte, Ivo Barros, Luís Pinho da Silva, Márcia Brito, Nandisa, Natacha, Nelson Moreira, Nuno Gonçalves, Rosana, S. Longras, Sara Barreto, Sara E. Silva, Silva Torres, Tallents Five, Tiago Sousa, Tomé e Tucha. Eis todos os nomes dos artistas participantes na II Mostra de Arte Jovem de Barcelos. Por ordem alfabética. Alguns já conhecidos, outros nem por isso. Nomes sem idade (mas seguramente jovem: até aos 30 anos), sem distinções de currículo, e desejosos de exporem os seus trabalhos ao público que se dê ao prazer de visitar a Galeria Municipal até ao dia 6 de Março de 2005.

Todos os nomes têm direito ao seu espaço e à sua imagem. Apenas existem distinções de estilo. No entanto, dentro das cinco áreas escolhidas (pintura, desenho, técnica mista, escultura e fotografia) e sem qualquer intenção de distinção qualitativa, poderemos pormenorizar atenções nalguns trabalhos-tipo: nos arcos festivos e numa maqueta de uma quinta em ponto pequeno; nas representações plásticas de monumentos barcelenses em perspectiva deformada e em cores e fundos “dalinescos”; no manifesto fotográfico pelo esquecimento “entre as sombras” do Castelo de Faria (a mensagem é directa); nos cadernos de retalhos coloridos de inspirada “concepção têxtil”; nas típicas alusões garridas de postal turístico dos monumentos mais carismáticos; nos trajes elaborados em intercâmbio entre a Escola Profissional Cenatex (Portugal) e a Escola Idnskolinn i Reykjavik (Islândia); ou na crítica “de agulha” no cartoon intitulado “Acorrentado ao sistema” onde o Galo de Barcelos aparece acorrentado pelo pescoço e com o corpo de uma laranja atravessada pelo Pelourinho (no fundo do quadro, de uma forma muito discreta, esboça-se em traços escuros o Teatro Gil Vicente com uma cruz de campa… alguém se lembrou).

Assim, em superficiais observações, fica-se com a ideia do que se pode encontrar na Mostra Jovem. Há diversidade, diferentes formas artísticas, diferentes discursos e uma permissão de franca liberdade para a criteriosa interpretação pelo visitante, quer dos trabalhos individuais, quer da Mostra como um todo. Por isso, todos os nomes são importantes. Ficam apenas os enigmas: se pelo menos uma das obras de cada concorrente deve obedecer ao tema “Património de Barcelos”, por que razão (…)? E se as inscrições terminaram em Dezembro de 2004 como podem existir quadros assinados em 2005?

A exposição pode ser visitada de terça a domingo entre as 14h00 e as 18h00. Além da exposição vão realizar-se, durante os meses de Fevereiro e Março, workshops de formação em diversas áreas artísticas. Os interessados devem dirigir-se ao Fórum Jovem para efectuarem as inscrições.

janeiro 2005

19.6.05

The Legendary Tiger Man no Subscuta
O blues com estilo do Homem-Tigre

O gajo tem estilo. Entra no palco nos passos largos dos tacões do seu par de sapatos brancos, despe o casaco do seu fato negro às riscas de imaginário cinematográfico de gangster mafioso, e dirige um “boa-noite” à sala repleta. O tripé do instrumento que toca com os pés (usualmente conhecido por bateria) serve de repouso artístico para a indumentária despida e as palmas de cerca de 150 pessoas, provavelmente a melhor assistência de sempre do Subscuta (é importante que se o diga), serve de cabide de reconhecimento para o alter-ego mais solitário de Paulo Furtado, o singular The Legendary Tiger Man. O gajo é todo estilo. Esconde os olhos por detrás de uns óculos escuros numa visão contemporânea e revivalista dos anos 80, e afugenta os espíritos da douta decadência das margens do Mississipi com uma gravata negra às riscas brancas. Aprisiona a sua clássica Gibson Les Paul na tradição/maldição blues, prepara o sapato branco esquerdo para o prato de choque (munido de tamborim e corrente metálica), o sapato branco direito para o bombo de pé, e senta-se num “banco eléctrico” para uma execução lenta.

O som convence logo à partida. Os graves da guitarra são acentuados, o bombo manifesta-se centro de atenções, e as manietações blues preenchem os requisitos mínimos da tradição negra americana pronta a enviar via “slide”, em carta registada e com aviso de recepção, todos (ou quase todos) os clichés a uma plateia que abana a cabeça e bate o pé ao ritmo do “bomboman” rebelde. Os temas de “Naked Blues” e “Fuck Christmas, I Got The Blues”, respectivamente primeiro e segundo registo discográfico do Homem-Tigre, já são conhecidos por estas bandas. À segunda música, o verso “I’m gonna make you mine”, ainda que baixinho, ecoa no reflexo de vozes e o kazoo já faz estragos na timidez dos sorrisos de agrado e nos comentários ao ouvido.

O público desafia-o com palavras em faísca azul e atira uns berros formato feedback vocal – “I’ve Got The Blues, Baby!” – como quem se atreve a pôr à prova a loucura nómada de “um gajo que anda pelo mundo fora a tocar bombo e guitarra ao mesmo tempo”. E a resposta ao subconsciente e à transformação “telepática” das palavras em som veio em tímidos esvaimentos sobre “música primitiva para um público primitivo” (e isto é um elogio), a introduções sobre “o porquê de não existirem barcos, nem no Cávado, nem no Mondego, nas respectivas margens de Barcelos e Coimbra (ressalve-se as associações desportivas do calhambeque)” e em “elogios perpétuos a mestres de blues recém falecidos” com versões próximas. O gajo tem estilo.

Mais estilo tem ao convencer o público a pôr-se de pé e a saltar para a frente do palco para um encore preparado pela notícia de que comemorava da melhor forma o dia do seu aniversário. E ainda mais estilo tem ao evidenciar uma coerência de percurso: na americana folia rockabilly dos desaparecidos Tédio Boys, na rocalhada soul de ascendência óbvia dos Wray Gunn, e no blues enraizado na pureza negra mágica deste Tiger Man.

Não se irritem com a palavra “estilo” a surgir ao ritmo repetido do bombo (quase em formato disco sound), nem com as palavras ambíguas como quem disfarça a voz pouco “negra” com distorção, nem mesmo com os clichés jornalísticos que se subjectivam como quem se inventa numa estrutura de blues que não (a)varia. A verdade é que, com estilo (mais uma vez!), com a casa lotada e com inúmeros aplausos o Tiger Man deixa o Subscuta no ponto de caramelo.

setembro 2005

Recital de piano no auditório da Biblioteca
Sem pautas e com poesia

Dois aspectos importantes a reter relativamente ao recital de piano na passada sexta-feira à noite no auditório da Biblioteca: uma boa afluência de público não muito comum nos eventos de música clássica realizados naquele espaço; e uma apresentação musical de nível, quer no que respeita à escolha programática, quer relativamente à “proposta” de comunicação com o público. Ambos os aspectos podem explicar-se suficientemente pelo artista e pelo seu currículo. Miguel Campinho, nascido em 1978, concluiu o “Master of Music in Piano Performance” na Hartt School – University of Hartford (Connecticut - EUA) em 2002, venceu vários prémios em Portugal e mais recentemente nos EUA (3.º prémio na “Young Artists Competition” organizado pela Connecticut State Music Teachers Association), estudou também na Hochschule der Kunste (Berlim) e, entre outros factos relevantes, actuou a solo e em música de câmara em vários países (Portugal, Espanha, França, Alemanha e EUA). Para um músico com apetite musical por virtuosos (Paganini e Liszt), apesar do já alcançado, pode muito bem ainda ser pouco...

O recital dividiu-se em três partes. A terceira surgiu como um bónus: um encore de regresso a um excerto de Rachmaninov (a lembrar o filme “Shine”) interpretado pela primeira vez pelo músico “há sensivelmente 7 ou 8 anos” no mesmo local (“Vambora!” [sic] gritou alguém na fila da frente). Na primeira parte foram interpretadas obras de três diferentes autores: Xavier Montsalvatge, Isaac Aleniz e Maurice Ravel. Do primeiro, catalão, nasce uma ambiência desconcertante, notas certas nos sítios errados (ou notas erradas nos sítios certos?), para uma banda sonora de desenhos animados desconchavados onde o ragtime se cruza com folclore cubano – Três Divertimentos “sobre temas de compositores esquecidos”. Um bom início. Depois de uma interpretação de “sabor espanhol” (El Puerto de Albeniz) acontece o jogo espelhado na interpretação de “Une barque sur l’ocean” de Ravel em ritmo de ondulação marítima, ao mesmo tempo melancólica e tempestuosa, revelando uma estética complexa e estranha de “jogos de espelhos” (da explicação fica a frase: “os olhos não se conseguem ver a si mesmos a não ser por outras coisas”). Bonito.

