um blogfolio de coisas sonoras

22.6.04

Exposição de Mica Costa Grande na galeria Dimensão
A “viagem” da Dimensão e a dimensão da Viagem

Entra-se na loja. Sobem-se umas escadas para o primeiro andar e ainda outras para o segundo. Abre-se a porta e entra-se na sala. E, desde logo, este pensamento pode ocorrer e ser comum a muitos visitantes: “excelente espaço para fazer uma exposição… e não só”. A nova galeria Dimensão, situada na Rua D. António Barroso (Rua Direita), tem uma linha arquitectónica interior cativante. Antiga e a precisar de obras. Mas, é precisamente esse “precisar de obras” que lhe dá um aspecto artístico interessante e uma importante ideia de (re)criação do espaço e da sua (possível) dimensão. Falta-lhe a música, o café e, mais do que o “passar”, o “estar”. Alguns requisitos essenciais para um espaço cultural e artístico que se procura cada vez mais e que Barcelos tanto carece e merece. Uma possível, ou melhor, nada impossível “viagem” da Dimensão.

Desde o passado sábado que nela se encontra, pela primeira vez, uma exposição – “Tibete, Ladakh e outras fotografias” do fotógrafo barcelense Mica Costa Grande. A dimensão da Viagem revela-se nas imagens: paisagens das magníficas montanhas dos Himalaias onde construções humanas (mosteiros tibetanos) se incorporam e se relativizam; rostos enigmáticos cinzentos e outros sorridentes, donos de uma espiritualidade imensa; cores alegres de um “paraíso escondido” que só não consegue “esconder-se” da ocupação chinesa; encostas rochosas adornadas com pinturas e bandeiras rituais. Um “paraíso” fascinante. Certamente muito mais fascinante para o autor das fotografias. Porque o conhece e percorreu. Porque, também, a dimensão das viagens reflecte-se no fascínio pelo mundo e em especial pelo Tibete.

Mica Costa Grande foi professor de fotografia na Escola de Artes do Instituto Politécnico de Macau, entre 1990 e 1997, e colabora, na qualidade de fotógrafo free-lancer, em diversas publicações na Europa e Ásia. Além de várias exposições em Macau e Portugal, destacam-se as viagens: viagem terrestre (numa auto-caravana) pela Rota da Seda entre 1984 e 1986; expedição ao Planalto Tibetano (3 meses de camião) em 1992; cordilheira dos Himalaias, Ladakh, e Índia em 1991; Palau e Atol de Kayangel (ilhas do Pacífico) em 1994; floresta tropical do Bornéo e Monte Kota Kinabalu em 1996; subida do Rio YangTze e Montanha Amarela em 1998; travessia do Planalto Tibetano – Lhasa-Katmandu em 1998; Malásia Ocidental em 1998; início da viagem terrestre de volta ao mundo (num Toyota Landcrusier 100) por Macau, China, Laos e Tailândia em 2000; Cambodja e Birmânia de bicicleta em 2000; S. Tomé e Príncipe em 2002; Europa de Copenhaga a Palermo e de Budapeste a Lisboa em 2002; e planeia em breve completar a volta ao mundo com o seu novo camião, o “Bartolomeu” – apresentado recentemente no programa televisivo Herman Sic.

A exposição contém apenas 28 fotografias – ampliadas e transformadas. Podem, juntamente com outras, ser encontradas no sítio www.ritosdepassagem.com. O autor prevê, ainda para breve, o lançamento de um livro intitulado “Tibete”, com textos do diário das viagens e um considerável número de imagens.

janeiro 2004

Três exposições de Mica Costa-Grande
Dos horrores às cores

São três exposições completamente distintas. Na Sala Gótica (Câmara Municipal), cinco polaróides recriam a “galeria de horrores” da colecção de deformidades de Motecuhzoma, “o último imperador azteca aprisionado por Cortêz”: “estropiados acidentalmente”, “monstros de nascença”, figuras disformes para exposição que chegavam a custar somas fabulosas (“certos pais chegam a desejar pôr no mundo um monstro para ficarem ricos”). As cinco polaróides quase que suavizam por completo as figuras (de)formadas envolvendo-as num esbatimento enigmático (propositado?) a preto e branco, com pormenores em tons sanguíneos e purpúreos. A impressão a cera sobre tela aproxima as imagens da pintura. Percebem-se os contornos de um corpo inclinado para trás, uma mão que parece perfurar a pele, um estranho mamilo, um olho/umbigo inumano… as faces ocultas acabam por resumir-se a formas distorcidas abandonando o observador à experimentação da sua própria imaginação (e à dúvida).

Na Galeria Municipal, duas esculturas “abrem as portas” do Oriente, um “Oriente Íntimo”. Algumas fotografias já haviam sido expostas, há alguns meses atrás, na Galeria Dimensão: paisagens (o típico pôr-do-sol oriental), tapetes coloridos, rostos, construções em montanhas rochosas, templos. Um cenário repleto de cores (suspeitamente “amplificadas”). A diferença é marcada por objectos e pormenores. Raios de luz que entram geometricamente no espaço reservado, iluminando os objectos de retoques dourados (a leveza do fumo sugere aroma). Um rosto esbranquiçado de lábios vermelhos em formas esculpidas de amores de boneca. O laranja de colunas a sugerir movimento num contraste de sombras. Um guerreiro em desenho branco de formas “semi-sumo” de espada na mão. Vermelhos (mais do que) vivos, de paredes e objectos, cortados obliquamente pela luz. Rostos enrugados na zona dos pequenos olhos e rostos de putos sorridentes. Caligrafia vermelho-sangue de um esquisito alfabeto oriental. Um curioso papel de jornal na parede, um corte de cabelo reflectido num espelho já gasto. Os pormenores de caixas, de letras descoladas, de uma chave estranha, de um puxador. Esculturas alteadas por papéis. E cores, muitas cores. Um contraste quase absoluto e, ao mesmo tempo, artificial.

Lá fora, na Praceta Sá Carneiro, o famoso camião do autor das exposições, Mica Costa-Grande (fotógrafo aventureiro), expõe-se à chuva antes da partida (em breve) para as Américas. A exposição do veículo intitula-se “Meninos preparem a mochila” e completa-se num dos “cantos” do “Oriente Íntimo”: fotografias de família em diversos locais do Oriente, retalhos jornalísticos (onde se incluem imagens no Herman Sic e onde se destaca a imagem “marca-TVI” de Manuela Moura Guedes), o mapa da aventura (entre 1985 e 2005), e fotos do interior do camião 4x4, simpaticamente apelidado de Bartolomeu.

As exposições “Colecção Motecuhzoma” e “Oriente Íntimo” podem ser visitadas até ao dia 5 de Setembro. O camião Bartolomeu pode ser visitado até… ao dia da partida. A aventura acontece mais uma vez. Boa viagem… 

agosto 2004
Exposição “O Cântaro em Portugal: formas e utilizações”
Um objecto-retrato do povo

O progresso ditou a entrega do cântaro de barro ao museu. O objecto que durante tantos anos assumiu um funcionalismo de relevo, quer na lide doméstica, quer numa actividade mais industriosa ou artesanal, vê a sua utilidade actual limitada ao estético e ao decorativo. Como forma de colmatar essa “perda”, numa espécie de “destino abençoado”, encontra-se patente na Sala de Exposições Temporárias do Museu de Olaria, desde o passado dia 3 de Fevereiro, a exposição intitulada “O Cântaro em Portugal: formas e utilizações”.

Mais do que um ícone português tradicional, o cântaro é um objecto com história. Possui um design que resistiu ao longo dos tempos e que foi sempre, com naturalidade, adoptado pelos povos e pelas diferentes culturas. A ausência de ornamentos na grande maioria das peças denota um claro prevalecer do funcionalismo face a qualquer outra intenção mais artística ou decorativa.

“Portugalmente” falando, a ele nunca se deixou de associar a imagem da mulher que, com uma mão na cintura num equilíbrio surpreendente e elegante, o segurava e transportava na cabeça. “Arte” que não é esquecida nas peças em miniatura dos nossos artistas barcelenses ou em escritos poéticos que nos ficam na memória – “Descalça vai para a fonte/Leanor pela verdura/Vai formosa, e não segura”. Uma forte imagem que ultrapassa os tempos e ilustra uma das principais utilidades do cântaro: transporte, serviço e armazenamento de líquidos (quer para uso doméstico, quer, por exemplo, no combate aos incêndios há mais de 60 anos).

Contudo, apontam-se ainda muitas outras utilidades. A maioria delas está relacionada com o trabalho de artificie ou agrícola: para reforçar a cor do ouro nos processos de corar e agemar, para o curtimento de azeitonas, ou para preparação e transporte da calda de sulfato (repare-se bem no verde do sulfato que envolve um dos exemplares da exposição).

Outras, bem menos utilitárias, prendem-se com o entretenimento e lazer. Basta lembrar o tradicional jogo de “corrida de cântaros” ou o cântaro em formato miniatura que, quando não um elemento decorativo, era um brinquedo (dos poucos que haviam) para as crianças. Convém ainda não esquecer a utilidade que poderia ter um cântaro partido. Se a forma se mantivesse, tanto poderia servir para cultivar flores como para uma galinha chocar.

