Em 1992 Robert Wyatt gravou por casa, em quatro pistas, vinte minutos de memórias de Portugal nos anos 1950s. Na capa esverdeada vê-se um barco e um miúdo (o próprio) na praia. Parece ser na Nazaré. Mas poderia ser noutro lugar da costa lusitana. Wyatt refere-se à sua própria imagem como um fantasma (a presença de fantasmas é uma constante na obra de Wyatt) e às peças de A Short Break como representações abstactas de cinco fotografias: uma com barcos, uma com mulheres da beira-mar, uma (a da capa) com o próprio a entrar na água, uma com uma mulher de negro, víuva talvez, com uma bacia na cabeça, e uma dele (parece) de calções junto a um autocarro. As canções soam incompletas, rascunhos vagos, melodias dispersas: Tubab significa europeu rico, Kutcha é um molho, Venti Latir é uma dança como uma ventoinha eléctrica, da palavra francesa ventilateur. Não são palavras inventadas. São palavras da língua wolof falada na África Ocidental, principalmente no Senegal, mas também na Gâmbia, Guiné-Bissau, Mali, República Dominicana e Mauritânia. Wyatt retirou-as do glossário do livro Our Grandmothers’ Drums de Mark Hudson. Títulos de origem africana que Wyatt assimila num trajecto óbliquo de influências melódicas do jazz, como se este fosse beber às suas raízes mais profundas. Os arranjos são simplificados a um número mínimo de instrumentos (todos tocados por Wyatt) e, de uma certa forma, transportam uma espécie de melancolia de uma vaga ideia de férias longíquas num lugar, país, onde existem “diferentes formas de viver”. Esse país já não existe, mas Wyatt deixa-nos aqui um registo que, mesmo sendo meros rascunhos, invoca um lugar-fantasma revivido em fotografias a preto-e-branco.
10.9.13
Discos Voadores: Robert Wyatt - A Short Break
Em 1992 Robert Wyatt gravou por casa, em quatro pistas, vinte minutos de memórias de Portugal nos anos 1950s. Na capa esverdeada vê-se um barco e um miúdo (o próprio) na praia. Parece ser na Nazaré. Mas poderia ser noutro lugar da costa lusitana. Wyatt refere-se à sua própria imagem como um fantasma (a presença de fantasmas é uma constante na obra de Wyatt) e às peças de A Short Break como representações abstactas de cinco fotografias: uma com barcos, uma com mulheres da beira-mar, uma (a da capa) com o próprio a entrar na água, uma com uma mulher de negro, víuva talvez, com uma bacia na cabeça, e uma dele (parece) de calções junto a um autocarro. As canções soam incompletas, rascunhos vagos, melodias dispersas: Tubab significa europeu rico, Kutcha é um molho, Venti Latir é uma dança como uma ventoinha eléctrica, da palavra francesa ventilateur. Não são palavras inventadas. São palavras da língua wolof falada na África Ocidental, principalmente no Senegal, mas também na Gâmbia, Guiné-Bissau, Mali, República Dominicana e Mauritânia. Wyatt retirou-as do glossário do livro Our Grandmothers’ Drums de Mark Hudson. Títulos de origem africana que Wyatt assimila num trajecto óbliquo de influências melódicas do jazz, como se este fosse beber às suas raízes mais profundas. Os arranjos são simplificados a um número mínimo de instrumentos (todos tocados por Wyatt) e, de uma certa forma, transportam uma espécie de melancolia de uma vaga ideia de férias longíquas num lugar, país, onde existem “diferentes formas de viver”. Esse país já não existe, mas Wyatt deixa-nos aqui um registo que, mesmo sendo meros rascunhos, invoca um lugar-fantasma revivido em fotografias a preto-e-branco.