Aparentemente, a escolha dos autores para a segunda parte obedeceu a um critério de preferência e admiração de Miguel Campinho. No entanto, destacam-se alguns aspectos comuns: o virtuosismo patente nas obras, quer nas “Variações sobre um tema de Paganini (Livro I)” de Johannes Brahms, quer na abordagem de Franz Liszt apresentado como o “primeiro grande pianista virtuoso” (também conhecido por partir pianos); o ambiente sonoro mefistofélico, quer na abordagem da excentricidade de Paganini (“o violinista que vendeu a alma ao diabo” para atingir a perfeição), quer na “Valsa Mefisto” (Liszt) inspirada na imagem de Fausto; e a poesia, quer pela não indicação de andamento na “apaixonada” “Rapsódia Op.79 n.º 2” (Liszt), quer no “dizer” do “Soneto 104 de Petraca” (Liszt). Neste momento o pianista recorre ao poema e quase troca a fala pela melodia (o que mais valia). Pautas para quê?

janeiro 2005
Quarteto de saxofones “Sax Unlimited” no Subscuta
Da vénia clássica à vénia popular
Há músicas que têm o “terrível” condão de por toda a gente a cantarolar a sua frase principal, e que se tornam por isso grandes “hinos orelhudos”. Por muito que nos cansemos de as ouvir por todo o lado, obedecemos religiosamente aos mecanismos reflexivos pavlovianos da entoação musical, e lá se solta um “lá, lá, lá”, ou um “ni, ni, na, na”, ou um “pa, na, na” (tudo varia pela expressão do sujeito), simplesmente porque a melodia se entranha mentalmente e não nos conseguimos livrar dela. Sentimo-nos muitas vezes estupidamente perseguidos. Invadidos na nossa privacidade. E, no caso da música pimba e de outras “foleiradas” que andam por aí, achámo-nos vítimas de um atentado enervante. É em anúncios de televisão. É em cânticos futebolísticos. É em altifalantes de fraca qualidade sonora (ainda por cima!) de festas de paróquia em ressaca por foguetes. É nas colunas balofas do vizinho. Simplesmente, é. Existe.

Algumas dessas músicas, que até nem são más de todo, passam a ser. Relegamo-las para balde dos “enjoos musicais” e esperamos que algum dia, pelo aperfeiçoamento da reciclagem revivalista, se lhes devolva o que lhes pertence: as suas raízes, os percursos dos seus autores, o contexto da sua criação artística e uma interpretação digna. Se fosse possível, exigiríamos a sua audição como se fosse a primeira vez, isolada, despojada de artifícios comerciais, e até, livre do estigma da catalogação popular (no caso daquelas músicas que toda a gente conhece, mas não que não se sabe de quem são, e nem nunca se vai saber... até um dia).

O concerto dos Sax Unlimited terminou exactamente com uma dessas – “The Entertainer” de Scott Joplin. Unicamente com o objectivo de soltar a melodia popular “com cabeça de Jano” (ao mesmo tempo “alegre-amiga” e “perseguidora-lapa”) em direcção à plateia silenciosa, para se impregnar nas vozes à saída do auditório da Biblioteca. Que digam que não os saxofonistas, autores da “experiência” tentadora dos reflexos de que se falava há pouco: João Monteiro (sax barítono); João Oliveira (aquele-que-deu-um-concerto-com-o-grupo-pela-primeira-vez-e-que-teve-de-pedir-emprestada-a-gravata-do-casamento-do-pai-para-não-destoar-muito); Marco Ribeiro (sax alto); e Rui Reis (the-entertainer-sax-alto). Aliás, a dinâmica da segunda parte já fazia antever o resultado. Os temas escolhidos vogavam no carrossel do jazz popular e “hollywoodesco” (“Smoke Gets In Your Eyes” de Jerome Kern), “medleys” de estilos sul-americanos (“Cha, cha, cha”, “Valse” e “Samba” de Lino Florenzo), e incursões/fusões de estilo grego (“Suite Hellenique” de Pedro Iturralde”), o que foi particularmente mais libertador nos solos dos instrumentistas.

A primeira parte foi dedicada a autores clássicos. Pela sequência (com intervalos de ponto e vírgula a marcar as vénias no palco – o inevitável cliché clássico e popular-do-tempo-dos-Beatles): “Bourré” de Johann Sebastian Bach; “Andante Cantabile” de Piotr Ilytch Tchaikovsky; “Scherzo” de Nikolai Rimsky-Korsakoff; “Danse Slave n.º 8” de Antonin Dvorák; e “Old Hungarian Dances” de Ferenc Karkas. Assim se desenrolou o programa do concerto. E a melodia alegre não sai a cabeça.

junho 2005

12.6.05


Concerto de Alla Polacca no Subscuta
As vozes assim o dizem

É um pós-rock com estranhos laivos pop. As vozes assim o dizem: quer as duas que cantam em coros de tons estranhos agudos; quer as vozes baixas da plateia (desejosas de catalogar sempre tudo o que mexe) que sentenciam entre um pop-alternativo ou um alternativo-pop. Mas isso já o sabíamos… Pelo menos desde a edição, em parceria com os Stoways, de “We have made thousands of people happy: why not you?”: um pós rock desejoso de vozes agudas e melodiosas; ambientes resgatados da voga Islândia pós-Bjork; um experimentalismo-pop que se deixa contaminar por resquícios de tiques progressivos (pouco precisos) e por ambientes sintéticos à Eno e Sakamoto (bem melhor); um rock a empurrar para Radiohead de Amnesiac. Ao vivo, os Alla Polacca transmitem a ideia de que nada disso é importante. À medida que vão tocando vincam três ideias muito caras (que os distinguem da maior parte de bandas que andam por aí): uma ideia de liberdade reconhecível no respirar das composições (independentemente de umas serem mais interessantes do que outras) e na execução das mesmas; outra, intimamente relacionada com aquela, de força e competência na secção rítmica (baixo e bateria) que ao libertar-se a ela mesma deixa espaço suficiente para a progressão das guitarras e das teclas; e uma ideia de persistência (no trabalho) evidenciada nos “arranques” e paragens imprevisíveis e na contenção das vozes para o ideal equilíbrio com o instrumental. São estes os ingredientes perfeitos. Os Alla Polacca têm-nos. Com eles deram um dos melhores concertos do Subscuta. As vozes assim o dizem.

Os Alla possuem também aquele impulso da experimentação despreocupada. Quando alguém apareceu, no próprio dia, com uma colecção de imagens caseiras de finais de 70 e inícios de 80 não hesitaram em projectá-la durante o concerto. Mesmo quando a curta duração do filme ocasionou uma quebra com o insuportável fundo azul e dizeres de dvd e a repetição das imagens de infâncias comuns: festas de anos domésticas, um bebé a tomar banho (provavelmente, uma ideia de imagem que toda a gente deve ter por casa em fotografias), namoricos à porta de casa, aventuras na praia, etc. Alguém se manifestou: “Mudem as imagens!” Ao que responderam: “não temos outras”. Ao que apetece mesmo dizer (deste lado e agora em private joke): “Asdrúbal, por favor, volta! Temos saudades tuas…”. A verdade é que o público do Subscuta não parecia o mesmo. A habitual “encenação” na “troca de galhardetes” simpáticos entre o público e os músicos resumiu-se a um enjoado “mudem as imagens”; a classe no respeito pelo silêncio pela música desvaneceu-se por momentos (principalmente nas partes mais calmas); e a adesão foi menor do que o habitual. E como explicar esta pouca adesão? Várias hipóteses: 1. os Alla são desconhecidos para a maior parte do público barcelense (a verdade é que estiveram parados cerca de um ano e ausência “paga-se” com esquecimento); 2. ainda há quem não saiba onde fica o Auditório da Biblioteca; 3. o público (cada vez mais) gosta de tropeçar nas coisas e não de as procurar (e quando tropeça prefere que lhe faça um desenho). Podem parecer todas hipóteses ridículas, mas a última tem muito que se lhe diga…

Maio de 2005

8.6.05

Quintas-Feiras Musicais – concerto pelo Colegium Musicumm de Gaia
Colagem de retalhos

Oito músicos no palco do Auditório da Biblioteca Municipal: quatro clarinetistas, um pianista, uma saxofonista, um cantor, e um contrabaixista.