No Museu de Olaria encontram-se expostos cântaros de diversos pontos do país. Destacam-se os vários exemplares do Minho (representado por Barcelos e Vila Verde) e da zona transmontana (Chaves e Bragança) que, em conjunto, completam cerca de metade da exposição. Á medida que se desce no mapa regional, o objecto assume diversas “variações”. O cântaro de duas asas do concelho de Almeida (Guarda), a bilha do distrito de Lisboa, a quarta de Loulé (Faro), o cântaro com tigela do Fundão (Castelo Branco), ou a bilha de Ponta Delgada (Açores) deixam transparecer a diversidade e a riqueza cultural do país.

Mais do que um ícone tradicional ou um objecto com história, o cântaro é também um digno retrato dos hábitos das gentes e da evolução dos tempos. É neste retrato que reside o interesse pedagógico da exposição que pode ser visitada até 30 de Junho de 2004.

fevereiro 2004

Exposição sobre a vida e obra de Ary dos Santos na Biblioteca
Poesia, revolução e silêncio

Ary dos Santos morreu a 18 de Janeiro de 1984. Há pouco mais de 20 anos. Poeta, comunista, publicitário e autor de algumas das melhores canções do Festival da Canção, no tempo em que Portugal parava em frente do televisor para assistir à europeização da cultura... Num tempo em que escrever o verso “quem faz um filho, fá-lo por gosto” (“A Desfolhada” na voz de Simone de Oliveira) era uma indecência. Num tempo em que a voz rubra de Fernando Tordo (“A Tourada”) quase se calou e se viu impedida de representar Portugal no Eurofestival. Num tempo em que ser comunista e participar activamente nas sessões de poesia do “Canto Livre Perseguido” era – passe a redundância – um “acto livre perseguido”.

Ary foi a voz poética do povo – um poeta da Revolução – “porque ser poeta é escolher as palavras que o povo merece”. “Tinha a capacidade única para encontrar a palavra certa para a música certa” (José Jorge Letria). Jorge Palma confessa que abandonou as letras anglo-saxónicas depois de ver Ary trabalhar. Ainda bem. Jorge Palma é hoje, seguramente, uma das principais referências da composição musical escrita em português.

Fora os sucessos “A Tourada”, “A Desfolhada” ou “Os Putos”, Ary dos Santos “era completamente rasurado”. “Porque era rebelde, uma pessoa incómoda e avessa a capelinhas literárias”. “Porque a instituição literária portuguesa não gosta da rua e dos palcos, que julga menores” (José Fanha). Talvez por isso não esteja referido na exposição “Cem Anos de Literatura Portuguesa – Nexos de Criação Literária do séc. XX”. Talvez também por isso (no sentido inverso), foi inaugurada na passada sexta-feira uma exposição dedicada ao poeta da “Rua da Saudade” – patente na Sala de Exposições da Biblioteca Municipal até ao dia 4 de Abril (ver pág. 19).

São vários painéis com apontamentos biográficos, poemas, fotografias e comentários, que reproduzem um pouco da fotobiografia “Ary dos Santos – o Homem, o Poeta, o Publicitário”, da autoria de Alberto Bemfeita (livro que pode ser adquirido por 29,40 €); alguns poemas manuscritos (“Sonata de Outono”, “Os Putos” ou “Memórias de Adriano”); troca de correspondência (Álvaro Cunhal; SPA). Podem também ser adquiridos os livros “As palavras das cantigas” (11,50 €) e “Obra Poética” (17,80 €) – ambos das Edições Avante – e o CD “As Portas que Abril Abriu”.

Num tempo em que a música se alimenta de uma indústria barata e comercial; em que abundam os repetidos e velhos pseudo-poetas da canção; em que a denominada música ligeira portuguesa se espelha num Festival da Canção tosco e apagado (para não falar na sua qualidade duvidosa); em que a revolução cultural é mais individual-solitária do que partidária-solidária; em que o ostracismo intelectual é camuflado por manifestos inócuos em prol da música e literatura portuguesa, … apenas incomoda o silêncio. Não o silêncio de uma Biblioteca contida na leitura, mas o silêncio de uma Sala de Exposições pouco visitada. Vazia de gente.

março 2004

“Cem Anos de Literatura Portuguesa” na Biblioteca Municipal
Os nexos e os desanexos do mundo literário

Encontra-se patente na Biblioteca Municipal, desde o passado dia 19, a exposição “Cem Anos de Literatura Portuguesa – Nexos na Criação Literária do Século XX”. Uma proposta que assenta, basicamente, numa classificação de autores por afinidades ou nexos (embora alguns autores sejam inclassificáveis e outros estejam ausentes), e numa aproximação de elementos comuns de correntes literárias e movimentos artísticos distintos. Daí os 5 “Nexos na Criação”: a crise precedente das rupturas na viragem dos séculos, do Decadentismo no final do séc. XIX (representado por nomes como Raul Brandão ou Camilo Pessanha) à transição para o séc. XXI (onde se enquadram, por exemplo, Natália Correia ou Virgílio Ferreira); as rupturas aclamadas pelas vanguardas, quer no Modernismo nas duas primeiras décadas do séc. XX com Fernando Pessoa ou Almada Negreiros, quer nas “novas vanguardas” dos anos 60 (Luiza Neto Jorge, Herberto Helder, entre outros); a subjectividade que aproxima o Movimento da Presença dos anos 70-90, aliando autores como José Régio ou Miguel Torga a Al Berto ou Ruy Belo; a consciência política como elemento de aproximação entre o Neo-Realismo e o Pós-25 de Abril com referências quer a Júlio Pomar e Aquilino Ribeiro, quer a Saramago, O’ Neill ou Lobo Antunes; e por último, o grupo dos ecléticos (uma ponte entre os anos 50 e os 70-90), umconjunto de autores inclassificáveis como Cardoso Pires, A. Bessa-Luís, Eugénio de Andrade, M. Cesariny, ou Paula Rego.

Independentemente do maior ou menor criticismo ou do relativismo da proposta, a exposição tem a seu favor a valoração e divulgação da arte e da literatura, podendo funcionar como um incentivo à leitura. Mas também à reflexão sobre a exposição em si e à sua articulação com a “vida cultural” da Biblioteca.


Um interessante catálogo…

O catálogo resume a exposição na sua totalidade. É gratuito, e apresenta um grafismo cuidado e uma atenciosa recolha de textos e imagens. Só por isso vale a pena a visita. A exposição propriamente dita, consiste num conjunto de painéis que reproduzem em ponto grande o conteúdo do catálogo, ou vice-versa. Independentemente da perspectiva, chega-se à conclusão de que entre o catálogo e a exposição em si, existe apenas uma diferença: o tamanho. Por isso, o visitante tem três opções: pode ler os textos e contemplar as imagens nos painéis (a opção mais demorada); pode apenas pedir um catálogo e nem sequer entrar na sala (a opção “eficaz”); ou pode, numa postura intermédia, pedir um catálogo e dar uma vista de olhos nos painéis numa pseudo-tentativa fugaz de encontrar diferenças.

Independentemente da escolha, o visitante-leitor, além de ficar com uma ideia geral da teia literária do séc. XX, pode sentir-se estimulado a uma leitura mais aprofundada das obras destacadas. Assim como, numa postura critico-reflexiva, a analisar a proposta de “nexos” apresentada.

Ou então, indo mais longe (ao andar de cima), suscitar a existência de desanexos entre a exposição e a Biblioteca: seja porque não existe articulação espacial entre a exposição e o livro-objecto original; seja porque as preocupações com a divulgação da exposição não se enlaçam às das obras de alguns autores, nomeadamente na área da poesia portuguesa. As prateleiras dessa secção encontram-se vazias há muito tempo devido a uma suposta catalogação (cada vez mais “eterna”) dos livros. A exposição cria uma espécie de nexo entre os autores e promove a cultura e o conhecimento. A Biblioteca também o faz. Mas com prateleiras vazias, sem uma catalogação competente e sem uma base de dados informatizada à disposição dos leitores, torna-se, evidentemente, mais complicado. É tão importante dar a conhecer como facilitar esse conhecimento. Por isso, recomenda-se vivamente aos leitores a consulta e a procura de poesia, embora em vão. Com exigência e persistência. Pois talvez, os livros sejam definitivamente catalogados e entre a exposição e a Biblioteca se venha a estabelecer, enfim, esse nexo.

Parafraseando Bernardo Soares: “Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem factos, a minha história sem vida”.

