A “viagem” da Dimensão e a dimensão da Viagem
Entra-se na loja. Sobem-se umas escadas para o primeiro andar e ainda outras para o segundo. Abre-se a porta e entra-se na sala. E, desde logo, este pensamento pode ocorrer e ser comum a muitos visitantes: “excelente espaço para fazer uma exposição… e não só”. A nova galeria Dimensão, situada na Rua D. António Barroso (Rua Direita), tem uma linha arquitectónica interior cativante. Antiga e a precisar de obras. Mas, é precisamente esse “precisar de obras” que lhe dá um aspecto artístico interessante e uma importante ideia de (re)criação do espaço e da sua (possível) dimensão. Falta-lhe a música, o café e, mais do que o “passar”, o “estar”. Alguns requisitos essenciais para um espaço cultural e artístico que se procura cada vez mais e que Barcelos tanto carece e merece. Uma possível, ou melhor, nada impossível “viagem” da Dimensão.
Desde o passado sábado que nela se encontra, pela primeira vez, uma exposição – “Tibete, Ladakh e outras fotografias” do fotógrafo barcelense Mica Costa Grande. A dimensão da Viagem revela-se nas imagens: paisagens das magníficas montanhas dos Himalaias onde construções humanas (mosteiros tibetanos) se incorporam e se relativizam; rostos enigmáticos cinzentos e outros sorridentes, donos de uma espiritualidade imensa; cores alegres de um “paraíso escondido” que só não consegue “esconder-se” da ocupação chinesa; encostas rochosas adornadas com pinturas e bandeiras rituais. Um “paraíso” fascinante. Certamente muito mais fascinante para o autor das fotografias. Porque o conhece e percorreu. Porque, também, a dimensão das viagens reflecte-se no fascínio pelo mundo e em especial pelo Tibete.
Mica Costa Grande foi professor de fotografia na Escola de Artes do Instituto Politécnico de Macau, entre 1990 e 1997, e colabora, na qualidade de fotógrafo free-lancer, em diversas publicações na Europa e Ásia. Além de várias exposições em Macau e Portugal, destacam-se as viagens: viagem terrestre (numa auto-caravana) pela Rota da Seda entre 1984 e 1986; expedição ao Planalto Tibetano (3 meses de camião) em 1992; cordilheira dos Himalaias, Ladakh, e Índia em 1991; Palau e Atol de Kayangel (ilhas do Pacífico) em 1994; floresta tropical do Bornéo e Monte Kota Kinabalu em 1996; subida do Rio YangTze e Montanha Amarela em 1998; travessia do Planalto Tibetano – Lhasa-Katmandu em 1998; Malásia Ocidental em 1998; início da viagem terrestre de volta ao mundo (num Toyota Landcrusier 100) por Macau, China, Laos e Tailândia em 2000; Cambodja e Birmânia de bicicleta em 2000; S. Tomé e Príncipe em 2002; Europa de Copenhaga a Palermo e de Budapeste a Lisboa em 2002; e planeia em breve completar a volta ao mundo com o seu novo camião, o “Bartolomeu” – apresentado recentemente no programa televisivo Herman Sic.
A exposição contém apenas 28 fotografias – ampliadas e transformadas. Podem, juntamente com outras, ser encontradas no sítio www.ritosdepassagem.com. O autor prevê, ainda para breve, o lançamento de um livro intitulado “Tibete”, com textos do diário das viagens e um considerável número de imagens.
janeiro 2004