Os clarinetistas (retalhos dos currículos apresentados) – Quarteto Ébano: Alberto Bastos, barcelense, ocupante do “lugar de solista B na Orquestra do Norte entre Novembro de 2000 e Agosto de 2004, onde trabalhou com vários solistas e maestros de mérito nacional e internacional, sendo de destacar: António Vitorino de Almeida, (…) José Carreras, (…), Scorpions (…)”; José Moura, gaiense, responsável desde 1995 pela “direcção da Sociedade Filarmónica de Crestuma” e colaborador da orquestra do Norte sob as orientações dos maestros José Ferreira Lobo, Ivo Cruz, António Baptista”; Manuel Moura, gaiense, a leccionar a “disciplina de clarinete no Conservatório Regional de Gaia, Escola Municipal da Póvoa do Varzim, Academias de Música de Espinho, Gulpilhares e Vilar do Paraíso; Marta Oliveira, colaboradora da Escola de Música da sociedade Filarmónica de Crestuma e (bónus curricular!) profissional em engenharia electrónica e computadores”.

O pianista: José Miguel Oliveira, natural de Santa Maria da Feira, pianista titular da Orquestra de Salão do Jardim Passos Manuel do Coliseu do Porto, entre Março de 2000 e Maio de 2003, e músico da “Praça da Alegria” durante três anos.

A saxofonista: Rosa Oliveira, professora da disciplina de Saxofone no Conservatório de Música Calouste Gulbenkian de Braga, Conservatório de Música de Águeda, Academia de Música de Barcelos e Centro de Estudos Musicais do Porto.

O contrabaixista: Artur Almeida, membro efectivo da Orquestra do Norte e (bónus curricular!) licenciado em Engenharia Mecânica pela Universidade do Porto.

O cantor: Rodrigo Lopes, barcelense, director do Coro de areias de Vilar, em Barcelos, e professor em Santa Maria de Portuzelo.

Todavia, sem esquecimento, acrescente-se ainda um novo elemento: Rui Dias, compositor responsável pelos arranjos do Colegim Musicummm de Gaia.

O programa: o concerto resumiu-se a uma colagem de retalhos e a uma experiência no palco pouco distante de um “ensaio programático com assistência”. A coerência e dinâmica viram-se numa primeira parte protagonizada pelo Quarteto de Clarinetes Ébano, com interpretações de Barry Ulman, Elliot Carter, Rossini e Gershwin (combinações bem conseguidas pela sintonia e proximidade dos instrumentos). Depois somaram-se retalhos e um “entra e sai” de músicos e instrumentos: “Viravizo” da ópera “La Sonambula” de Bellini (canto e piano); uma “pequena peça” de Joly Braga Santos (contrabaixo e clarinete); “Cinco danças eslavas” de Dvorák (piano e clarinete); e, no final, duas peças extremamente distantes entre si – “Santa maria” de Mascagni e “Summertime” de Gershwin – em ensemble (e com a única “aparição” do saxofone); e ainda, o bónus extra-programa de “Ave Maria”.

O público: continua a ser pouco. (No dia em que se espalhar a ideia de que ouvir um concerto de música clássica faz tão bem à saúde como, depois do jantar, vestir um fato de treino para uma caminhada pelas ruas da cidade, talvez o cenário da plateia se transforme.)

maio 2005

Maestro António Vitorino de Almeida no Subscuta
“O Diabo na Música”

Entrou no palco do Fórum S. Bento Menni de sorriso aberto para uma plateia bem vazia e agradeceu aos presentes por “terem saído de casa com um calor destes”. A figura é mais do que conhecida e dispensa apresentações. Inconfundível. Quando refere ironicamente que “a luz arrefece o piano” talvez se compreenda, em parte, porque passou cerca de metade (ou mais do que isso), do recital da passada sexta à noite, em “conversa” com a plateia. Os restantes apelos de justificação residem naquilo que é mais óbvio e que foge ao iluminado sentido de humor do maestro: no seu elevado e especioso grau de comunicação que lhe permite simplificar teias de pensamento de uma intelectualidade pesada para muitos; e na concepção que possui sobre o que é a música clássica (e não só clássica) e da forma como ela se deve apresentar, nua e despojada de tiques bolorentos de superioridade.

Durante cerca de uma hora e meia, “divagou conscientemente” ao piano em metáforas sonoras, demonstrando porque é que “as tentativas de explicar o que é a Música” se perdem, na maior parte das vezes, em palavras e abstraccionismos fúteis. Através de uma sonata de Beethoven adaptou a palavra ao som e o som à palavra. Simulou “a pergunta”, “a resposta”, “a discussão”. Lembrou que a música é também uma linguagem especializada na comunicação de emoções. E, principalmente, salientou que “a música não foi feita para cantar e muito menos para dançar”. “A música foi feita para se ouvir”.

O “Diabo na Música” apareceu entretanto. Quando se soltou o acorde maléfico composto pelas notas fá e si. Ao fazê-lo, e ao explicar a sua proibição no contexto de trevas da Idade Média, transformou o belzebu numa verdadeira caricatura modelar dos “artistas do barro” barcelenses: baixinho, batatudo, barbudo, de “tridente na cabeça”… enfim, um castiço desenho animado mitológico.

De seguida, com mais uma composição de Beethoven, exemplificou a diferença entre “compositores que sabem nadar e outros que nem por isso”. A travessura serviu para troçar de “artistas de sol e dó”, aqueles que dizem que “demoram meses a compor um tema que é sempre a mesma coisa”. Os risos vieram por uma caracterização muito (diabolicamente) peculiar: “pornofonia”!

Porque já estava na praia, e porque lhe apeteceu perder-se ainda mais nela, atirou-se aos cromatismos do século XIX e a compositores como Schubert, Wagner, e Schoenberg (“aqueles que não regressam à praia”). Quando se deu por ele, já estava imbuído na estética atonal do século XX e em novas divagações sobre o “Diabo na Música” (agora, “os PIDEs e os GESTAPOs da música” avessos à tonalidade).

Depois, a “aula” centrou-se em Chopin, um “compositor virulento”, “nada piegas” e que “odiava dança”. Exemplificou o compasso ternário como o bater do coração e visualizou a valsa como uma “dança subversiva” proibida no início do século XIX (mais uma vez, “O Diabo na Música”!) - “nunca as pessoas haviam dançado agarradas em público”.

Já na parte final vieram as recordações de Viena, da cidade onde viveu 23 anos seguidos: a estória do músico que ficou sem um braço e que passou a tocar realejo (“era só dar à manivela”); a estória trágica do assobio do “Peixe Assado”; as grandes borracheiras de músicos de bares de altas horas; a tristeza e infelicidade dos vienenses de “dentes podres”; a figura da Madame Semerda (!) “que tinha uma fábrica de chocolates”. Traduziu tudo em música e terminou com uma composição sua: uma Paráfrase sobre Viena.

Apesar de tudo (das estórias, dos muitos apontamentos humorísticos; das exemplificações musicais; dos pormenores sobre alguns compositores e de até alguns malabarismos mímicos) soube a pouco. Sabe sempre a pouco.

Junho 2005

Encontro de arte experimental em Barcelos
Zoom: do cinema para as artes performativas

Assinalem as seguintes datas: 30 de Setembro e 1 de Outubro. Principalmente aqueles que se interessam pela música e pela sua bifurcação pós-vanguardista: entre o estilo electrónico de construção laptop com projecção sonora de abstraccionismos e o experimentalismo (sem época) com adaptação de instrumentos ditos “tradicionais”. A Zoom, nessas datas, promove uma extensão do Hertzoscópio intitulada, mais precisamente, “HERTZ_extended #1 – Encontros de Arte Experimental e Transdisciplinar”. O evento vai decorrer em dois auditórios comuns: o da Biblioteca Municipal (performances) e o do Museu de Olaria (workshop).