A exposição foi produzida em 1995 pelo Instituto Português do Livro e das Bibliotecas e pode ser visitada até ao dia 15 de Fevereiro durante o horário de funcionamento normal da Biblioteca e entre as 15h00 e as 19h00 durante o fim-de-semana.

janeiro 2004

12.6.04


Concerto de órgão e canto no Templo do Bom Jesus da Cruz
A música natural e infinita do Templo

É um instrumento musical fantástico. Enorme. Com um estatuto quase orgânico no interior do Templo do Bom Jesus da Cruz, quer no plano artístico e decorativo, quer num plano metafórico de máquina de energia em funcionamento. Uma espécie de pulmão musical e espiritual. Orgástico-espiritual. Sem pecado. Porque as palavras devem ser usadas na autenticidade metafórica do seu significado. Porque a música deve ser ouvida pela música e com todos os seus adjectivos libertadores da alma. Algumas pessoas benzem-se ao entrar no Templo. A liturgia reside no âmago dos crentes. Faz parte. Evidencia-se na mecânica dos gestos e na forma de estar respeitosa perante os olhares divinos e humanos. À medida que o concerto de órgão e canto decorre, o respeito por Deus e pela Igreja começa a fluir para a Música. Soltam-se alguns sorrisos pelas correrias das crianças impacientes. Trocam-se olhares familiares e distraídos com os elementos do coro. Como se dissessem “Estás a cantar bem!”. As orações dão lugar a palmas. Afina-se o olhar e o ouvido com o afinar do órgão. Fecham-se os olhos na contemplação da música mesmo sob o efeito de qualquer sonolência abstracta. Ou então, abrem-se, para a banda sonora perfeita de um documentário artístico e espiritual ou de uma visita guiada pelo Templo.

Jorge Alves Barbosa, sacerdote da Diocese de Viana do Castelo, organista, evidencia-se nas interpretações de Buxtheude (“Prelúdio e fuga em sol menor”), de Pachelbel (“Ária quarta em sol”), de Diego da Conceição (“Meio registo do II tom acidental”), de F. Couperin (“Ofertório da “Missa dos Conventos”) ou de J. G. Walther (Concerto em si bemol maior). O som do órgão transforma-se. Sem tecnologias de “botão”. Tudo se processa com ruidosos movimentos mecânicos. Ouve-se o respirar dos tubos e o calcar dos pedais. Distingue-se a suavidade das flautas. Destaca-se o som típico e familiar do órgão “bachiano” da famosa “Tocata e Fuga em Ré Menor”. Dissocia-se o toque libertino de uns anos 60 revolucionários sob o comando de um “Winter Shade of Pale” ou de uma criação intemporal de Gainsbourg (o órgão atravessou os tempos indo de um extremo ao outro – do som que se associa à Igreja e à música clássica ao som que se alia à revolução hippie). Esboça-se uma quase-gargalhada perante o som jocoso e “marreta” dos metais distorcidos. Muito próximo dos sintetizadores dos anos 80 especializados em efeitos de ficção científica. Portentoso! A imagem barroca também engrandece: a talha dourada que o envolve (executada por Miguel Coelho, célebre entalhador barcelense do séc. XVIII); os pequenos cinco anjos musicais no topo; e a, ainda mais pequena, face angelical na base, rechonchuda e tristonha, quase esmagada pela imponência.

Junto ao altar, enquanto o órgão descansa e hiberna musicalmente, o Coral Magistroi, de Carapeços, dirigido pelo maestro Manuel Fonseca, flui numa suavidade branqueada. Alguns rasgos vocais “neoblanc” são camuflados pelo todo das vozes. Passa-se para o oposto. Do som do enérgico órgão para a meditação do canto: “De Profundis” de Bach; “Crux Fidelis” de D. João IV; e “Vinea Mea – Responsório da Paixão” de Serafim Coelho. O pico dinâmico do concerto é alcançado com “Jesus alegria dos homens – Coral da Cantata 147” com órgão, coro e o violino de Paulo Teixeira. As sucessivas intervenções monocórdicas que introduzem os temas, embora pedagogicamente interessantes, quebram a dinâmica musical e dão-lhe um tom eucarístico.

O órgão do Templo do Bom Jesus da Cruz, construído por Calisto Barros Pereira, entrou em actividade no ano de 1731. Mais recentemente, em 1993, foi restaurado pelo organeiro Manuel Fonseca nas oficinas Masof – Organ. Não há tecnologia que o consiga imitar. Em termos musicais, orienta-se a crença no sentido da existência de pecado na sua não utilização e na sua subjugação a uma presença meramente decorativa à mercê do pó e da dissonante humidade. Assim, a comunidade (principalmente musical e artística) retribui o “infinito obrigado” da Irmandade do Bom Jesus da Cruz pela presença, na passada sexta-feira à noite, nas Comemorações dos 500 Anos do Milagre das Cruzes.

Março de 2004



8.6.04

Recital de ópera nas comemorações do Dia Mundial da Música
Do hábito à certeza

Promover um concerto de ópera nas comemorações do Dia Mundial da Música reveste-se de toda a previsibilidade monótona do “ter-de-ser” clássico. Ocasionam-se locais habituais, normalmente (pequenos) auditórios, e espera-se que por um milagre as pessoas “acordem” de programas televisivos ou cafezeiros e apareçam para ocupar todos os lugares na plateia. Ou, pelo menos, quase todos.

Na passada sexta-feira à noite, o número de pessoas presente no Auditório da Biblioteca Municipal para assistir ao recital de ópera do projecto Vox Angelis não ultrapassava 40. Em Barcelos já é um hábito. Já é um hábito as pessoas serem desinteressadas e passarem o tempo todo “a falar mal” do que vai acontecendo, dirão alguns; já é um hábito a publicidade/divulgação ser absolutamente deprimente, dirão outros; e não é hábito acontecerem “coisas” (essas “coisas” culturais) com regularidade e qualidade, dirão ainda outros. No entanto, e passem as redundâncias, absorvem-se algumas certezas: não é hábito acontecerem “coisas” culturais com regularidade (qualidade ainda vai aparecendo alguma); existem eventos que desaparecem do mapa cultural barcelense sem se saber muito bem porquê (alguém ouviu falar de Encontros de Música este ano?); a publicidade resume-se a “meia-dúzia” de fotocópias (por vezes a cores, vá lá) nas paredes que se confundem no meio de outras papeladas; não existe um espaço convidativo por excelência (o Teatro Gil Vicente, ou uma Casa da Cultura, para quando?); e, de facto, as pessoas desinteressam-se, não aparecem nos eventos (também porque não são informadas) e são corrosivas nas críticas. Por isso, quando se sai de casa para assistir a determinados espectáculos o cenário é previsível: salas vazias. Só não é previsível a qualidade dos artistas, quando desconhecidos…


Um bom concerto

O recital de ópera do projecto Vox Angelis aconteceu sem aquela penumbra que mistifica a figura humana no palco (as luzes do Auditório permaneceram sempre acesas). Mas, não foi por isso que deixou de ser merecedor dos mais significativos aplausos por parte do público. Aliás, algumas passagens vocais só não alcançaram o máximo do “arrepianço” porque o auditório não possui a excelência acústica merecida. Ao longo do concerto imperou a simplicidade. Quer na expressividade teatral típica dos gestos-ópera, quer na abordagem entusiasta de pequenas peças destacadas de obras bem conhecidas do público. Sobre o requinte do piano de Angel Gonzales a particularidade distinta das “personagens” vocais funcionou na perfeição do colectivo. E, ao mesmo tempo, todas elas se destacaram individualmente: Pedro Nunes, baixo-barítono, nas interpretações logo “a abrir” de “Avant de quitter ces lieux” (Fausto) de Gounod e de “Bella siccome un’angelo (Don Pasquale) de Donizetti; Maria José Carvalho, soprano, na busca melancólica de sentimentos-Puccini (“a voz que faz chorar”); e José Lopes na experiência incansável de interpretar a conhecidíssima “Ária do Toreador”, de Bizet, com uma voz mais espirituosa e segura do que o tema às vezes promete. De toda a (im)previsibilidade fica uma certeza: foi um bom concerto.

outubro 2004




IV Queima das Fitas do IPCA
O triunfo dos genéricos

Ainda é cedo. Dentro da tenda quase não há movimento. O dj vai pondo alguns discos a rodar (“os melhores hits de todos os tempos”); os seguranças, ainda descontraídos, vão preparando a sua pose mumificada para o trabalho; as barraquinhas de bebidas preparam-se abertas para ninguém. São 23h e chove. O espectáculo de Quim Barreiros está marcado para as 22h mas nada se passa. O horário é meramente indicativo. É necessário aguardar pelo “adormecer” diário da Festa das Cruzes (hoje, sexta-feira, pelo final do espectáculo de Luís Represas e da sessão de fogo piromusical), pelo “hábito-chegar” nocturno dos estudantes para a justa composição do espaço-tenda, e, quiçá, pelo amainar da chuva. Provavelmente, só depois da 1h00, Quim Barreiros entra no palco.

Enquanto nada acontece, no backstage conjugam-se os preparativos para mais uma noite e conversa-se com o presidente da Associação, Pedro ####, para uma análise crua de alguns aspectos fulcrais. Numa síntese frásica pode-se mesmo concluir: “ainda é cedo”.


A procura de uma identidade – a integração do IPCA na cidade

“Muitas pessoas ainda não sabem o que é o IPCA. Não existe um rosto, uma face, uma imagem que o identifique e distinga”. Enquanto não for construído o novo campus universitário, alguns problemas continuam a ser incontornáveis. As instalações – urbanamente diluídas no caos arquitectónico da Urbanização das Calçadas (“o dormitório da cidade”) – revelam precariedade física e constituem um complicado obstáculo para a realização de uma série de projectos e ideias próprias de uma academia estudantil. Projectos e ideias que passam, por exemplo, pela criação de uma sede para a Associação, de um café académico (para a realização de tertúlias), ou de uma companhia experimental de teatro.

