Eremita, anacoreta, solitário são adjectivos de Scott Walker. Um ser esquisito, ancorado em supostas depressões, auto-renegado do estatuto pop dos Walker Brothers e de uma carreira a solo de crooner e intérprete de Brel. De vez em quando lança um disco, mas o palco é uma miragem. Tilt, The Drift, Bish Bosch, discos avant-garde intragáveis para muitos e mesmo para os devotos da série de 60s de I a IV. Não obedecem a normas, dividem opiniões, mas são autênticos objectos de estudo de académicos, intelectuais da musicologia, e gurus do século XX: Bowie, Eno.
Não muito depois do lançamento de um livro e de uma espécie de debate no café Oto, fica no ar, via mensagens em fóruns, que Walker é por vezes avistado em Chiswick a andar de bicicleta. Isto em si é uma porta aberta para encontrar o homem. Primeiro, porque Chiswick é local de romaria laboral. Segundo porque sabendo-se que o homem não se veste de preto, de fato e gravata, nem anda de limusina, seria porventura fácil de reparar nele na fila do supermercado ou entre uma multidão de transeuntes.
Em agosto de 2012, durante a hora do almoço, a caminhar de cabeça baixa no passeio com uma sandes na mão, o aqui anónimo trabalhador de escritório cruza-se com Walker. Não é o tipo aprumado todo Divine Comedy ou todo Eno. É um tipo de roupas largas beije, boné quase a tapar os olhos, a empurrar uma bicicleta carregada de sacos de compras. Os olhares cruzam-se. "Aquele era o Scott Walker. Será que era o Scott Walker?" O momento torna-se impossível. O músico anacoreta, o homem impensável, aquele que não vai para o palco, o mito.
Inversão de marcha. "Excuse me, are you Scott Walker?" Voz grave (era ele): "Yes". Silêncio. "Great to see you". Com um sorriso: "great to see you too". Tradução: mas quem caralho és tu? O imprevisto desarma e fica-se sem palavras. O embaraço do anacoreta por ter sido reconhecido na rua não ajuda. "I really admire you". Olhos abertos: "thank you". O que escreve isto em camera lenta, a nem sequer se lembrar de perguntar pelo boato de um novo disco (Bish Bosch), e ambos a seguirem caminhos opostos.