A referência fulcral do evento é João Castro Pinto, director artístico e produtor executivo do Hertzoscópio. Além da performance em “dueto laptop” com o austríaco Bernhard Loibner, que vai fechar o HERTZ, Castro Pinto vai apresentar o workshop intitulado “ACUSMATA – Breve História da Música Experimental/Arte Multimédia – conceitos básicos e técnicas de produção musical experimental e arte performativa” (com horário entre as 10h e as 13h e as 14h e as 17h, durante os dois dias, num total de 12 horas).

No primeiro dia, sexta-feira, Adriana Sá presenteia os amantes do experimentalismo com sensores de pressão, cítara preparada, samples, delay modulador e instrumentos de percussão lumínica. Hugo Barbosa acompanha-a num “live-video” que processa mediante sensores de luz. A segunda performance da noite fica a cargo de Paulo Raposo (laptop), fundador da editora SIRR (2001) e intitula-se “Persistência Reticular”.

No sábado, antes da actuação da dupla Pinto-Loibner, Draftank (digital turntable) e Manuel Mota (guitarra eléctrica) apresentam uma performance que combina o “glitch music” e o improviso, e ainda projecções de filmes super 8 digitalizados como “pano de fundo”. Promete. E como o cinema é a aposta forte da Zoom, no primeiro dia, pelas 24 horas, vai ser exibido o vídeo experimental de Joachim Montessuis (França), intitulado “La Danse des Fous”.


2005 dotado de dinâmica

Afinal de contas, Barcelos não está de todo condenada ao marasmo cultural e ao provincianismo folclórico paroquial. 2005, ao nível da música (mais dita não-comercial), regista já dois eventos que evidenciam alguma “luz ao fundo do túnel”: Subscuta – Ciclos de Som e Observação e o HERTZ_extended #1. Cada um no seu estilo, ambos põem à prova o anacronismo cultural citadino e injectam um pouco de adrenalina nas mentalidades musicais adormecidas e fechadas. O Subscuta arrasta cada vez mais gente, e a Zoom, através de uma plataforma cinematográfica (bem sucedida), pisa territórios de vanguardismo artístico. Espera-se que o “povo” acompanhe a evolução e a dinâmica de reacção esperada, e ainda mais uma coisa: que este cenário seja apenas o começo (experimental).

setembro 2005



Sotto Trio nas Quintas-Feiras Musicais
De Bartok a Piazzolla

Alberto Castro de Bastos “começou a estudar música na Banda Musical de Oliveira, sua terra natal, com o seu pai, Cândido Bastos”. Agora, ostenta no seu currículo “aventuras pop” com Nuno Guerreiro, Sara Tavares, Luís Represas, ou mesmo os “dinossauros do rock” Scorpions. Toca clarinete.

David Ferreira, pianista, estudou na academia de Música de S. Pio X, em Vila do Conde, onde em 1997, com o professor Felipe Nabuco-Silvestre, concluiu o curso complementar de piano com 18 valores”. Agora, destaca-se no seu currículo ”recitais a solo e música de câmara em várias cidades de Portugal, Madrid (Universidade de Alcala), Berlim (Hochschule der Kunste), Riba del Garda (Itália) e recentemente em Atenas.

Rosa Maria da Silva Oliveira, “iniciou os seus estudos musicais como aluna de guitarra”. Mais tarde iniciou o estudo do saxofone na Escola de Música da Sociedade Filarmónica de Crestuma, ingressando logo de seguida no Conservatório de Música do Porto na Classe do Prof. Francisco Ferreira onde concluiu o 8.º Grau com a classificação final de 18 valores. Faz parte do quarteto de saxofones Unisax com os quais fez alguns concertos de destaque: Museu do Carro eléctrico, palácio da Bolsa, RTP, SIC, FNAC, etc.

São estes os três elementos dos Sotto Trio. O “intruso” que se vê na foto, responsável por ler e virar pautas, é Samuel Bastos, maestro da Banda Oliveira. Na passada quinta-feira à noite, deram um interessante concerto no auditório da Biblioteca Municipal, apresentando um programa em crescendo de vivacidade. Poderemos dividi-lo em três partes. A primeira, mais calma, iniciou-se com saxofone e piano nas interpretações de Suite Romantique (Planel) e à La Russe e À La Espagnole (ambas de Dubois). A sobriedade e contenção adequam-se ao estilo. O clarinete surgiu para as Danças Romenas (Bela Bartok) numa “segunda parte” de curtas peças: Joc Cu Bâtá; Brâul; Pe Loc; Buciumeana; Poarga Romanesca; e Maruntel. Clamavam festa numa rua qualquer cheia de gente. A disposição em trio acontece em Vocalise de Rachmaninoff. A terceira e última parte, mais longa, enche-se de vida com as interpretações de Astor Piazzolla partindo-se da tristeza para a força dos metais. Piazzolla adquiriu o respeito dos clássicos. Das interpretações brota uma ideia de liberdade de execução em construções muito próprias do autor. Verano Porteño, Outono Porteño, Invierno Porteño e Primavera Porteña foram os temas apresentados. Tango com saxofone e clarinete é sempre diferente, mas não faz esquecer o som carismático do bandoneon… Foi a melhor parte do concerto. No final, foram entregues ramos de flores. Vermelhas, claro.

O programa das Quintas Feiras Musicais prossegue no dia 28 de Abril com o concerto do quarteto de cordas Aquarelli.

abril 2005


Concerto de Sikhara no auditório da Biblioteca
A maquinaria infernal

Talvez não fosse o auditório da Biblioteca Municipal o melhor local para a vertigem sonora dos Sikhara: demasiado quente, demasiado confortável, demasiado pequeno, demasiado auditório. Mas justificava-se. Na mesma noite (antes do concerto) foram exibidas sete curtas-metragens produzidas pela “Filmes da Mente” (algumas com títulos tão sugestivos como “A história do excremento, do preservativo e da minhoca”), e o “encontro” dos apreciadores de cinema alternativo (promovido pelo Cineclube da Associação Zoom) acabou por trazer consigo um projecto musical também “da mente”. Praticamente desconhecidos, os Sikhara nada devem à vulgaridade. Trata-se de um projecto rotativo liderado pelo norte-americano Scott Nydegger, actualmente secundado por Gustavo Costa e Yann Geoffriaud, que assinala já mais de 200 concertos nos E.U.A., na Europa e no Japão. A invulgaridade reflecte-se igualmente nos locais insólitos onde têm actuado: em frente a uma esquadra da polícia em Istambul (Turquia); numa mina de carvão (Polónia); numa estação de metro abandonada em Linz (Áustria); ou num templo Zenjouki com mais de 1400 anos em Kobe (Japão). A ligação à “Filmes da Mente”, ao Porto, e o facto de um dos elementos ser português (Gustavo Costa), trouxe-os a Barcelos para uma dose de noise electro-acústico desmesurado.

Como escreveu William Blake, “o caminho do excesso leva ao palácio da Sabedoria”. Muitos o seguiram no excesso. E muitos também o seguiram na sabedoria. De certo, sabe-se apenas que o excesso (a demasia) converte-se numa hipnose capaz de catapultar (de repente) o indivíduo para um transe que acaba por o deixar absorto. “Demasia” parece ser a palavra certa para, de uma só vez, descrever o apetite voraz por ruídos infernais e por batimentos cardíacos mentalmente destrutivos. Até porque, a “viagem” dos Sikhara, que se desenrola maquinalmente pelo mundo através de cânticos e timbalões, acaba por ser uma constante agressão de pesadelo numa queda horizontal que nunca mais acaba. Mas que, ao mesmo tempo, prende, enfeitiça e abre a mente (mesmo à força).