No início, a festa dos estudantes do IPCA (antes de ser Queima das Fitas) era a Festa das Cruzes. No mesclar-se de ambos os eventos constatava-se uma adaptação dupla: a integração dos alunos na cidade apresentando-lhes o ex-libris festivo popular barcelense; e uma espécie de recepção de boas-vindas das mentalidades mais populares a um espírito novo na cidade. Essa perspectiva de colaboração prometia, sem dúvida, algo novo. No mesmo palco, exibiam-se projectos bem diferentes e envolviam-se públicos com tendências culturais distintas.

Depois, a festa estudantil autonomizou-se (ou quase, porque na individualidade dos cartazes os programas misturam-se, os espectáculos de Quim Barreiros, Luís Represas e Anjos fazem parte de ambos). Contudo, no duelo programático e na emergência de uma orientação única, o cariz mais popular parece ter vencido.


A programação das noites do “queimódromo”

Ao autonomizar-se, a Queima assume-se, finalmente, como a festa dos estudantes (com as habituais tradições: serenata, cortejo, missa de bênção das pastas). Através de um mini-inquérito, a maioria decidiu a programação do “queimódromo”. À Associação restou-lhe apenas “dar às pessoas aquilo que elas queriam”. Foi este o primeiro critério. O segundo (intimamente relacionado com o primeiro) prende-se com questões financeiras, por uma venda de bilhetes praticamente assegurada.

E o que é que os estudantes do IPCA preferiram? Preferiram o esquema de programação do ano passado, repetindo-o e estagnando-o, – requisitaram novamente o Quim Barreiros (“estava no topo da lista”) e os Neurónios Abariados (“porque são amigos”), e os Canta Bahia tomaram o lugar dos Dança Brasil (duas bandas musicalmente idênticas). Preferiram os comerciais Anjos e dispensaram as “demoníacas” bandas alternativas (recorde-se a actuação dos Urbana Fall no ano passado). Preferiram um programa de “festa, copos e danças” em detrimento de um programa culturalmente mais diversificado e eclético (os Rádio Macau perderam, sem qualquer hipótese, na disputa de um lugar com os Canta Bahia). E dispensaram a programação de pelo menos uma noite com bandas de Barcelos…

1h20. “Ainda é cedo”. Quim Barreiros prepara-se para entrar no palco. No ano passado estava muita mais gente (tem explicação?). O público já aqueceu ao som de Britney Spears e coisas do género. Está tudo pronto para cantar e saltar ao som do acordeão.

Divertem-se. É o triunfo dos genéricos.

(As Queimas são cada vez mais uma monocultura isolada e virada para si própria. Mesmo a de Coimbra regride e submete-se à pobreza cultural das maiorias. A noite carnavalesca do dia do cortejo – a noite diferente das outras em que os pimbas eram contratados para gozar ou para serem gozados – generalizou-se e foi elevada à imagem cultural do estudante universitário)

maio 2004

Festival de bandas “Avante Minho 2004”
Revivalismo e evolução (?): retrospectiva

Recuemos no tempo: dias 13 e 14 de Julho do ano de 1996. No palco do polivalente da Escola Secundária Alcaides de Faria a constelação urbano-artística barcelense (de “garagem”, sublinhe-se) organizava-se num desfile quase vertiginoso de bandas rock (e outros projectos menos enquadráveis no estilo) seguindo o regulamento de um concurso promovido pelo Partido Comunista. O objectivo era quase de atropelo: ser seleccionado para a final em Braga e, de seguida, para o Palco Novos Valores da Juventude na Festa do Avante. Nesse mesmo ano, os festivais de verão entram em ebulição: Vilar de Mouros regressava num revivalismo hippie de outros tempos e Paredes de Coura assumia-se como o verdadeiro festival alternativo. Os recém criados The Astonishing Urbana Fall (ex-Angelica’s Mercy) actuavam em ambos, disparando imagens sonoras únicas contra os mais “duros de ouvido”. No seguimento desse movimento desbravador (“lá fora” e “ex-garagem”) a cena musical barcelense despoletava – em argutas sessões experimentais – do embrulho enérgico para o pseudo-estrelato alternativo da então denominada “Seattle portuguesa” (não tanto pela réplica “grunge”, mas pela agitação eléctrica aliada à originalidade dos projectos).

No baú das recordações locais (daquilo que se passava cá dentro, bem dentro) sobrevive um cartaz intitulado “Fim-de-semana com novos valores musicais em Barcelos”, no qual figuravam os seguintes projectos: Dilema, Plebeus, Leitmotiv, Fuckmore (versão alternativa dos Fucklore), Quito, Servos da Gleba, The Gift (coincidência de nomes apenas), Just Creation, Oratory (talvez o grupo barcelense mais antigo ainda no activo... e com currículo internacional), The Grandmother’s Hole, Miguelito e Flávio, Ribanceira, Mortuária, Vallium, The Distortionable Sent eBarulhos do Cheiro. Venceram os Ribanceira. Só não foram ao Avante porque o júri, na final, gostou mais de uma réplica bracarense de uns (já) bolorentos Guns N’ Roses...



“Isto é punk, não é preciso tocar afinado”

Durante quase oito anos muita coisa aconteceu: os festivais de verão multiplicaram-se e uniformizaram-se numa gamela comercial (e não só); as Queimas foram perdendo o vigor cultural; o Cellos Rock (não confundir com o Rock na Barragem) ganhou asas de ícaro; o pote mágico de bandas barcelenses perdeu o “efeito-cogumelo”; sem espaços dignos para tocar, a grande maioria dos projectos afundou-se num diletantismo inoperante e outros, poucos, embarcaram num individualismo de resistência (e ainda bem); a política cultural e musical continuou a assentar na popular Festa das Cruzes e em eventos esporádicos sem direcção artística.

O evento organizado pela JCP no passado sábado – Avante Minho 2004 – teve o seu quê de revivalismo de concertos na Praceta Sá Carneiro (embora o espaço escolhido tenha sido o arborizado e pouco iluminado Campo da Feira): as condições técnicas dos primeiros tempos (colunas montadas em cima do palco); as sonoridades catalogadas em estilos vincados de alguns projectos (metal, grunge, punk); a qualidade de som fraca e instrumentos imperceptíveis quando se precisa de guitarras fortes (que o digam os Azia ou os Godiva); um público “de amigos” que timidamente se vai aproximando do palco (“é bom jogar em casa”); a ameaça de que os concertos têm obrigatoriamente de acabar à meia-noite (fazendo-se tudo pela transgressão...)

Assim, e por ordem de actuação: os Void, de Fafe, praticantes de um rock de estilo em misturas orientais e “satrianiescas” (leia-se solos virtuosos de esquisitos tecnicistas) conquistaram o segundo lugar ( e bem); os Godiva, de Famalicão, em dedicações guturais “para os iraquianos” perderam som nas guitarras metal imperceptíveis e guedelhudas o que pouco ganharam com o sintetizador gótico; os Cão da Laura, de Braga, quiseram pôr tudo o que sabem nas três músicas que impunha o regulamento – de nu-metal a sons “entre aspas” de chiclete – culminando no exagero de arranjos e desafinações q.b. para aquilo que se pode chamar: uma seca; os Surface, de Braga, inspirados num bobo da corte qualquer e nas vocalizações “grunge-pearl-jam” (mais um Eddie Vedder!) alcançaram, com a “balada da noite” (“de fazer meninos”), o terceiro lugar; os barcelenses Rendimento Mínimo apresentaram uma sonoridade eléctrica forte, clichés blues-rock de um Hendrix a bordo de um zepelim perdido no “Sonho Americano”, uma rouquidão-pedra (em português) a fazer lembrar Mão Morta e, com naturalidade, ganharam o passaporte para a final, a realizar-se na Costa da Caparica, no primeiro fim-de-semana de Julho; os Azia, “a primeira banda punk-rock de Barcelos dos tempos moderno-revivalistas pós Strokes”, não gostam dos “Meninos da Mamã” (provocam-lhes azia), e atiram-se nalguns sons borbulhentos (punk-teenager-Green-Day) à agitação e à atitude do estilo: “Isto é punk, não é preciso tocar afinado”.

junho 2004
Pesadelo Rock – mais um festival de música no concelho de Barcelos
“Ratazanas do campo”

Barcelos contou este ano com três festivais de música: o pioneiro Rock na Barragem, em Areias S. Vicente (ou melhor, o Cellos Rock na Barragem depois do “apadrinhamento” camarário); o MetalCova, em Vila Cova, dedicado ao metal; e o recém-criado Pesadelo Rock, em Carapeços. Numa altura em que os grandes festivais de Verão começam a revelar uma fase decadente, a verdadeira alternativa parece ser o pequeno festival em pequenas localidades. Nascem como cogumelos. E ainda bem. No passado sábado à noite realizou-se o Pesadelo Rock, no campo de futebol ACDC de Carapeços. A organização do evento foi da responsabilidade de Pesadelo Amarelo/A débil. Uma estreia a assinalar.

