um blogfolio de coisas sonoras

21.9.13

Efeitos opostos

The promise of the iPod and the download culture in general is that people will become open-minded, into music as a whole as opposed to a specific nook or niche of it. Yet the abundance, diversity and ease of access that we now enjoy seems to have actually had the opposite effect. p.121

Agora que existe uma facilidade tremenda na comunicação e na descoberta de música, parece estar a assistir-se ao desaparecimento de uma plataforma de verdadeira partilha e a um consequente fechar das mentes (ou será antes ao contrário?). Talvez não fosse algo tão imprevisível. É que ao mesmo tempo em que se abrem portas ao conhecimento e ao livre (ou pelo menos mais fácil) acesso a objectos musicais; assiste-se também a uma outra forma de ouvir música, limitada quer às constrições de qualidade e de tempo, quer ao vazio de ausência de um objecto. A questão aqui nem é o facto de se ouvir cada vez música com pequenos auscultadores de um iPod. Lembremos-nos apenas que o Walkman já anda por cá há anos. A questão é bem capaz de residir antes na superficialidade com que o ouvinte se liga intelectual e emocionalmente aos objectos musicais, hoje em dia numa clara vertigem para a desmaterialização. 

Três considerações em relação ao objecto-vinil e o que o diferencia do formato digital:

(1) ouvir um disco em vinil implica sempre uma série de rituais. Limpar a agulha, tirar o pó ao disco, virá-lo para ouvir o lado B. Existe o contacto com um objecto de música que deve ser cuidado. Por outro lado, a separação física entre o lado A e o lado B funciona como fronteira concreta entre duas partes distintas. O disco era pensado e gravado tendo em conta esse facto. Com o aparecimento do CD deixou de existir essa fronteira e o álbum passou a ter uma duração (demasiado) ampla (74 minutos) porque a tecnologia o permitiu. Com o mp3 essas fronteiras tornaram-se ainda mais indefinidas e definitivamente abstractas.

(2) o vinil ocupa espaço. A grande vantagem de poder coleccionar (e quiçá de ouvir) um maior número de álbuns acarreta consigo o desvanecer de um filtro padrão de qualidade. Havendo mais espaço para guardar música existe também um acumular de discos que certamente não os teríamos em objecto físico. Músicos que até nem são os nossos preferidos ou que até nem gostamos muito, mas vá lá, temos espaço para eles no disco duro ou num disco portátil. 

(3) o vinil tem um preço e sabemos que nesse preço está o objecto em si, a impressão do vinil, o design, a qualidade do papel. Com a desmaterialização toda essa relação física desaparece e ideia de propriedade é também ela abstracta. O objecto de propriedade é agora um iPod ou uma conta num serviço de streaming. A música pode ser comprada mas, sejamos francos, também pode ser trocada entre usuários de internet, através de um acto a que se tornou usual chamar download ilegal. Existe, portanto, uma clara desvalorização do ter objectos. Aquilo que as pessoas estavam dispostos a pagar por um disco transferiu-se para os reprodutores digitais, os computadores, os telemóveis, ou mesmo os auscultadores. 

Estas três tendências, entre muitas outras, condicionam muito a forma como se ouve música hoje em dia e talvez possam explicar em parte a ausência de abertura musical e partilha. Parece-me, aliás, não tenho dúvidas, que existe (ou existia) mais eficiência na partilha de cassetes entre amigos do que na partilha de um link para o YouTube via Facebook. Pode ser mais imediato, mas no seu âmago é um acto insípido que não prende o gosto comum por determinada música, álbum, ou artista. Posso constatar isso todos os dias no escritório. Toda a gente de auscultadores nas orelhas, mesmo (e até principalmente!) quando alguém resolve colocar algo a tocar nas colunas. É a prova que já não existem, nem se cultivam, lugares comuns para se fazer jus à experiência colectiva que a música possui e merece.