O transe é provocado pela maquinaria em permanente actividade vulcânica (sampler, drum machine, faixas pré-gravadas), em fusão com samples de cânticos tribais e folclóricos (recurso a recolhas de Giacometti) e com ruídos pouco concretos. A isto acrescente-se duas figuras (espécie de tramboleiros estranhos do caos industrial) a “agredirem” timbalões com ritmos saídos de uma máquina tribal. O líder do projecto, o norte-americano Scott Nydegger, revira os olhos como um danado asfixiado, na ânsia de um ataque epiléptico ou de uma libertação de raiva. A figura prende o olhar, como um louco. Talvez tenha sido uma das coisas mais estranhas que passou pelo auditório da Biblioteca Municipal. O que é bom sinal.

junho 2005

 


7.6.05

O primeiro concerto de Biarooz
O movimento das coisas

Há no ruído da esplanada uma mistura de resquícios electrónicos de um sample partido em sonoros fragmentos cósmicos. Há na Rua Direita de montras de ambos os lados uma tela que esconde uma delas, perdendo os manequins a postura de estilo do peito para cima (uma visão propositada que se embrenha na indiferença). Há uma janela que se abre e abre os olhos para um movimento diferente na noite da esplanada. Há um “woooow” (tradução: um daqueles gritos típicos nos concertos de salas pequenas) que anuncia a chegada dos músicos, descontraídos, na pose comum de alguém que passa e espreita: “Somos nós?!”. Há um palco que atravessa a nocturna Rua Direita numa sexta-feira de movimento anormal (Feira de Artesanato? Rui Veloso?) que provoca o esquisito, desfeito pelo símbolo veraneante do evento Olá Barcelos (mais um). Há uma “invasão” de palco para a sóbria afinação e montagem de instrumentos e mais uma cerveja que se pede ao empregado antes que ela se perca na desorientação do avolumar de pessoas. Tudo pronto e começa o filme… (ou já teria começado?). A música de Biarooz parece fazer parte de toda essa agitação calma, como uma banda-sonora. O filme é urbano. O filme é Biarooziano. Constroem a banda-sonora perfeita para aquele momento – a expectativa parada na proximidade de pessoas sentadas. E ao mesmo tempo, transportam o movimento das pessoas que circulam ao lado para um écran imaginário de uma curta a preto-e-branco, em loop. E fazem-no com simplicidade. Numa mistura de electrónica (em apontamentos Múm ou Isan) e rock (pelas guitarras com distorção 80’s) perfeitamente enquadrável no amplo conceito de pós-rock. É isso mesmo: pós-rock.

As músicas têm uma particularidade interessante: parecem não ter fim. Parecem ser infinitas numa determinada frequência onde apenas se consegue entrar durante alguns minutos. De repente, sem saber muito bem como, regressa-se à frequência normal e deixa-se de a ouvir: a música termina. Continua infinita na imaginação espacial? Ou perde-se por falta de invenção?

As imagens projectadas ajudam a compreender a mecânica fantasiosa da música. Movimentos de aço descrevem o estilo cinema/banda-sonora: faíscas ruidosas de soldaduras artificiais; conta-gotas sonoros numa pandeireta Velvet; “melosidade” repetitiva em arabescos de “sininhos” e vibrafone; minimalismos de guitarras imbuídas numa massa cinzenta concentrada; duplicidade/cumplicidade de sons reverberados (demasiado) “lá atrás”; contratempos esquisitos com a simplicidade rítmica de uns Mogwai (só a bateria, mesmo); planícies sonoras rectilíneas cheias de luz; por vezes, um “feeling” J.J. Cale numa aceleração estranha quase punk; quebras imprevisíveis (também de um computador “teimoso”); alguns sons cósmicos e batidas cirúrgicas; e uma versão (repetida no “encore”) de “Gunnera” dos Isan, com uma guitarra “à frente” a lembrar melodias The Cure.

C. Ricardino, guitarrista dos Ribanceira, lidera o processo. Compôs as músicas e, do encontro com os restantes músicos, na adaptação do artificial ao acústico, nasceu o conceito corpóreo de Biarooz: José Novo (bateria); João Coutada (baixo); João Dias (guitarra) e C. Ricardino (guitarra). As músicas ainda têm títulos provisórios, ou talvez não: Xalita, tu alcançarás!; Lucas; Fuga; ou ??Scraage??. Quase no final do concerto, o acaso presenteou um número circense de Agosto. Dava para um novo título: “O cromo alucinado que fez malabarismos à frente do palco (à Bruce Lee) e grunhiu para lá umas coisas divertidas”. Surrealista? Quem viu sabe o que foi… Indescritível.

Eis os Biarooz. A prova de que em Barcelos continuam a nascer “coisas”… (A melhor designação: “coisas”. Pela estranheza e pela amplitude artística, antagónica ao funcionamento provinciano da cultura citadina. Por isso, as pessoas olham para elas como “coisas”. E, consequentemente, os músicos olham para essas mesmas pessoas também como “coisas”, embora num sentido bem diferente). E muito ainda há para dizer. Afinal, foi apenas o primeiro concerto… em movimento.

2005
Concerto de Aquarelle no Auditório da Biblioteca Municipal
O (clássico) silêncio incómodo

O silêncio, ou pelo menos a ideia abstracta que temos dele, é na maior parte das vezes algo que se implora aos “deuses” para a contemplação de sons leves, naturais e frágeis. É no duelo de charadas entre Benigni e o médico alemão em “A Vida é Bela”, “aquilo que quando dizemos o seu nome deixa de o ser” e não são raras as vezes em que não nos recusamos a pronunciar um “shhh” para a tranquilidade comunicativa da e pela música. Outras vezes, o silêncio é incomodativo. Ou então, um convite ao adormecimento pós-jantar. Exemplifique-se.

O silêncio é incomodativo quando nos deslocamos para ver um concerto numa quinta-feira à noite, no Auditório da Biblioteca, e deparamo-nos com meia dúzia de gatos-pingados. “Pouca gente” é sinónimo de silêncio. Um silêncio incomodativo. Pode-se ter a certeza disso. Embaraça os músicos porque representa menos palmas e embaraça o pouco público presente porque quase se sente culpado por isso. Pergunta-se, mais uma vez (porque o cenário repete-se): quando é que, nesta cidade (e noutras, já agora) a senhora música clássica despe o seu vestido brilhante de um século antigo, a cheirar a naftalina, e vai para as ruas, para os jardins, para os cafés, ou para outro sítio qualquer, ao encontro de um público que lhe foge? Exactamente como se faz em Londres, Paris, Berlim… (é assim tão longe?) sem vergonha de se tocar Liszt, Bach ou Beethoven de calças de ganga.

Incomoda também o silêncio dos atrasos e dos intervalos. O concerto pelo Quarteto de Cordas Aquarelle estava marcado para as 21h30 e começou pouco antes das 22h00. É um atraso normal quando se espera pelo público. Acredite-se, não vale a pena. Não vale a pena trocar minutos de ansiedade dos músicos pelo tempo “precioso” de um público que não vem. (Quem é o artista, afinal?) Nem vale a pena fazer intervalos de 3 minutos (na realidade foram mais) para revelar atrás da porta dos bastidores tentativas de silêncio, tiques de ensaio, e tensão pré-execução. Não há público que chegue para abafar esses “ruídos”…

O que valeu a pena, mesmo, foi quando não houve silêncio. Quando Vera Sousa (violino), Daniel Ferreira (violino), Carina Rocha (viola) e Raquel Ribeiro (violoncelo) entraram em palco e atacaram as cordas na interpretação de Beethoven – Quarteto op. 18 n.º 4. E quando o pouco público presente bateu palmas, mesmo quando não devia, quebrando uma das “regras” dos concertos de música clássica. A interpretação de Quarteto op. 77 n.º 1, de Haydn, prevista para o início do programa daquela “Quinta-Feira Musical” foi trocada (com aviso prévio) para terceiro e último lugar. Permitam, no entanto, a intromissão: o que seria mesmo de espantar fantasmas de lugares vazios era a abertura com o Quarteto op. 108 n.º 7 de Schostakovich. Seria a banda sonora ideal, “hitchcockiana”, para descrever um auditório semi-vazio e os comportamentos de um “público ausente”, um público que se diz na maior parte das vezes “grande apreciador da cultura”.

Maio de 2005
Andanças – I Festival de Músicas do Mundo
“A hora mudou?”

Por vezes os títulos querem representar mais do que realmente o são, ou então, condenam o povo à contemplação de uma máscara “daquilo que se quer que seja”, em detrimento “daquilo que na realidade é”. USANÇAS – I Festival de Músicas do Mundo é um exagero de referências. Mas não de intenções. Tenciona ser um evento de referência musical popular de Barcelos em consonância com a Festa das Cruzes (afastando-se, ainda bem, de territórios pimba) mas não passa de mais uma série de concertos de uma noite qualquer da romaria, em absoluta submissão à “lei” do fogo de artifício da meia-noite. Por um lado, USANÇAS aparenta ser uma ideia atravessada pelo conceito do ANDANÇAS chegando-se perto deste apenas pela similitude do nome. Por outro lado, o subtítulo “I Festival de Músicas do Mundo” parece ser demasiado amplo para retratar uma noite com duas bandas de música tradicional portuguesa bem distantes entre si, quer em estilo, quer em qualidade, e uma banda de música tradicional galega com raízes mais próximas de Portugal do que do resto do mundo. Mas, a intenção é boa. Principalmente se, para o ano, se tornar realmente um festival com várias “músicas do mundo” e se se tornar a referência musical por excelência da Festa das Cruzes. Se o povo, eterno apreciador de fogo de artifício, o merece ou não já é outro assunto.