Punk-rock ao rubro

Eram quase duas horas da manhã. O enfurecido e energético vocalista dos cabeças-de-cartaz Mata-Ratos anunciava mais uma música. A pergunta foi simples – “Somos homens ou somos ratos?” – e a resposta de alguém da assistência não tardou em originalidade – “Somos ratazanas do campo!”. Gargalhadas. A legião de seguidores dos Mata-Ratos encontrava-se já num estado avançado de delírio (e etílico não?). Via-se pelos gestos, pelos berros, pelo abanar das grades de protecção do palco, e, essencialmente pelo mosh. Estranha dança feita de encontrões. O restante público, agora menos disperso pelo campo de futebol do Carapeços, achava piada. No palco, o vocalista “deitava fumo” pela cabeça careca. Pouco se percebiam as letras (impróprias para criancinhas), mas na frente agitada sabiam-nas de cor. Apesar das várias mudanças de formação da banda (iniciaram a carreira em 1982) o espírito punk-core mantém-se incandescente. Quem não se lembra da célebre “A minha sogra é um boi”? O auge de um concerto onde, de entre outros títulos também sugestivos, se destacam: “Dança com a merda”, “Ratos”, “Napalm na Rua Sésamo”, “Beber até morrer”, ou “Xu-pa-ki”. Mas também… “Amor eterno”. Em tempos de censura teriam pis também eternos…

A noite começou com os famalicenses Allison Bentley. A ausência não permite dizer mais do que isto: punk. Os Green Machine, de Barcelos, atiraram-se ao palco com um rock forte, ainda debutante, descendente de uns Zen ressacados e com raízes primitivas (mas não primárias) no blues-rock mais psicadélico. A ex-voz dos extintos Weird Nox regista-se rouca e quase-poderosa nos graves, com alguns resquícios grunge, mas agora despidos da colagem ao maioral Vedder. A postura é no mínimo estranha. Exprimem-se num dialecto proto-pseudo-“Azar Karadas”-ucraniano. Queixam-se do cheiro a estrume dos campos? Gozam com as imagens dos Kiss que aparecem no écran-candidato-a-écran-gigante? Lamentam o pouco público presente? Fica a dúvida. Há uma música que se chama [grunhido] e de repente deixam de falar pseudo-ucraniano. A última música vale pelo resto: viram as costas ao público e abandonam o palco em devaneios eléctricos. Uma surpresa.

Os Amazing Supersoopasound Clash apareceram no lugar dos The No Counts D.O.M. (nomes complicados não?). Fizeram a banda sonora perfeita para o Pesadelo. David Lynch em incursões experimentalistas pelo ruído electrónico, improvisos repetitivos, e alguns ritmos inconsequentes. Uma bateria, um Macintosh, uns pedais de efeitos, percussões e outras coisas esquisitas. Só. O palco arde. Os níveis de ruído sobem ao máximo. Distorções de guitarras artificiais, samples de vozes, percussões marcadas até ao insuportável, barulho. Trinta minutos de barulho numa viagem às profundezas do id. Uma viagem na qual quase ninguém embarca por, talvez, não se sentir preparada para isso.

Os Dance Damage, de Santo Tirso, substituíram os ausentes Brainwashed by Amália. O som estigmatiza-se pelo casio distorcido onde os 80’s sobrelevam uma postura kitch insana volátil. O vocalista conta estórias que metem “fucking” em quase todas as frases, o guitarrista desfigura o “casiotónico” (ou “casioatómico”) com laivos sónicos eléctricos. A postura revivalista é óbvia mas dignifica a possibilidade de reinvenção.

A partir daqui o cenário transforma-se. O perfil punk autêntico apresenta-se à frente do palco: sapatilhas All-Star; ganga curta, rota e enrodilhada; cabelos em susto animalesco ou em revivalismo encoracolado; garrafa de vinho na mão; piercings e afins. Os americanos Dui dão início à viagem punk. O som pela imagem. O punk quer-se assim. Nu. Sem hesitações, directo, fácil, “speedado”, com energia nas palavras e na postura.

O mosh à frente do palco é a sério. Tombos em violência soft (repare-se, quando alguém cai é imediatamente ajudado a levantar-se do chão). A qualidade do som parece medir-se pela movimentação. No final dos Dui (e antes dos Mata-Ratos) um “acrobata” visualmente nada punk transforma uma perfeita primeira experiência ao sair de cena extasiado: “Cá puta!”.

September 2004

Mo(nu)mentos musicais no Mosteiro de Vilar de Frades
Ouve-se o respirar…

“O desafio da moderna gestão do património alarga o campo de actuação a iniciativas que, para além dos trabalhos de investigação, restauro e valorização, têm por fim tanto a divulgação como a vivência dos espaços, não só como lugares de memória, mas também de reconhecimento da sua própria condição de contemporaneidade.” Com esta frase-síntese no seu texto introdutório abre-se o catálogo/programa do projecto Mo(nu)mentos Musicais, promovido pelo IPPAR. Trata-se de um evento que interliga os patrimónios arquitectónico e musical numa relação sóbria entre o legado mundano-musical clássico e a particularidade espacial intrínseca do monumento. Daí talvez a nudez que está subentendida na designação do evento. Daí talvez a ideia de momento no sentido de tempo presente. A ideia não é nova. Em 1999 promoveram a série de Concertos em Monumentos, em colaboração com a Orquestra Nacional do Porto, e em 2000 e 2001 organizaram-se os ciclos de concertos Espaços de Polifonia numa “estratégia de fusão entre o legado material (os edifícios) e imaterial (a música).

Em 2004 a música entornou-se, ou entronou-se, na Igreja Matriz de Torre de Moncorvo, na Área Arqueológica do Freixo, no Mosteiro de Pombeiro, na Igreja de Stª Clara de Vila do Conde, no Mosteiro de Arouca, no Mosteiro de Cete e… no Mosteiro de Vilar de Frades. Foi neste monumento seiscentista, em Areias de Vilar, que no passado domingo, pelas 18h, o Quarteto Camões deu um concerto que esteve muito perto do sublime – entenda-se esta sublimação num conceito de fusão entre a materialidade e imaterialidade, como corpo (o monumento) e alma (a música). Apresentem-se os músicos: Radu Ungureanu (violino), José Paulo Jesus (violino), Luís Silva (viola) e Gisela Neves (violoncelo). Eis a “photo-síntese”: um quarteto no cenário de um altar nu em (re)construção, despedido de talha e de outros elementos decorativos, e com um enorme pano claro a cobrir a parede de fundo (a fazer lembrar a simplicidade de uma obra de Christo).

O concerto iniciou-se com o Quarteto op. 3, n.º 5 em Fá M, de Haydn. A melodia invulgar (para a época) elevou-se na grandiosidade do corpo da nave. A espacialidade acústica “gentilmente proporcionada” pela abóbada salientou a forma magnificente dos pizzicatos da Serenada no segundo dos quatro andamentos da obra. Uma beleza que foi destronada, como se fosse um espelho musical partido da arquitectura estilisticamente mesclada do monumento, aquando da apresentação da segunda obra musical prevista no programa. O espaço transformou-se. Catorze Anotações de Fernando Lopes-Graça (“um músico que está à espera de ser reconhecido internacionalmente”, segundo o violinista Ungureanu) provocaram sentimentos-suspense cinematográficos numa banda-sonora perfeita para o technicolor-vitral de Hitchcock. Catorze peças muito curtas repletas de minimalismos agudos e equilíbrios dissonantes (notas “feias” e terríficas) e finais abruptos disparados numa reverberação em direcção (quase em desafio) ao pórtico Manuelino. Na agudeza agressiva de Black Angels de uns Kronos Quartet. Fora da Luz.

Na segunda parte o espaço foi conquistado pelo Quarteto em Lá b, op. 74, de Beethoven, mais conhecido por “As Harpas”. Uma peça mais longa que é quase a coluna vertebral (uma peça-síntese) de toda a obra do autor. Ouve-se o respirar dos músicos… e com ele o respirar do espaço. A música também reconstrói o(s) monumento(s)… Próximos a reconstruir: Mosteiro de Salzedas (dia 17), Mosteiro de Rendufe (dia 24) e Mosteiro de S. João de Tarouca (dia 31).

outubro 2004

Concerto da Orquestra do Norte no Templo do Senhor da Cruz

“No ano de mil quinhentos e quatro, sexta-feira, vinte dias do mês de Dezembro, às nove horas, pouco mais ou menos (...) vinha João Pires, sapateiro, pela dita rua que vinha da Ermida do Salvador em que há, pelo dito dia (...) que focemos ver e guardar uma Cruz que demonstrava um grande santo milagre que estava junto da Cruz, aos Carvalhos do Campo da Feira. (...) Em direito da dita cruz, no chão, em um barreiro, estava feita e assinada, que fica da mão direita quando homem veo do Salvador, uma mui proporcionada e talhada e direita Cruz, toda tão preta como esta regra em cima, de três côvados e três quartos em ancho e, de largura a quadra dela de um palmo e todo por igual...”.*
Do milagre nasceu a obra. Em 1705, João Antunes concluiu a planta do Templo do Bom Jesus da Cruz, monumento barroco aberto ao culto em 1710.

No dia 6 de Abril de 1774, W. A. Mozart (1756-1791), para quem tocar um concerto era a mesma coisa que realizar um milagre, compôs a Sinfonia n.º 29, K 201/186a. Doze anos depois de ter começado a encantar as cortes europeias tocando cravo e violino. Tinha apenas seis anos de idade e dizia-se que (também) era um verdadeiro milagre.
Em 1769, Sousa Carvalho, músico nascido em Estremoz em 1756, oferecia ao mundo a ópera buffa, “L’Amor Industrioso”. Uma obra coerente com a tendência estética do pós-barroco, do chamado “estilo galante”, caracterizado por um ritmo harmónico lento e uma fecunda inspiração melódica, muito associado a um certo recorte “mozartiano”.
Cem anos depois da concepção da Sinfonia n.º 29 e setenta depois da última intervenção no Templo do Bom Jesus da Cruz, nasceu Gustav Holst que, afastando-se das influências germânicas da altura e fascinado pela música folclórica, pelo oculto e pelo misticismo religioso, procurou estabelecer um estilo musical inglês, deixando uma obra atractiva para o “grande” público e talvez repulsiva entre os mais “eruditos”.
Eis uma tela barroca de ligações e separações artísticas que permite ilustrar o início das comemorações dos 500 anos do Milagre das Cruzes.
No dia 20 de Dezembro de 2003, pelas 21h30, assinalou-se a data com um concerto sinfónico da conhecida (e repetida) Orquestra do Norte dirigida pelo maestro António Sousa Baptista. Sob a luz do grande candeeiro do Templo interpretaram a Abertura de L’ Amor Industrioso, Sr. Pruz’s Suite de Holst, a Sinfonia n.º 29 de Mozart e um Divertimento deste mesmo autor.
Em termos musicais não foi nenhum milagre. Mas foi o suficiente para promover a articulação e interpretação (com fundo sonoro) de várias obras de arte - a talha, os azulejos, as pinturas, as esculturas, o poderoso órgão de tubos, o Templo e o seu desenho arquitectónico - e, ao mesmo tempo, conferir uma certa animosidade às “imagens” religiosas (incluindo pessoas presentes) que pareciam mudar de expressividade consoante a melodia. Por outro lado, a música manifestou-se como uma forma sensível de veicular mensagens católicas primordiais, assim como para dizer que em Barcelos, como em muitas localidades do país, também se organizam concertos clássicos na época natalícia. “Aqui está o primeiro número. Outros números ver-se-ão com o tempo”. Na lonjura da distância, esperemos. Algum dia, outro “milagre” há-de acontecer.

*(Frei Pedro de Poiares, Tractado Panegyrico em Lovvor da Villa de Barcelos, 1672).

dezembro 2004
Oratory actuaram no Festival Carviçais Rock 2004
No fim do mundo…

“Fica a 10 km depois do fim do mundo” – foi a expressão em tom hiperbólico usada por Pedro Cabral, baterista da banda barcelense Oratory, para descrever a viagem Barcelos-Carviçais-Barcelos realizada no passado domingo, e madrugada de segunda-feira após o concerto. Naturalmente… não é fácil. Ainda por cima, sob o calor abrasador tipicamente transmontano. As curvas são muitas e o sobe-e-desce das montanhas consegue ser tão desconfortável quanto é a paisagem em beleza.

No entanto, assinala-se no currículo a passagem por um dos festivais do roteiro de verão, por onde também passaram bandas como Therapy, Young Gods, Durutti Column, Mojave 3, Cousteau, Mão Morta ou Spiritualized. Nomes que impressionam, tendo em conta a dimensão do festival, bem pequena em relação aos principais festivais de verão (Sudoeste, Paredes de Coura, ou Vilar de Mouros), e com uma afluência de público àquem das expectativas (na sexta, por exemplo, registaram-se cerca de 2000 pessoas, um número pequeno para uma banda como Spiritualized). Mas não deixa de ser um bom exemplo a seguir, em termos de organização e de cartaz, por um Rock na Barragem, pretenso concorrente ao roteiro de festivais de verão (?).

Os barcelenses Oratory actuaram no terceiro dia do festival, um dia dedicado exclusivamente ao metal (o que não é muito normal em festivais de verão), com Prime, Thanatochizo e Anger. Foi o segundo concerto com o novo (ou melhor, “quase novo”) baterista Pedro Cabral, depois da saída de João Rodrigues. “Oito anos depois”, o baterista (que passou por bandas como This Isn’t Luxury, Stonehenge ou Le Cri Du Monde), regressou aos Oratory deparando-se com um cenário bem diferente. A banda abandonou os sons mais pesados e “assumiu um estilo único em Portugal” – “power metal” – com uma vocalista líder em agudos “quase-líricos” e melodias e letras profundamente épicas: “As time goes by / They know they‘ll find / The hidden gate to glory”. A versão de “Eternal Flame”, das Bangles, continua a ser o “quase-hino” auge dos concertos. Sem se saber ainda muito bem por culpa de quem, no final da noite de metal, as forças da natureza convocaram o elemento fogo em Carviçais (mais um incêndio!). É caso para citar: “the mysteries of the glorious nature are silently kept by the myths”. Ou terá sido (“sem querer”) fogo posto?

Depois de Carviçais, os Oratory actuam no festival de metal em Aveiro, no próximo dia 28 de Agosto. Entretanto, preparam o seu novo disco de originais (ainda em fase de pré-produção, nos estúdios da banda, Echo System) sucessor do internacionalizado Beyond Earth. Ficam alguns temas novos: “Blood Of The Fallen”, “As One”, “A Chance To Win”, “Angels Uprise” e “Behind The Glaring Eyes”.

agosto 2004

High Flying Bird e Miguel Oliveira no Olá Barcelos
Ensaios no quarto: anotações intimistas

Será que o som de uma guitarra quando vai além do quarto não deixa de ser intimista? Será que poderemos continuar a falar de uma “timidez vocal quebradiça” quando o “público” grupo de amigos se converte num grupo de pessoas que se conhecem superficialmente pelo café, ou pelos copos, em busca de puro entretenimento? Ambas as questões isoladas podem parecer insignificantes mas o seu enquadramento no conceito do Olá Barcelos (de animação de esplanadas) serve de ponto de partida para a análise de dois dos espectáculos agendados no final da semana passada: o de High Flying Bird, na noite de quinta-feira, na gelataria D. Nuno; e o de Miguel Oliveira, na esplanada do Café Visage, na sexta-feira.

Ambos remetem o espectador para a figura do artista solitário acompanhado pela sua guitarra acústica, numa mistura de simplicidade e palavras. No entanto, nos mais diversos pormenores manifestam-se as diferenças. A primeira reside precisamente naquelas duas questões e ajuda a reflectir sobre vulgarizada expressão “intimista”. High Flying Bird (nome adoptado por Bruno Lopes, também vocalista dos The Pisces) não sai do quarto. É tímido (ou envergonhado), introvertido pelas escolhas musicais e parece não querer cantar muito alto para não incomodar o vizinho esquisito (o que torna o ambiente interessante). Miguel Oliveira não. A voz é colocada (quase radiofónica) e bem direccionada aos ouvidos mais “hit parade” de amantes de música ligeira e karaokes. Não gosta de ficar no quarto e é o verdadeiro homem da viola na imagem “à volta da fogueira” de episódios adolescentes (“conhecem esta?”). Toca tudo e mais alguma coisa. No mesmo saco é capaz de colocar versões de Xutos & Pontapés, Delfins, Pearl Jam, Sétima Legião ou Beatles (ainda bem que não vai aos pimbas, mesmo pimbas).

Já as escolhas de High Flying Bird percorrem os trilhos da folk. A maioria das músicas são originais (do disco “Songs of Freedom”) e as versões são quase todas autênticos “hinos”: “Blowing in the Wind” e “All Along the Watchtower”, de Bob Dylan; “The Needle and The Damage Done”, de Neil Young; “Dolphins” de Fred Neil (celebrizada numa imponente versão de Tim Buckley); ou “Strawberry Fields” dos Beatles (adaptação folk?). No entanto, a voz perde por “não ter asas” e por querer, mesmo assim, voar alto demais nos momentos em que a manhosice de um Lou Reed ou a atitude rouca-quase-afónica de um Wayne Coyne (Flaming Lips) ficava bem.

Miguel Oliveira tem voz. Canta bem. Os clientes da esplanada rendem-se às melodias e letras que sabem de cor. Batem palmas (as incitações são frequentes), cantam sorridentes, e aguardam com entusiasmo pela próxima música numa tentativa de adivinhação aos primeiros acordes. Mas a distância criativa é enorme. Raramente apresenta uma música original (para não falar num estilo) e os “covers” adaptam-se quase por imitação ao acústico-“Resistência” num repertório já estanque. Mas, se o caminho for a interpretação… venham mais concursos tipo “Chuva de Estrelas” que a marca é garantia.

Julho 2004



7.6.04


Concerto de ópera no Auditório S. Bento Menni
“Barcelos nunca nos abriu as portas”


“Barcelos nunca nos abriu as portas” – censurou a representante do Círculo Portuense de Ópera (CPO), minutos antes de se ter dado início ao espectáculo. E, “porque os recados têm de ser ditos”, acrescentou ainda: “ao longo de todos estes anos estabeleceram-se vários contactos com os responsáveis autárquicos de Barcelos mas nunca conseguimos vir actuar”. O advento apenas foi conseguido no passado sábado à noite, a convite do director João Carvalho, para o encerramento das Comemorações dos 75 anos da Casa de Saúde de S. João de Deus.