No programa da Festa das Cruzes, do dia 30 de Abril de 2005, lê-se “24h00 – Fogo do Rio – Ponte Medieval, com as margens do rio Cávado iluminadas por milhares de “lumes vivos””. Para a grande maioria de barcelenses é isto que realmente interessa. Toda a gente sabe disso. Quem o deve saber muito bem também é o “azarado” Félix – o Fora-da-Lei que numa das edições anteriores, enquanto apresentava mais um “blues minhoto”, deixou de se ouvir e ficou sem ninguém na assistência quando estourou o primeiro foguete à meia-noite. Para evitar situações incómodas (e porque se aprende também com os erros) arranjou-se a solução “brilhante” da antecipação dos concertos. E o que aconteceu foi o seguinte: às 21h30, os Arrefole já terminavam a sua actuação quando no programa das Festas o início do concerto (e do USANÇAS) estava marcado para as 22h (“a hora mudou?”)! Pelos vistos, além de não poder haver música durante a “foguetada” também não pode haver música depois dela… tem de acontecer tudo antes.

Assim sendo, em respeito pela “abençoada chuva de estouros” o concerto dos Quadrilha terminou precisamente à meia-noite em ponto. Durante cerca de uma hora, a banda de Sebastião Antunes salvou o USANÇAS da pura vanidade. O público (aquele que não procurava um lugar cativo para assistir ao fogo) aglomerou-se junto ao palco, acompanhou a energia do carismático vocalista, e não faltaram vozes a acompanhar as letras mais conhecidas (pelo menos, o “Ai Caramba!” era inevitável) e os habituais “artistas” do público que (nunca se percebeu muito bem porquê) inserem o pino e outras acrobacias em movimentos de dança exibicionistas. A actuação dos galegos Xistra de Coruxo ficou-se na positiva por um interessante clarinete, uma peculiar sonoridade grave (só por isto mereciam um som muito mais forte), e pela simpatia.

Maio de 2005
Concerto de Bildmeister no Subscuta
Guitarras ao alto e fé em Deus

11 de Março de 2005. Dia eleito, em "espírito de pomba branca", feriado "funeralesco" por um atentado terrorista na vizinha Espanha. Pedem-se minutos de silêncio. O horror à violência e o "medo pelo medo" querem-se transportados da imagem televisiva repetida para o dia do indivíduo, quer isolado, envolvido nos seus pesadelos, quer social, numa cadeia de medos em quedas de dominó. O livro do filósofo José Gil, "Portugal hoje: o medo de existir", alcança um número de vendas surpreendente e promove a questão: o livro (entenda-se qualquer um) "inscreve-se" realmente, de uma forma ainda invisível, na mentalidade da sociedade portuguesa, ou a sua inscrição opera apenas a nível das bonitas prateleiras e das estatísticas? Mas isso é outro assunto… Na passada sexta-feira, preparava-se um atentado neste "país de medos". Numa cidade nortenha, conhecida pela "terra do barro" (porque o galo já é de todos), por volta das 22h, ultimavam-se os sigilosos preparativos para uma grande explosão capaz de dizimar cerca de 70 pessoas (poucos mas bons) em apenas cerca de uma hora. E nada parecia estar a ser feito para prevenir tamanha "desgraça". Os quatro "terroristas" escolhidos para a operação Bildmeister entraram silenciosamente no palco do Auditório da Biblioteca Municipal sem que ninguém os impedisse. Com a maior das calmas, devidamente disfarçados de pessoas normais e inocentes, actuaram como se nada fosse, descontraidamente. Agarraram na ponta dos cabos na semi-escuridão e… BUM! Guitarras ao alto e fé em Deus (seja Ele quem ou o que for) … Hugo Ramos e Nuno Santos, os "terroristas" mais temíveis, pouco dados a melodias (excepto quando cantam), disparam feixes de energia eléctrica através de guitarras destrutivas em curiosos devaneios sónicos (com feedback à mistura) e em fortes jogos cruzados de solos e riffs estranhos (com wha-wha, por vezes, a perfurar os tímpanos). Puro rock. Sem slows, e a repetir-se indefinidamente até acabar o ingrediente explosivo. No entanto… há ali uma qualquer lacuna entre a canção de garagem e as interessantes incursões no rock experimental, quase psicadélico. As vozes implodem. Possuem aquele “nhe nhe nhe” lamechas típico de alguma malta indie que não se cansa de espremer borbulhas pop. O que não deixa de ser um bom disfarce. Para quem gosta, claro. Gil Ramos e João Vitorino não perdem tempo e reforçam a intensidade da explosão. Firmes nos poucos ritmos que simplificam, e nas lineares figuras geométricas que engendram, correm sempre na mesma direcção: para a frente. Nem que seja a fugir do próprio feedback (“O feedback anda atrás de ti!” – gritou alguém do público).

Permitam-me a metáfora. Lembram-se do "artista" apanhado no Gente Gira, que depois de unir os fios e de ver o prédio a ruir, os desune numa tentativa oca de remediar o erro cometido? Ora, os Bildmeister desunem os fios e constroem o prédio novamente. Ameaçam a demolição, mas realmente nunca o fazem. Viajam pela música em loop. Quando acaba a dose forte de distorção volta tudo ao início para mais uma viagem. Não quebram limites, mas quase. Falta-lhes ainda o ingrediente de passagem para o "outro lado". E denunciam-se interessantes pela seguinte fórmula: quanto mais experimentalistas, ruidosos, repetitivos, psicadélicos e monocórdicos, mais próximos dos mestres. Com certeza, não terão dificuldade em desfazerem-se do intenso nevoeiro londrino nas suas próximas investidas explosivas.


Março 2005
Concerto de Dead Combo no Auditório da Biblioteca
Encontro de anónimos

Primeiro chegou o Gangster. Depois o Gato-pingado. Dois personagens emergentes de uma BD do “fadoeste”, acordados, de repente, numa cidade esquecida e fora do tempo. Um de aspecto mafioso, fatinho às riscas a condizer, e óculos escuros; outro, circunspecto, de sapatinho branco, calça justa vermelha e uma cartola vadia a esconder os olhos. Estavam feitos. Ambos tinham sido incumbidos de accionar a máquina de desintoxicação de música feia e fraca dos ouvidos de todos os presentes no encontro de anónimos. O primeiro muniu-se de quatro instrumentos fundamentais: o contrabaixo, a melódica, a guitarra “eléctrica cadente”, e o kazoo. O “cartolas”, conhecido por envenenar o demónio “cámuitapinta”, muniu-se de quatro guitarras “eléctricas cadentes” bem reverberadas. Abriram a mala, retiraram um embrulho, e despejaram logo pelas goelas a baixo um forte trago de “Rumbero”. Efeito imediato. Neles e nos outros. O Zé foi o primeiro a intervir. Depois o Asdrúbal. Embora talvez nenhum deles se chame, nem Zé, nem Asdrúbal, estavam decididos a chicotear as palavras e a atiçar o fogo artístico dos protagonistas da noite: “onde é que isso está à venda?”. Com a simples pergunta quebraram-se todas as regras do encontro de anónimos e decidiram partir para o universo Dead Combo, para mais um trago daqueles. (A descrição que se segue pode provocar a mais severa alteração na interpretação dos leitores.) Em poucos minutos chegaram à Rua das Chagas – a rua que “dantes dava para estacionar o carro, e agora já não dá” – e perto da esquina da famosa encruzilhada abriram-se as portas de Dead Combo. O Zé entrou pela Janela (Mediterrânica) e deu logo de caras com a alucinante Eléctrica Cadente: “ou és tu que estás atrás de mim, ou eu atrás de ti”. Ofuscado pelas luzes vermelhas soturnas, acalmou-se. Quebraram-se as tendências, despejou-se a electricidade, e sob suspeita, uma voz feminina interveio para desfazer o duelo. Uma voz saiu do palco: “A menina dança?”. Claro. Atraídos pelo aroma dançante aproximam-se os outros: Mr. Eastwood, o Pacheco (de melódica debaixo do braço) e o espírito de Carlos Paredes. E saiu mais uma Rodada (de saias). Em homenagem a Paredes, o Gato-pingado ajoelha-se a contorcer-se com a guitarra e murmura: “espero que vocês gostem e que Ele me perdoe”. O demónio observava-o. No final da imolação, Paredes apareceu mesmo e sentou-se na mesa do solitário Ribot, precisamente no lugar da Ana que foi para Angola. Entretanto, o Zé perde a luta. Morre de amores de Verão recordando Mujitos Summer e quando dá por ela é atirado porta fora com um soco dos grandes: “Esta é mesmo para ti, ó Zé!”. O Gato-pingado não estava para brincadeiras. (Nunca mais se ouviu falar do Zé a não ser para o próprio confessar que tocava gaita-de-foles). Entretanto, pela janela entra um outro conhecido: Tom Waits. Senta-se na mesa de Ribot e Paredes e pede uma rumba de si próprio: “Temptation” com maraca a bater nas cordas da guitarra e kazoo. Paredes, por sua vez, pede mais um prato de miolos de Morricone com fado para um Tejo Walking e Ribot repete a dose: “mais uma rodada de Rumbero”. Em brinde. O universo vermelho Dead Combo acabava de fechar.

Os Dead Combo são apenas dois: Pedro V. Gonçalves (o Gangster) e Tó Trips (o Gato-pingado). E chegam. Estiveram na passada sexta-feira à noite, de Subscuta, a tocar para um público entusiasmado e apreciador. Ficaram as fotografias de momentos faustosos: Temptation (versão de Tom Waits); Mujitos Summer, Ribot, e Paredes Ambient. Ficaram as poses de verdadeira dimensão artística. Ficaram as palmas reveladoras. Os Dead Combo não estão à espera que o resto acorde. Estão muito à frente.

Março 2005
Concerto de Dazkarieh no Auditório da Biblioteca Municipal
Bálsamo de instrumentos esquisitos

Há imagens difíceis de apagar da última sexta-feira de Subscuta. Uma delas: o desfilar sonoro de um ou outro instrumento esquisito por músicos multi-instrumentistas. Outra: o deambular de corpos à frente do palco, em ritmo de dança, como sombras à frente de uma tela de cinema. Ainda outra – uma imagem imaginada: noites de Verão algures numa terra de Portugal profundo, num festival de gentes (fora do circuito artificial de Festivais de Verão), moda hippie ao rubro, tendas por todo o lado… E o que é que isto de “imagens” quer dizer? A primeira quer dizer que os quatro elementos dos Dazkarieh são bons músicos. Com uma margem de progressão considerável, é certo (ainda são novos e o estilo musical é exigente), mas com habilidade e gosto para os toques tradicionais da música do mundo em trânsito pela folk irlandesa, música celta, folk nórdica, música de leste, do mediterrâneo e, principalmente, tradicional portuguesa. Muitos estilos fundem-se. Além disso, não será à toa dizer, por exemplo, que há traços rock na forma de tocar bouzouki irlandês. Aliás, é como ouvir composições medievais de Kapsberger e descobrir como é que se herda arranjos com centenas de anos em guitarras eléctricas (à) Led Zeppelin. Há quem estude isso… Seja como for, seria quase uma não-descrição do concerto omitir neste texto a apresentação dos músicos e dos instrumentos: Vasco Ribeiro Casais: bouzouki grego, flauta transversal, gaita de foles e nyckelharpa; Helena Madeira: voz, bendir e kalimba; Luís Peixoto: bouzouki irlandês, bandolim, voz e cavaquinho; Baltazar Molina: cajon, darabuka, riqq, bendir, tar e adufe.

A segunda “imagem” quer dizer que o público do Subscuta perdeu a vergonha e foi para a frente do palco fazer aquilo que, mais do que atenção, aquela música merece: dançar. O desafio de Helena Madeira, de muletas, foi decisivo: “eu não posso dançar mas vocês podem”. Haja gente sem vergonha! Ou “roubando” a expressão de um pensador em voga: haja gente sem “medo de existir”. Com meia dúzia de dançarinas (não eram de Barcelos, de certeza) o concerto ganhou uma nova dimensão, apesar da falta de espaço (será que vai ser assim no concerto dos Terrakota?), e por momentos até se pensou que a malta de Barcelos, que durante tanto tempo, por vergonha ou sabe-se lá o quê, ia ver concertos atrás da mesa de som, conseguisse, finalmente, ultrapassar totalmente o medo do palco. Bastaram-se com palmas. Muitas palmas. Palmas responsáveis pelo encore da banda e pelo melhor tema da noite.

A terceira imagem quer dizer que não se acredita que ninguém não tenha imaginado um festival no Verão ou outra coisa do género para compor o cenário envolvente do palco e da plateia. A música dos Dazkarieh transporta toda a energia e calor (a música celta é a eterna culpada, pela energia) e a fuga de verão para um lugar longe do urbanismo-depressivo da cidade. Por isso, é um bálsamo sonoro de Verão. Um bálsamo de sonoridades próximas… por instrumentos esquisitos.

Abril 2005


Concerto de Dr. Frankenstein no Subscuta
E o monstro tornou-se doutor

O monstro tornou-se “soutor” (leia-se sr. doutor). Frankenstein, a elegante e musculada criatura de laboratório de parafusos nas têmporas, terminou finalmente o curso de surf rock revivalista dos anos 50/60, com especialização em guitarra eléctrica Telecaster (de alavanca), variante Dick Dale and His Deltones. Na persistência da comprovação de que o cérebro não é feito apenas de parafusos, porcas e molas, estudou e pós-graduou-se em bandas sonoras de filmes de série B de qualidade mais que duvidosa. Hoje possui um currículo de respeito: dez anos de “estudos”, participação em compilações (Portugal Rockers, Supermarket Music, Cais do Rock); e “certas e determinadas edições” (“The Lost Tapes From Dr. Frankenstein’s Lab”; ou “The Psychotic Sounds of Dr. Frankenstein”).

Na passada sexta-feira 13 (!), noite de bruxas, o proclamado dr. (provavelmente perdido em saias de magas de Vilar de Perdizes), por não possuir o dom da ubiquidade, não se apresentou na sua figura magnânima para uma aterrorizante noite de Subscuta. Ao invés, deixou-se transparecer por três figuras humanas: André Joaquim (guitarrista “a sério” com repa rockabilly e Telecaster com alavanca para “surfadas” de puro rock n’ roll; Pedro Rolão (contrabaixista feito, em olhares de canto para malabaristas “fatfredianos” pouco dados a “doutoradas”); e André Marques (baterista a precisar de uns parafusos a menos no instrumento, i. é, a precisar de uma bateria com menos timbalões). As restantes duas figuras (existem dúvidas sobre a sua verdadeira natureza humana… zombies?) foram desalmadas por uma bruxaria de ausência: a menina de saia, de style negro de anos 50, apareceu de vez em quando para tocar teclas retro como quem joga Spektrum nos dias de hoje (há algo mais kitch?); o rapaz da guitarra eléctrica azul-bebé (Fred Baltazar) auto-desalmou-se e eclipsou-se quase sempre, disfarçando a ausência numa mecânica de dedos para acordes standard. A bruxaria de sexta-feira 13 é impiedosa…

O doutor Frankenstein gosta de vincar o instrumental (ou melhor, o instru-Mental) e preparou a tese para cerca de uma hora de engates musicais, sem instruções, e com uma dificuldade acrescida: fazer uma banda-sonora para um filme… mas sem filme (daí a parte mental do instrumental). Assim sendo, os músicos tiveram de fazer uma banda-sonora para um filme imaginário, e o público teve de imaginar, através da música, o filme imaginário. Confuso? Levanta-se a questão: será o filme o mesmo? É uma incógnita… Mas, algumas cenas imaginadas podem ser iguais: aquela em que Travolta e Samuel Jackson (dupla Pulp Fiction), depois de uma “surfada” nas águas propriedade do “Monstro da Lagoa Negra” sofrem uma valente congestão mental (quase mortal) por terem comido o pudim do anúncio “O Boca Doce é bom é bom é”; e aquela em que o 007 e a Teresa Salgueiro, dos Madredeus, dançam uma versão de “Vem (Além de Toda a Solidão)” saída de uma jukebox propriedade de Nosferatu, o verdadeiro apresentador do Festival da Eurovisão. A esta hora, o doutor Frankenstein, o Dick Dale, o Ed Wood, e o Tarantino devem estar a fazer um brinde num sótão qualquer… e o Silva (que veio ao Subscuta pela primeira vez), a nova personagem da plateia, o grande cabeçudo, o parecido-com-o-Paulo-Portas-se-tivesse-o nariz-maior, o quase-gigantone, ainda deve estar de olhos revirados à espera de ver Dr. Frankenstein num palco grande.