Segundo o director da Casa de Saúde, o espectáculo merecia toda a relevância, não só porque era a primeira vez que o Círculo Portuense de Ópera actuava em Barcelos, mais concretamente no Auditório do Fórum S. Bento Menni, mas também porque talvez fosse o primeiro concerto de ópera realizado na cidade. Referiu ainda que, entre outras razões, embora tenha sido feita pouca publicidade (“apenas se espalharam alguns cartazes”), a plateia estava bem composta e se estava perante um bom público.

Contudo, podem-se fazer algumas breves considerações relativamente a alguns aspectos.

Em primeiro lugar, se atentarmos a uma análise mais rigorosa e a uma interpretação mais restrita do conceito de “ópera”, as expectativas apontariam para um espectáculo concentrado numa obra integral de um ou vários autores, com uma forte componente teatral e, no palco, além dos solistas/actores, a presença de um coro e de uma orquestra sinfónica. A “Noite de Ópera” do Círculo Portuense, essencialmente por não ter uma orquestra, distancia-se um pouco dessa ideia. Mas não deixa de ser ópera. Assim como também não deixa de ser ópera o concerto do Quarteto Vocal Rossini realizado em 2003, no mesmo auditório, inserido na programação dos IV Encontros de Música. No palco, sob a direcção do pianista/maestro Cristóvão Luiz, os dois solistas, Ana Barros (soprano) e Paulo Ferreira (barítono) foram acompanhados por um coro formado por cerca de 120 vozes. Palmira Troufa dirigiu a secção do coro infantil. O repertório, bem diversificado (uma espécie de “remix” de grandes referências), proporcionou aos espectadores momentos de prazer musical ao interpretarem temas extraídos de óperas e operetas bem conhecidas. Entre outras, destacaram-se “As Bodas de Fígaro” e “D. Giovanni” de W. A. Mozart, D’ Elisir d’ Amore” de Donizetti, “Cármen” de Bizet (com a conhecidíssima “Canção o Toreador”), “Tosca” e “Madame Butterfly” de Puccini, “Nabucco” e “Trovador” de Verdi, e “Carmina Burana” de Carl Orff.

Em segundo lugar, releva-se (mais uma vez) a importância de um auditório como o do Fórum S. Bento Menni no seio cultural de uma cidade. Apenas num espaço como aquele é possível realizar determinado tipo de eventos. Também é o único que existe em Barcelos. Infelizmente. Contudo, e apenas numa perspectiva de análise do espaço (sem qualquer intenção crítica), revelam-se algumas limitações. O palco, por exemplo, não tem dimensões suficientes para receber uma “grande” ópera, ou seja, é demasiado pequeno para albergar, ao mesmo tempo, um cenário, um coro (com 120 vozes) e uma orquestra sinfónica.

Em terceiro e último lugar, fica-se nitidamente com a sensação de que, um espectáculo com a qualidade apresentada no sábado à noite, com uma boa publicidade, teria motivado a lotação completa do Auditório. Isto porque, apesar do preço dos bilhetes ser de €12,5 (preço pouco usual no hábito cultural barcelense), mais de metade das cadeiras estavam ocupadas.

Segundo João Carvalho, “a Cultura deve ser difundida pelos órgãos autárquicos”. No que respeita à Cultura, a Casa de Saúde de S. João de Deus tem sido exemplar. A simples existência de um Auditório já é um excelente contributo para a cultura barcelense. Principalmente quando é o único que reúne determinadas características. E, efectivamente, “sem moralizar”, a Cultura deve ser difundida, principalmente, pelos órgãos autárquicos. Mas, uma divulgação eficaz não fará também parte do espectáculo? A divulgação é essencial. Deve ser feita ao nível da dimensão do espectáculo. E só (também) com ela Barcelos pode efectivamente abrir as suas portas.

Janeiro de 2004
Concerto pelo Grupo de Música de Câmara da Banda de Oliveira
Bis no Quaternário

Um ano depois da estreia na primeira edição do Quaternário, precisamente no dia 17 de Outubro de 2003, o Grupo de Música de Câmara da Banda de Oliveira regressou, no passado sábado à noite, ao Auditório de S. Bento Menni. Sob a direcção do jovem Samuel Castro Bastos (nascido em 1987) o programa do concerto manteve a sua estrutura habitual. No entanto, e o como seria de esperar, não se obedeceu a um repertório-papel-químico do anterior para uma execução mais experiente. Bem pelo contrário. Na segunda edição do Quaternário houve espaço para algumas modificações no alinhamento e para novos elementos ilustrativos da versatilidade musical de diferentes estilos. Claro que sobraram, por exemplo, os habituais e indefectíveis “La Concha Flamenca” de P. Artola e a “Abertura” de “Fall River” de Robert Sheldon, ou as “incursões no folk americano dentro do estilo das American Brass Bands”. Mas, na segunda parte do concerto, acentuou-se um outro brilho e notaram-se algumas alterações de relevo. Atente-se a troca do medley dos Abba pelo medley dos Queen: “I Want To Break Free”, “We Will Rock You” (com ritmo marcado por palmas), “Bohemian Rhapsody” (sem descurar qualquer pormenor frásico da célebre ópera rock), e “Bicycle” (o hit dos hits). Ou a eclética “Bands Around The World” de Paul Yoder e Harold Walters com uma apresentação sucessiva de bandeiras, impressas em cartão, consoante as passagens para um novo arranjo de determinado país. Por ordem: Inglaterra, Escócia, Alemanha, França, Espanha, Itália, Rússia, Japão, México, Estados Unidos da América e, por fim, Portugal. O único país que teve direito a uma bandeira “a sério” em rodopios e a um “medley dentro do medley” com quase todos os temas conhecidos das marchas populares. No fim ainda tocaram o inevitável “La Bamba”.

Não havia muito público mas, um ano depois, o Agostinho (lembram-se?) continua a marcar presença na primeira fila do Auditório. Entusiasmadíssimo. Tão entusiasmado com a música como com o jogo do Sporting que acontecia ao mesmo tempo… (fez questão de dizer a todos, no intervalo do concerto, que o resultado já estava em 2-0 para o Sporting). Mesmo assim, não trocou “a bola” pela vibração sonora dos metais (e, talvez, não trocaria mesmo que jogasse o clube cujo símbolo ostenta no relógio de pulso – o Porto). E lá estava o Agostinho na primeira fila. Sempre na primeira fila. Kispo colorido do Óquei Clube de Barcelos pousado na cadeira, camisa amarelo-torrado e uma “rigorosa” gravata de festa de sábado à noite. “A viajar para fora lá dentro”. E a vibrar com o tema extra do concerto – “La Bamba”. “Bis, bis…”

(O Agostinho é o mais falador de todos. É natural de Cabeceiras de Basto e há 13 anos que faz tratamento na Casa de Saúde de S. João de Deus. Quem dera que a generalidade das pessoas tivesse o mesmo gosto, o mesmo entusiasmo, a mesma postura, o mesmo prazer que ele tem por sair de casa e ver um espectáculo. As salas de espectáculo não estariam tão vazias. As audiências de “quintas de celebridades” não disparavam para a ignorância. E as “amplificações” de loucos futebóis certamente não atingiriam volumes tão insuportáveis).

Outubro 2004
“Cordas e Nem Por Isso” na esplanada do café Sandilha
Música para uma esplanada ruidosa

A música é calma. Muito calma. Os sons desembrulham-se através da subtileza do piano e do arrepio sonoro do violino (demasiado baixinho e tremeliquente). Os ruídos da esplanada do café Sandilha provocam o embaraço, como se fosse possível ter um ouvido atento à música e outro à conversa. A música continua lá no fundo, bem lá no fundo, e parece propositada a essa função (tão filme bar americano solitário) de banda sonora para uma esplanada ruidosa. O mini palco do “Olá Barcelos” (o “mini-milk” dos palcos) está demasiado afastado. Nas mesas mais próximas ouve-se a música com fundo sonoro de tilintar de copos, de vozes, risos e gargalhadas. Nas mesas mais afastadas ouvem-se conversas com um fundo musical pouco perceptível. A perspectiva é bem diferente. À escolha do freguês.

O projecto “Cordas e nem por isso” existe quase só para o Olá Barcelos. Depois da experiência tendencialmente jazzística com os Pituba (piano, bateria tuba e voz), o pianista João Dias recolhe alguns clássicos próximos e simplifica-os para piano e violino. “Autumn Leaves”, "Polkadots & Moonbeams" ou "Someday my prince(ss) will come" são alguns exemplos da vertente 50’s comum a ambos os projectos. No formato “Cordas e Nem Por Isso” tudo parece muito mais frágil e tímido (e fica bem). Não há a bateria nervosa, não há a voz, não há a preciosidade farta e grave da tuba. Há um piano muito mais líder e um violino solo bonito que (incompreensivelmente) não se quer destacar. Afasta-se do microfone (insegurança ou timidez?) quando o que importa cada vez mais é a atitude, o improviso ou mesmo a fuga agressiva para uma espécie de libertinagem musical anti-conservatório, ou anti-pauta. (O palco, seja ele qual for, é sempre muito mais pequeno do que o músico). E a esplanada estava mesmo a precisar muito mais de ser “incomodada” do que a ser um incómodo. Talvez por falta de tempo de ensaio, garantiu João Dias, ficaram “na gaveta”, por experimentar, as adaptações de temas mais recentes de outras vertentes musicais. Esperamos pela Carla Bruni na próxima actuação no dia 20 de Agosto.