Maio 2005
Concerto de Fat Freddy no Auditório da Biblioteca
A loucura de estar Subscuta

Às 22h15 o Auditório da Biblioteca estava cheio. Luzes apagadas. Ruído baixo de vozes. Beth Gibbons de fundo. Os instrumentos preparavam-se no palco: o contrabaixo, a bateria, e duas guitarras eléctricas. Havia ânsia no público na acomodação pelo assento. Poucos minutos antes, enquanto se vendiam bilhetes descontraidamente, fumavam-se cigarros à entrada e trocavam-se palavras redondas de expectativas. Ao frio. Talvez não soubessem que o bar da Biblioteca, situado na sala onde normalmente se realizam exposições, se encontrava em funcionamento desde as 21h. Eram as caras dos concertos barcelenses (quer no palco, quer fora dele) e dos cafés nocturnos que fecham cedo de mais. Eram as conversas dos apreciadores de música, daquela que se entranha energicamente na agressividade eléctrica de uma guitarra obedecendo, por vezes, à vontade de pertencer a algo mesmo antes de se aprender a tocar. Eram as gerações distantes que se aproximam e comunicam graças a um elemento comum: o rock – seja ele rockabilly, progressivo, punk, alternativo, metaleiro, pop, ou pós. Eram as expressões de ânimo que deixavam transparecer, com um leve sorriso, qualquer coisa parecida com: “finalmente há música para nós em Barcelos”. E, mais importante, “quase todas as sextas-feiras” (poder-se-á, pela banda-sonora, retirar o “quase”?).

Às 22h20 os três elementos dos Fat Freddy estavam no palco. Agitados. Nádegas nuas dançavam na tela ao ritmo do fanfarrono tema gravado de apresentação. A “nave espacial” preparava-se para levantar sob o comando de uma guitarra “speedada” de olhos esbugalhados. Mas, sem avisar, um amplificador de guitarra Orange teimoso (terá adquirido vontade própria?) deu o início em seco. O público reagiu. Os Fat Freddy também. Desafiaram logo alguém da plateia para improvisar um número de stand-up comedy para disfarçar a falsa partida. E atiraram um irónico lacónico: “Peço imensa desculpa pela falta de profissionalismo”. Resolvido o problema, o Auditório encheu-se de som forte. À primeira música o guitarrista já estava de joelhos a contorcer-se. À segunda o baterista já dava “baquetadas” nas cordas do contrabaixo. À terceira, o público da primeira fila já se sentia “ameaçado” pelos movimentos do contrabaixista. Não é fácil descrever o estilo. Rock? Disco? Funk? Electrónica? Kraftwerk? Rockabilly? Punk? Kusturica? Frank Zappa? Jazz? Tom & Jerry? Inspector Gadjet? “Ambulância Blues”? “Electrocabaret”? Uma coisa é certa: não há slows. Cada música tinha retalhos cinematográficos de fundo: ficção científica “pré-histórica”; filmes de terror Série B; filmes de filiação fantástica (Fantasporto!); monstros de plástico; robôs dos anos 80; Batman e Robin; aparições Kraftwerk, entre outros (porque, tendo em conta a aceleração constante, não era possível estar atento a tudo). Há ainda tempo para malabarismos com o contrabaixo (por cima e por baixo) e desafios ao público (“Vamos tocar a próxima”). São bons músicos. Demonstraram o que sabiam sem exagerados virtuosismos. O que é bom. E um excelente começo para o Subscuta. Um começo louco. O público aplaudiu fortemente.

Na próxima sexta-feira saltam para a cena os Bildmeister. Rock forte e repetitivo. Electricidade q.b. Chega a ser hipnótico pela agressividade e reporta o ouvinte para universos bem próximos do alternativo americano descendente de uns Sonic Youth. Assim auto-descrevem-se: “As melodias estão cada vez mais simples deixando lugar para mais volume, sons intensos e distorcidos, mapas sonoros onde as estradas são quase sempre a direito e feitas a grande velocidade. As paragens servem apenas para recomeçar….” Não há tempo a perder.

Março 2005

Concerto de Old Jerusalem no Subscuta
“Uma espécie de experiência”

As palavras são precisas. Tão precisas quanto os sons, a matéria acústica de que são feitos, e aquilo que faz do Homem uma criatura que cria: a ideia. As palavras de Francisco Silva (Old Jerusalem) fazem as frases soltas que ficam: “uma espécie de experiência”; “nunca tocámos juntos”; “um processo de recriação das músicas”; “pode ser uma porcaria”. Juntas (as frases) anunciam a ideia: fazer uma espécie de concerto-ensaio-improviso-de-canções. Ou seja, ao corpo acústico das canções de Old Jerusalem, à simplicidade da guitarra e da voz de Francisco Silva, é adicionado o condimento arriscado de uma outra plataforma acústica sob o comando de Ricardo, percussionista dos Mandrágora: um batuque, um timbalão, um bombo popular colorido a servir de bombo de pé; um prato; e um instrumento com uma sonoridade deliciosa, que tão bem fica em “Earlier The Lake Today”, e que provoca, sem se perceber muito bem porquê, alguns sururus e sorrisos-chop-soy na plateia.

Perigosamente, as palavras ribombam para uma interrogação insistente: “nunca tocaram juntos?”; “recriação de músicas (já tão bem criadas)?”; “pode ser uma porcaria?”. A desconfiança adquire o lugar da aceitação livre do improviso. Principalmente, pela música tão intimista, de quarto, por vezes suave demais para um batimento cardíaco, e repleta de subtilezas inimigas da sintonia improvisada. A memória vem como um consolo, fosse qual fosse o resultado da “espécie de experiência”: os mestres Carlos Paredes e Charlie Haden juntaram-se para o improviso, gravaram um disco, e raramente se “encontraram”. Todavia, a música nunca deixou de o ser, as ideias não se desfizeram e os músicos nada perderam. O encontro valeu mais do que tudo. E, de “portas abertas”, a ideia flúi…

O concerto desliza em toques de geleia country-americana e respira quase em exclusivo o último trabalho (de “nome pomposo” e “muito arty”) “Twice The Humbling Sun”, sucessor do primeiro “April” (primeiro num duplo sentido: como marco na estreia do projecto Old Jerusalem; e como álbum eleito por muitos, e pela imprensa nacional especializada, o melhor do ano). Aliás, já não há espaço para “April” e para músicas como “Wither”, “Stroll”, “Beauty is a Tear”, ou “Is This April?”. Desapareceram do rol. Mas deixaram um rasto misterioso em “Twice…”, pairando no ar a dúvida se foram abandonadas e consumidas pelo tempo, ou se foram incorporadas subtilmente no agora. Ou então, se foram alvo da decisão madura aludida no verso de “One, I Should Know You”, a segunda música do concerto e a sexta do disco: “find the wisdom to say “fuck it” or “keep it”. “Twice…” dá a resposta. Basta ouvir “180 Days” (tão próxima da sonoridade rítmica de “Stroll”) ou a bela frágil “Earlier The Lake Today” (tão próxima da ambiência melancólica de “Call”).

Em palco, a densidade sonora do disco não se repete. Os pequenos apontamentos de outros instrumentos e as ambiências atmosféricas sintetizadas transferem-se, numa “espécie de experiência”, para a ideia que temos delas. Todos os cuidados ficam entregues à magnifica voz de Francisco Silva. Além disso, há mais espaço para as palavras, para o bater do pé, para desencontros nos finais das canções, para a exposição da obra alheia, para um “dasss” irritado, e, em suma, para o conceito de concerto intimista. Afinal, as palavras não são assim tão precisas… em palco há algo que não se explica.

Maio 2005