Diversidade e eclectismo

Completar um programa musical para esplanadas não é certamente fácil. Por um lado, os projectos barcelenses repetem-se. Por outro lado, o perfeito equilíbrio entre a música (como essência artística) e a animação da esplanada é quase sempre uma incógnita: nunca se sabe se estaremos perante uma esplanada “bela adormecida”; se a música vai ser demasiado banda sonora ou um “isco” perfeito para os vizinhos que gostam tanto de ver actuações policiais (no ano passado houve autêntica animação); se o projecto se deixa intimidar pela proximidade com a esplanada (muitas vezes indiferente) e, consequentemente, se deixa contagiar por alguma apatia; ou se o público é mais apreciador de karaoke ou de música e músicos.

Talvez por todas essas razões o programa do Olá Barcelos vai no sentido assumido de diversidade e ecletismo. As tendências musicais (que variam conforme a esplanada) são obviamente diversas: blues, covers, jazz, folk, rock, pós-rock, flamengo ibérico, popular ou cabaret. E ganha muito. Porque também só pode ganhar. Apenas mais três apontamentos: o primeiro vai no sentido de que se começa a criar um núcleo barcelense de músicos amigos que, por não terem um Teatro Gil Vicente ou qualquer espaço digno para apresentarem novos projectos, se reúnem na esplanada (a título de exemplo refira-se João Dias e alguns projectos aos quais está ligado: Ribanceira, Projecto Alfinete, Pituba, Cordas e Nem Por Isso e Biarooz); o segundo manifesta a atenção que existe por novos projectos barcelenses válidos (os Biarooz vão ser certamente a grande novidade, a não perder); e o terceiro vai no sentido de uma (bem necessária) procura musical extra-barcelense – Jazza Live, Carlos Polónia Grupe, Kátaros ou Fatucha Leite e Juca Rocha (um belíssimo concerto de cabaret que promete).

Julho 2004
Duo de guitarra clássica no Subscuta
“Sonoridades Clássicas”

Ao quarto ciclo/mês de Subscuta o cenário transformou-se. O palco esvaziou-se de “aparelhos sonoros” e de duas estruturas de luzes laterais (raramente utilizadas: o ambiente foi sempre bastante soturno, raramente evidenciando as expressões faciais dos músicos). Na sua simplicidade despida, o palco albergava apenas duas cadeiras e dois tripés com pautas. O público, o do Subscuta, nem vê-lo. Apenas compareceram alguns, raros, que talvez tenham abraçado cegamente o ecletismo do evento e tenham decidido cumprir o ritual de sexta-feira à noite. Mas, se atendermos ao hábito (“aquele que faz os monstros”), as cerca de vinte e tal pessoas sentadas no auditório da Biblioteca Municipal, em nada condiziam com a imagem de um evento que tem apostado, claramente, numa tendência estilística alternativa (e aqui a música clássica nada deve). Mais parecia a composição do cenário dos “silêncios incómodos” das Quintas Musicais: pouca gente, um palco frio, uma distância enorme entre o público e os músicos. Oxalá o maestro António Vitorino d’Almeida venha para Barcelos de calças de ganga…

Do concerto registam-se: os virtuosismos dos guitarristas Rui Gama e Paulo Barros, sons bonitos, construções musicais aproximadas (com excepção das composições de Léo Brouwer), vibrações de nylon apaziguadoras e um sério convite ao adormecimento dos sentidos menos precisos (alguém no público havia dito que não precisava de estar de olhos abertos para contemplar a musicalidade. É verdade). Registam-se ainda as palmas imprudentes, sempre que houve espaço para elas, em “desrespeito” dos cânones comportamentais do estilo clássico, e, por momentos, os risos e falas das crianças “em recreio”, a reportarem a música para bandas-sonoras italianas (apesar das crianças não falarem italiano…) e para “brincadeiras” sonoras ambientais de Virgínia Astley e René Aubry.

O programa dividiu-se em duas partes. Na primeira parte: Sonate en Mi Mineur (Allegro mosso e Andantino mosso) de Padre José Galles (1761-1836); Sonata em Ré de Padre António Soler (1729-1783); Variazioni, Concertanti e Op. 130 de Mauro Giuliani (1781-1829); e Bajo la Palmera de Isaac Albéniz (1860-1909). Depois do intervalo tocaram as peças mais distintas, quer em estilo, quer em temporalidade de registo: Micro Piezas – Hommage à Darius Milhaud I, II, III e IV, do progressivo compositor cubano, nascido em 1939, Léo Brouwer,. De seguida, tocaram cinco peças para duas guitarras, do compositor mexicano Manuel Ponce (1882-1948): Scherzino Maya, Arrulladora Mexicana, Intermezzo, Scherzino, e Scherzino Mexicano. Finalizaram com Tarantella e Toccata de Pierre-Petit (1781-1829).

Na próxima sexta, as “sonoridades clássicas” vão ser “fabricadas” pelo quarteto de saxofones Sax Unlimited. Espera-se um outro cenário.

Junho 2004


Festa de angariação de fundos da Associação Cultural e Recreativa de Roriz
Como a Björk chega a Roriz

No plano festivo, Roriz já não é uma freguesia como as outras. A sua orientação recreativa já não passa apenas pelas celebrações religiosas nas datas tradicionais, tão iguais pelo concelho fora, com os habituais concertos “pimba”, luzes coloridas, carrosséis e foguetes. Aos poucos, começa a distinguir-se e a adquirir alguma individualidade. Muito por culpa da “pequena” Flora. Desde a sua participação no programa televisivo Operação Triunfo (OT), a música (ou tão só o mediatismo da mesma) conquistou as suas gentes. A Björk, por exemplo, através de uma interpretação nobre, mas também arriscada, chegou a Roriz, a outras localidades e a outras idades. A atenção foi conquistada. E, com normalidade, evidenciaram-se os sentimentos de orgulho e de pertença originados pelas relações de proximidade - a Roriz, pela naturalidade, e aos amigos e fãs, pela música e amizade. Somando a este aspecto a diversidade do programa de actividades da freguesia (teatro, música, moda e desporto) antevia-se a reunião de uma “grande família”. Por isso, não foi nada de estranhar a lotação do Auditório do Fórum S. Bento Menni, no passado sábado à noite, na festa organizada pela Associação Cultural e Recreativa de Roriz (ACRR).

A impaciência das crianças começava a manifestar-se nas suas constantes correrias. Os modelos já tinham desfilado na “passerelle” e o grupo de teatro da ACRR promovia atenção do público com a peça “O chá dos doutores”. A entrada de Flora demorava e somavam-se as interrogações sobre qual seria (ou quem seria) a surpresa OT. Provavelmente, já não seria uma surpresa. Depois da apresentação da equipa de ciclismo Pedal Clube a música tomou conta do palco. Os Roda Pé, banda de inspiração tradicional portuguesa “sediada” em Famalicão, apresentaram quatro adaptações originais de recolhas de Giacometti. Uma proposta interessante, e mais laborada do que o simples trocadilho do nome. Num momento popular humorístico, o idoso, mas enérgico, casal Zacarias de Freixo de Espada à “Xinta”, “interrompeu” o discurso da apresentadora e anunciou a “Festa da Flora”. Ou seja, fim de uma primeira parte sem Flora, início da segunda com ela, a solo e com projectos barcelenses dos quais faz parte (e dos quais já fazia quando ainda permanecia no “anonimato”). As previsíveis interpretações dos temas de Zeca Afonso (“Os Índios da Meia Praia”), Kate Bush (“Wuthering Heights”) e Björk (“It’s oh so quite”) transportaram momentos da OT para um espaço menos artificioso e muito mais vivo. Da mesma forma resultou a revelação da “surpresa OT” com as actuações dos amigos concorrentes. Para facilitar a identificação: Rosete, a do “À minha maneira”; Rita, a do “Shoop Shoop Song”; e André, o da “Feiticeira”. O típico “Boa Noite Barcelooos!” também não faltou. O público, rendido, assistia também à quebra da impaciência infantil com a “invasão” de palco. Grandes salvas de palmas. Os artistas do imaginário televisivo estavam ali, bem perto. Flora cantou ainda com outros projectos dos quais faz parte. Com os Stacatto no tema “Fantasia sem Tempo”, num estilo “festival de canção”, acompanhada de dois violinos (um pouco “tremidos”), saxofone e guitarra acústica. Com os Bardos, num estilo mais enraizado no tradicional irlandês e em retrospectivas medievais. E ainda, numa versão “rockeira”, com os Entropia (do qual também faz parte o seu irmão Leonel Miranda que acumulou, assim, a função musical no baixo, com a função de organizador do evento). Ainda bem que a atenção foi conquistada. O evento parece ter sido um sucesso. Apenas falta chegar à “Islândia”.

Fevereiro 2004